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T-Shirt Issue

Retratos interiores pendurados no cabide.

Vestir a própria alma. Vestes-te todos os dias, todas as manhãs e repetes o gesto em algumas noites. Retocas-te com os cuidados de espelhar o estilo com que te identificas, as mensagens em que acreditas, a cor que condiz contigo e te fica bem ou que, se não fica, vestes porque és tu – mesmo assim… com o feio, o bonito, O Teu.

E vestires-te de ti? De uma fantasia, um sonho, uma memória que consiga passar a viver do lado de cá? A ideia de nos mostrarmos em tecido foge ao conceptual e assume-se agora como possível, destapando histórias de cada um, com roupa que é arte.

The T-Shirt Issue é uma questão séria, uma questão mais forte que a pele, por trazer para fora de nós um rosto interior com representação gráfica. A sensação imediata é de uma grande estranheza por olharmos para peças que lembram vagamente roupa, porque parecem elevações da arquitectura ao tecido, cru e cinzento como o gesso de uma escultura. Mas começando neste molde peculiar, a surpresa revela-se ainda após a forma vanguardista que nos chega primeiro aos olhos, através toda a história que traz nas linhas com que se cose.

O projecto The T-Shirt Issue tem por base a produção de t-shirts contraditas com o tecido de sweatshirt, sendo que cada peça tem o nome de uma pessoa, por nela estar representado um scanning 3D do corpo inteiro de alguém, cuja resolução é trazida em polígonos – à semelhança dos pixéis num bitmap. O arrojo não está apenas no estudo destes contornos geométricos da figura humana, que se levantam tridimensionalmente e se cozem com técnicas de padronização 2D. O arrojo está, sim, na transposição de uma memória biográfica de quem é objecto do scanning, para que a presença dessa memória se reveja num tecido que assume, então, as formas poéticas do corpo.

O site apresenta-nos três pessoas, três retratos de cabide que se vestem com o respeito de quem enverga um bocado de gente. Por transpor tanto de corpo como de alma, o estilismo que lhe é aplicado implica técnicas cuidadas – talvez mesmo gentis – de vinco e dobra, como se se tratasse de um trabalho em modelos de papel, ajudando assim às elevações de fabrico único, com pontas trabalhadas a corte laser. Nada é deixado ao acaso: acabamentos e figuras têm uma acurada representação da maravilha que é a dupla corpo e mente, tão autênticos e surpreendentes, como cada uma das imagens que nos chegam ao scroll.

Linda, Paul ou Markus são nomes de pessoas reflectidas no tecido, com o seu corpo e memórias pessoais. São corpos que contam desejos, sonhos e personalidade gritantes. São nomes das peças que vivem alto num tecido que seria de longsleeve, pelo facto dos seus criadores procurem contrariar o cliché de que o design em Berlim é reconhecido apenas do que é feito e pintado em t-shirts. Mashallah Design e Linda Kostowski estão por trás deste conceito que revoluciona o potencial de mensagem da moda, de criação dos designers e de reconhecimento do público, pela unicidade que lhes é conferida.

Eu poderia pensar no que gostava de ver em relevo em mim… Ou a partir de mim. Mas isso deixa uma impressão tão avassaladora quanto embaraçante, salva apenas pelo facto de nenhuma destas obras primar pelo óbvio e viver sob parte abstracta, indefinida nos centímetros de pele que um scanning consegue alcançar.

Temos design gráfico, industrial, de moda rematado no seu expoente máximo. A descoser-nos por completo.



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