Sunn O))) @ Lx Factory
Rituais e teatro. 2 de Fevereiro de 2010.
Eu não era capaz de distinguir Black Metal do Doom Metal, nem este do Drone Metal mesmo que me encostassem uma pistola à cabeça.
Os Sunn O))), diz a Wikipédia (e eu acredito porque não percebo nada disso), combinam os três estilos. Não sou nem um pouco mais ou menos entendido em Metal. Lembro-me de me emprestarem uns discos de Megadeth, de Iron Maiden e tal, quando era puto, mas fiquei-me pelos Metallica.
A pergunta que se coloca é: Porque carga de água é que este gajo nos vem para aqui falar deste concerto, se no fundo, não percebe nada disto?
Ora bem, respondo eu, os Sunn O))) (diz-se Sun; outra vez a Wikipédia), apesar de praticarem e amarem profundamente o género musical em que se incluem, são diferentes. A sua música é mais experimentalismo sónico do que convenções bafientas que, perdoem-me os fiéis, associo ao género.
A música dos Sunn O))) não dá para grandes movimentos de cabeça (o chamado headbanging). Nem para bater o pezinho dá. Não tem ritmo absolutamente nenhum. Olha-se em volta e só se vê corpos parados a olhar para o palco. Se música se pode chamar ao barulho intenso que vem dos amplificadores. Sentem-se é as vibrações que esbatem no chão e nas paredes. Que não nos envolvem só, sustêm-nos em pé, como autistas a balançar ao sabor de um ritmo escondido, que está lá para aqueles que sabem ouvir. Há algo de místico na penetração deste som, no abandono a este som. É quase religioso. Sei que pode dizer-se isso de qualquer ritual, da missa ao concerto de música ou ao teatro. Mas este obriga-nos a ir lá dentro. Quem fica de fora, só ouve ruído e frustra-se.
Se os Sunn O))) fazem pouco uso da maioria das convenções do Metal na sua música (a grande excepção é a voz), abusam delas no aspecto visual dos seus espectáculos. E escrevo espectáculo, pesando bem a palavra. Um concerto de Sunn O))) não são quatro gajos atirados para cima de um palco. É pensado e encenado. Há teatro.
Até ao momento de entrada dos músicos em palco, cria-se expectativa. Primeiro, o palco enche-se de fumo, passam minutos, cresce o burburinho na sala, cada um pensa como suportará a prometida descarga de som que leva os organizadores do concerto a entregarem tampões para os ouvidos à chegada. E enquanto se pensa nisto, surge mais fumo. E mais fumo. Como será? Mais fumo, mais minuto, os Sunn O))) entram em palco envoltos em trajes de monge.
E inicia-se a imersão. No fumo, que vem do palco e, principalmente, na massa sonora assustadora que vem das colunas.
A noção de ritual e de teatro no espectáculo rock foi sempre de pendor maior nas bandas Metal. E volto a escrever, tenho a certeza que os Sunn O))) admiram e, mais, amam todas as pequenas convenções dos sub-géneros do Metal. Porém, eles sabem que tudo isto é um bocado parvo. É parvo, mas é divertido. E eles divertem-se mais do que tudo. E nós também. Ninguém vai sair dali e assassinar uma galinha. Mas também não vejo o que é que isso tem de bom.
A dada altura, Atilla Csihar (cantor que costuma participar nos álbuns dos Sunn O))) e os acompanha ao vivo) veste uma espécie de armadura e Stephen O’Malley (que com Greg Anderson perfaz o núcleo duro do grupo) põe-lhe uma coroa em forma de sol (pois, não é subtil) na cabeça. De seguida, raios laser irradiam das mãos de Csihar. Dá vontade de rir; é piroso, mas dá gozo de ver.
São assim os Sunn O))). Não resvalam completamente nem para o campo da paródia, nem para o campo do épico. E a sua música é monótona, é desgastante, é como a água mole em pedra dura.
Quanto aos Eagle Twin, que fizeram a primeira parte, não escrevo muito. São mais Metal puro do que os Sunn O))) e isso não me cai bem. Mas não são maus. Ainda deu para bater o pezinho.
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