Tame Impala | “Currents”

Tame Impala | “Currents”

Um álbum de transformação, não só em termos líricos e musicais mas também a nível pessoal

Os Tame Impala. Embora se encare os australianos como um colectivo, a verdade é que toda a força criativa se centra na pessoa de Kevin Parker e algo que o acompanha desde uma tenra idade é, sem sombra de dúvida, o processo solitário de composição. E isso, inevitavelmente, acaba por transpirar de forma bastante vincada no resultado final.

“Innerspeaker” e “Lonerism” marcaram os dois primeiros capítulos, sempre em progressão, a olhar para um futuro, que nos traz a “Currents”, que continua a reflectir o perfeccionismo de Parker, embora salte à vista uma nova orientação, mais dada à dança e mais pop. Há uma procura deliberada de Parker de levar as suas canções a mais pessoas, a um público mais alargado. Talvez por isso “Currents” deva ser encarado como um álbum de transformação, não só em termos líricos e musicais mas também a nível pessoal.

A própria duração de “Currents” vai um pouco contra aquilo que se observa actualmente; álbuns curtos e imediatos. De consumo fácil e rápido. Fáceis de esquecer. Os seus 51 minutos e 6 segundos são um indicador do supracitado perfeccionismo, da sua abordagem meticulosa e talento únicos. A própria capa do álbum foi planeada e ponderada. Foi o resultado de uma visualização de um vórtice que Parker teve enquanto compunha o álbum e que foi posteriormente concebido por Robert Beatty que as descreveu como “um fluxo turbolento,da forma como o ar ou líquido flui em torno de objectos”.

Quando «Let It Happen» se começa a fazer escutar, a primeira coisa que se nota são os teclados, em detrimento daquelas guitarras psicadélicas, que tão bem caracterizaram o projecto de Kevin Parker nos dois álbuns anteriores. Pelo meio Parker não esconde o desejo de mudança e transformação que vive actualmente em si: “All this running around / I can’t fight it much longer / Something’s trying to get out / And it’s never been closer”. «Nangs», é calão australiano para latas cheias de óxido nitroso (daquele que faz rir) e que é por vezes usado como uma droga recreacional. Pelo meio sentimos que Parker se questiona: “But is there something more than that?”.

«The Moment» surge como o momento em que a mudança se aproxima e se sente algum receio em abraçá-la e aceitá-la. No final, é com braços abertos que ela é acolhida e «Yes I’m Changing» confirma-o. Esta canção será o mais próximo que ouviremos de uma balada pelos Tame Impala. Sempre com os teclados a traçar o caminho a seguir e Parker a abrir o coração: “I saw it different, I must admit / I caught a glimpse, I’m going after it / They say people never change, but that’s bullshit, they do / Yes I’m changing, can’t stop it now / And even if I wanted I wouldn’t know how”.

«Eventually» e «The Less I Know the Better» seguem a matriz delineada pelas canções anteriores. Exigem que as dancemos mas, ao mesmo tempo, requerem atenção porque nada surge ao acaso neste álbum. Há sempre uma mensagem escondida algures, seja nas palavras que Kevin Parker nos canta, seja nos próprios arranjos das canções. «Gossip» é isso mesmo: cusquice, mexericos, ruído de fundo.

«Past Life» podia ser o resultado de uma composição de Anthony González (M83) e de uma letra de Mark Kozelek; de um lado uma electrónica melódica, mas não mais fácil por isso, e do outro um texto tão mundano que poderia figurar na página de um diário do vocalista dos Sun Kill Moon. É uma canção sobre o passado e futuro, porque um não existe sem o outro: “From a past life / (I guess there’s no harm in trying) / From a past life / (What’s the worst that could happen?) / For the first time”.

«Cause I’m a Man» é Parker a reconhecer que é imperfeito (e não o somos todos nalgum momento?), num falsete que nos agarra do primeiro ao último segundo da canção. São murros como este que são servidos e que nos deixam meio atarantados, tal a dose de sinceridade e frontalidade com que são aplicados: “Cause I’m a man, woman / That’s the only answer I’ve got for you / ‘Cause I’m a man, woman / Not often proud of what I choose / I’m a human, woman / A greater force I answer to”.

«Love/Paranoia» explora o sentimento conflituoso de estar apaixonado e não nos sentirmos completos ao mesmo tempo. Canções como esta não faltam em “Currents”. São belas canções. Com arranjos cirúrgicos e com a capacidade de nos levarem a fechar os olhos e deixar-nos submergir nelas por completo, até ao momento em que começamos absorver a letra… Aí, cria-se um sentimento quase contraditório; por um lado sentimo-nos atraídos para a música mas ao mesmo tempo somos sufocados pela letra… “I’ve heard those words before / Are you sure it was nothing / Cause it made me feel like dying inside / Never thought I was insecure, but it’s pure”.

«New Person, Same Old Mistakes» é a derradeira canção de “Currents”. É também a canção em que Parker se questiona até que ponto mudou, que percebe que está realmente uma pessoa diferente mas que no fundo aquela pessoa que existiu quando “Innerspeaker” e “Lonerism” foram compostos ainda existe algures dentro de si: “Feel like a brand new person / (But you make the same old mistakes)”.

No final percebemos que os Tame Impala (é mesmo difícil olhar para o projecto de Kevin Parker como um banda), ou melhor, que o Kevin Parker que conhecíamos dos dois primeiros álbuns não existe actualmente. Percebemos também que os Tame Impala são cada vez mais Kevin Parker ou pelo menos um segmento da sua pessoa. “Currents” é diferente e é verdade que isso torna a música de Tame Impala um pouco menos única no sentido em que é mais fácil compará-los com outros, mas o resultado final continua a ser um óptimo disco que sabe bem ouvir uma e outra vez e outra…



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