Tame Impala | “Lonerism”

Tame Impala | “Lonerism”

Trip agridoce, nada ácida, que nos vai aquecendo lentamente o corpo

Respirar fundo… fechar os olhos! Colocar em playLonerism”, o último álbum dos Tame Impala, e viajar a um canto recôndito do nosso cérebro onde se alojaram memórias psicadélicas e traços de ADN dos anos sessenta e setenta, produzidos pelos nossos antepassados e em repouso desde então. É uma trip agridoce, nada ácida, que nos vai aquecendo lentamente o corpo.

Começamos por uma batida industrial, reverberada, ecoante e repetida. Nada de guitarras, apenas muitos teclados, em fuga ao estilo e passado recente da banda – «Be Above It»; uma espécie de sirene retira-nos desse estado catatónico e leva-nos de volta à viagem psicadélica, ainda com a ajuda das teclas mas com uma guitarra escorregadia entre o fuzz e um delírio ao estilo de Jimmy Page – «Endors Toi»; entrámos numa nave sem destino, algures entre Marte e Neptuno existe uma lua desconhecida e minúscula, invisível na Terra e à qual só se tem acesso se percorrermos um caminho apocalíptico, aliás como o nome indicia. Pelo percurso vemos Mr.Spock e pensamos: que raio estará o gajo ali a fazer?! – «Apocalypse Dreams»; percebemos depois que alguém nos dirigiu de forma errónea, talvez parte de algum plano maquiavélico para que a interpretação fosse diametralmente oposta.

De certa maneira é como se estivéssemos a viajar enquanto nos observamos a nós próprios pelos olhos de outrem – «Mind Mischief»; mais teclados e guitarras dignas de Vincent Gallo, emergente de uma cena de “Buffalo 66”: ele coordena este capítulo do percurso com um nonsense a toda a prova. Quem diria que poderia ser tão inspirador? – «Music to Walk Home By»; é a questão que se levanta enquanto percorremos uma carruagem estranha, em que não conseguimos perceber quem é normal. Somos nós ou todos aqueles seres de orelhas bizarras e com várias bocas, que falam entre si uma linguagem incompreensível? – «Why Won’t They Talk to Me?»; estamos presos num limbo. Por pouco tempo. Apesar de tudo, a sensação não é má, pelo contrário, relaxante e pacificadora – «Feels Like We Only Go Backwards»; uma espécie de sereia grotesca abre-nos uma saída, para um espaço verde e denso, onde começamos a perceber que nos querem, de alguma forma, enganar. Ela parece sorrir ao mesmo tempo que nos puxa pela mão e nos conduz por um caminho cada vez mais escuro e estreito. Ouvem-se vozes que vêm de todo o lado. A guitarra sobe de tom procurando calá-las, abre caminho pela escuridão e volta-se a vislumbrar um pouco de céu – «Keep on Lying»; é uma fase acidentada, alterna-se entre o órgão puro, o sintetizador rasca e a guitarra dura – «Elephant»; sentimos de alguma forma que Deus era amigo dos Beatles e que estes eram nossos amigos, quando ecoam estranhos acordes – «She Just Won’t Believe Me»; é a altura em que aparece um submarino amarelo (ninguém sabe ou quer dizer quem o comprou!), que inicia a subida final, o regresso ao presente.

Só que entretanto já voltou a ser passado. Estamos lentamente a acordar do transe – «Nothing That Has Happened So Far Has Been Anything We Could Control»; Percebemos que por mais que tentemos não conseguimos controlar o nosso destino, está totalmente em mãos alheias. A partir daí é pura sorte, azar para outros. Quando avistamos o sol antevemos por fim um ponto de chegada – «Sun’s Coming Up».

A nossa visão consegue perceber os contornos de algo tangível, real, por entre a temperatura escaldante que turva o horizonte. É tempo de parar. Alguém carrega num botão de stop de um antigo leitor de cassetes.



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