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Ricardo Filho de Josefina

“Tempestade de Cactos”. De 16 a 30 de Novembro, na Lx Factory

a pouca claridade anuncia escuridão, mal educada não pede perdão.
pelos pés de leão, o marinheiro deita-se na cama
junto à janela de vidros molhados com olhos de dor por amor.
dorme sozinho, quase sempre com frio junto à janela.
o vento companheiro do marinheiro, toca na pele
e suave embala como beijo provoca amor na dor.
pára por pavor, se faz dor.
morde e engole tudo o que no mar esqueceu ao lado da vela rasgada,
desgraçada voou.
mudo no fundo e água que dorme de remorso, matou quem no mar amou.

 

.tempestade de cactos., de Ricardo Filho de Josefina

 

“Tempestade de Cactos” é a exposição de 15 fotografias analógicas de Ricardo Filho de Josefina, inaugurada no passado dia 16 de Novembro, no sPAce – printed by actions, na Lx Factory (noite de Open Day deste espaço em Lisboa).

Depois de “Leopardos no Deserto”, um conjunto de paisagens de várias viagens que realizou por Portugal – também estas em formato analógico – é tempo de mostrar a “Tempestade de Cactos”. A segunda parte de uma trilogia que teve início em 2012, apresenta o dia-a-dia profissional de Ricardo passado entre navios, portos e marinheiros. Aquilo que vê, e sente, é registado e guardado em cada negativo que traz consigo – uma influência do pai, que durante a infância e adolescência alimentou o gosto de Ricardo em ter o passado perto de si.

Nasceu em Lisboa e foi entre as Janelas Verdes e Ourique que cresceu. Desde então, tem dado a conhecer o seu trabalho em exposições individuais e colectivas: “Sleep City #2” ou “HOME – a photo project”“Agora ou Nunca e Nunca Depois”, um conjunto de fotografias com elementos das bandas Linda Martini e Adorno, apresentado na Galeria Zé dos Bois, em noite de concertos com ambas as bandas. O seu trabalho também pode ser visto habitualmente no Jornal “Pedal”, onde é colaborador ou em: www.ricardofilhodejosefina.com.

Mas a RDB quis saber mais, e decidiu entrevistar o Ricardo.

Qual a origem do título da exposição? O significado linguístico deste, tem ou não influência directa nas fotografias que integram a exposição?

Gosto de escrever e de dar títulos a pequenos textos. Gosto de frases pequenas que não digam nada só por si. Neste caso foi uma frase que gostei tanto que a juntei com as fotos da exposição e não há qualquer tipo de relação directa entre as fotografias e o título da mesma. Gosto de coisas aparentemente sem sentido, quem tiver uma boa imaginação pode dar-lhe um significado ou compor um conceito para encaixar tudo, senão fica assim mesmo e fica muito bem. Tempestade de Cactos pode ter ou não a ver com navios, mar e portos, mas as fotos têm.

O facto de as fotografias da exposição serem analógicas, o que revela de ti e do teu trabalho?

Não sou fundamentalista do analógico, mas tenho preferência por este tipo de fotografias, tanto do resultado final como de todo o processo que isso implica. Há uns anos tentei fotografar em digital e não gostei. Para além da fotografia em si, faltava o rolo, os negativos e a compra dos mesmos. Abrir a máquina, meter mais um rolo… disparar a máquina e reparar que aquele rolo acabou e não vou poder usá-lo mais. Não sei o que revela sobre mim, mas adoro ver os rolos embalados nas caixas, ir à procura deles, comprá-los na internet, trocá-los, usá-los e pensar no resultado final durante o processo de revelação.

Quais as tuas referências e/ou “fontes de inspiração”?

Gosto do trabalho de fotógrafos como Stephen Shore, Henri Cartier-Bresson, Lee Friendlander, Luke Byrne, Randy Martin ou Drew Woods. Não sei se são fontes de inspiração, mas adoro viajar, conhecer novos sítios, não estar parado no mesmo lugar, tirar fotos, ouvir música – mais e mais. Os meus amigos, as pessoas que me fazem sentir bem. Lisboa, o dia-a-dia, o gostar de alimentar tudo isso e fazer permanecer certos momentos. No caso específico da Tempestade de Cactos, esta exposição é o resultado disso mesmo, do meu dia-a-dia profissional passado entre portos e navios.

No Jornal Pedal, onde és fotógrafo, concilias o analógico com o digital?

As minhas fotos para o Jornal Pedal são exclusivamente analógicas.

Qual a tua opinião, no que toca ao panorama actual da fotografia?

Apesar de achar que a fotografia atravessa um bom momento, com trabalhos e exposições importantes e interessantes a acontecer, às vezes acho que faltam mais exposições de fotografia e que esta é preterida em relação a outro tipo de arte. Faltam também muitas paredes brancas para fotógrafos amadores mostrarem o seu trabalho, porque há coisas bem interessantes que ficam escondidas.

 

A fotografia não é sinónimo de paixão, nem uma necessidade. É sim um armazém ou uma arrecadação onde são guardados momentos, dias, viagens e sentimentos. E com o negativo, Ricardo Filho de Josefina consegue guardá-los para sempre.



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