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Revivalismo

Algumas pistas para um fenómeno que assola a música e a criatividade em geral. Géneros Punk, House, Rock, Techno ou Disco seguem um padrão repetitivo?

Estamos em 2009, passa quase uma década desde o inicio do novo milénio e o que temos para mostrar? Carros voadores? Skateboards sem rodas? Nada disso, pelo contrário parece que estamos a olhar cada vez mais para o passado na procura de inspiração, até mesmo na actual substituição do metrosexual pelo ubersexual como homem era visto há 50 anos.

Na música o mesmo se passa, vivemos com bandas que emitem fortes sinais ligados ao post-punk ou krautrock do fim dos anos 70, bandas chamadas de Nu-Rave que imitam descaradamente os movimentos New Wave e Rave dos anos 80, projectos de Disco e edits apelidados de Nu-Disco que vão buscar componentes do movimento balearico inicial, house clássico, italo e dos edits toscos white label da mesma altura e ai por diante.

Este não é um texto sobre um revival especifico, ou que explique qual o próximo género em esperar ou lista de dez álbums a sacar da internet durante esta semana.

Será que acabou a originalidade – como defendem os mais descrentes? Será que o momento de mais alta inspiração do século passado foram 3 acordes numa guitarra acústica? Ou podemos antes definir isto tudo como uma maneira de suavizar a constante evolução musical? Prefiro pensar desse modo.

Os gregos helenistas inventaram o conceito historia de auto-consciencia histórica tal como a conhecemos, foram os primeiros a experimentar o revivalismo, ao actualizar o estilo Arcaico cerca de 500 anos depois do seu aparecimento inicial e actualizando-o para a sua época.

Este conceito de introspecção permite-nos talvez ligar a raízes perdidas ou procurar algo que parece ter sido deixado de lado e que devido a outras razões volta a ser necessário; da mesma maneira que a tecnologia parece avançar cada vez mais rapidamente também estes ciclos se repetem cada vez com mais frequência.

A música também passa por fases, algo novo aparece no underground, atinge o mainstream, perde o interesse do underground, e depois também o do mainstream…e passados vinte anos, dez anos, cinco anos alguém pega nos restos do movimento e recria como seu. Isto não pode ser visto como uma imitação do movimento inicial se a pessoa não passou por essa época e o conjunto de factores que levaram a sua criação, mas antes como uma homenagem ou um simulacro da imagem mental que essa pessoa tem de tal época, seja vista por roupa ou por tecnicas de engenharia de som.

No entanto, movimento inicial desapareceu e já não há mais lenha que mantenha o fogo – deste modo também este clone moderno não tem hipóteses de sobreviver sem sofrer mutações; as quais parecem ser mais vagarosas do que na realidade são e apoiando-se em suposições antigas renovadas e ligadas à nova vaga.

Existe também um certo grau de rebelião na maneira como estes movimentos encaixam, eles parecem vir numa sequência relativamente parecida, talvez porque tal como um filho que tenta ir contra os pais também musicalmente tentamos fugir o mais possível do que parece ser visto como o som velho: se no Top do supermercado são guitarras, talvez seja a altura de criar algo realmente digital, se a musica esta demasiado barulhenta procuramos algo que seja mais calmo ou melódico.

A música não estagna, não podemos ver a sua historia como um pedaço do passado, mas como um puzzle de varias componentes e uma destas é a actualidade. Da mesma maneira, não podemos ser levados a crer que a melhor musica já foi criada quando a nossa ideia das décadas passadas são compilações de algumas faixas no meio de milhares de bandas que nunca foram gravadas ou cujas gravações ficaram perdidas no tempo.

Se a musica moderna tem pouco mais de meio século, sera que existia revivalismo anteriormente?

Curiosamente nos anos 80 a musica dos anos 50 e 60 como o Jive chegou ao top das charts nos EUA. E onde estaria o Post-Punk nos anos 70 sem a exprimentação sonora de pessoas como Cage, o Punk e a musica africana original.

Do mesmo modo no início de 70 o Punk pegou no som cru do Rock e Blues original como reacção ao Rock Progressivo e a sua rebelião não passou de revivalismo, alguns anos antes os beatniks rebeliavam-se contra o Rock escutando Jazz, que apareceu no século XIX com o surgimento de um maior número de pessoas de cor que aprendiam a utilizar instrumentos ocidentais e adaptando música africana, sul americana e cânticos.

A partir daqui pouco está documentado sobre esta evolução, mas acredito que desde que a primeira pessoa tentou criar música com o seu ambiente este puzzle tem-se composto, revivalismo sobre revivalismo.

Já agora, será que o Homem de há 50 anos pode ter iPhone?



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