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The Antlers @ Lux

O exorcismo pessoal de Silberman.

A noite estava fria e chuvosa, mas não o suficiente para demover os que decidiram deslocar-se ao Lux no passado dia 3 de Novembro para ver a estreia dos Antlers em terras lusas.

Ainda durante o dia houve tempo para um pequeno susto, quando se soube que a banda tinha perdido parte dos instrumentos, ou melhor, a British Airways tinha-los perdido, e mesmo tendo os Antlers assegurado a realização do concerto, fizeram saber que precisavam de algum material emprestado. No entanto, a entrada na sala revelou um palco repleto de parafernália, o que levou a pensar que a situação tinha sido ultrapassada, como veio a ser confirmado pelo próprio Peter Silberman já na parte final do concerto. A British Airways tinha conseguido encontrar o material perdido e este havia sido entregue ali, 10 minutos antes das portas abrirem. Mesmo a tempo!

A parte boa dos concertos sem primeira parte é que se vai logo directo ao assunto, e foi exactamente isso que se passou. Faltavam 10 minutos para as 23h quando os Antlers subiram ao palco, com um sorriso tímido e reservado nas suas faces.
O arranque foi feito ao som de «Parentheses», do mais recente “Burst Apart”, com o falsete de Silberman a desarmar de imediato o público presente. Estava também dado o mote para o que seria o resto do alinhamento, quase na totalidade centrado no trabalho mais recente da banda, e apenas com passagens pontuais pela obra-prima que dá pelo nome de “Hospice”.

No final da primeira canção já sentia aquele arrepio bom na espinha e não era, com certeza, caso único naquela sala.

Ao vivo as canções dos Antlers ganham outra projecção, vão além daquilo que soam no formato álbum. Tudo é trabalhado tal como no álbum, mas não soa igual. As canções respiram por si próprias. Escutam-se os pormenores, os rendilhados, os adornos e, para nossa alegria, os Antlers nunca os deixam cair no excesso.

O segundo tema da noite leva-nos a visitar “Hospice” pela primeira vez e «Kettering» foi a canção escolhida, para de seguida se regressar em força a “Burst Apart”. A sequência teve tanto de brilhante, como de perfeita: «No Widows», «I Don’t Want Love» e «French Exit», um autêntico murro no estômago, tal a força que as palavras que Peter Silberman canta, têm. Foi um daqueles concertos em que conseguimos fechar os olhos e imaginar que estamos sós, a viver algo único.

A música dos Antlers é densa, exige ser verdadeiramente escutada, e tal não deve ser feito de uma forma leviana, sob pena de não se apreciar convenientemente o momento. E era exactamente isso que era possível observar nas faces e olhares em volta, todos apontados na direcção de Silberman. Contra os Antlers, ao longo do concerto, esteve o som, sempre com uma qualidade abaixo do que seria desejável, levando a pensar que um concerto assim numa Aula Magna poderia adquirir contornos verdadeiramente épicos.

Ao longo do concerto foi evidente a forma como a banda se foi soltando e descontraíndo, e os sorrisos, que eram tímidos no início, passaram a ser evidentes e descarados. Para além disso, quando se tem dois álbuns (sem querer negligenciar os lançamentos anteriores) como “Hospice” e “Burst Apart”, a dificuldade em criar um alinhamento coeso não existe, pura e simplesmente. Por cada canção que é interpretada, parece que assistimos a um exorcismo pessoal de Silberman. Um exorcismo dos seus demónios interiores, tal a intensidade e entrega que coloca nas palavras e nos gestos em palco.

A saída de palco é feita ao som de «Putting The Dog to Sleep» e sob uma tremenda chuva de aplausos. O regresso, uns minutos depois, traz «Corsicana», que nos embala ao sabor dos acordes da guitarra, à medida que vamos sendo conduzidos por um crescendo suave mas persistente (arrepio!). Para encerrar uma noite, que só não foi 100% perfeita por causa do som, ficou «Sylvia» para pôr tudo e todos em sentido. Porque versos como “Sylvia, get your head out of the oven/Go back to screaming and cursing,/remind me again how everyone betrayed you” não podem deixar ninguém indiferente. É que não podem mesmo…

O arrepio na espinha ainda me acompanhou para casa e nem a chuva que teimava em cair insistentemente incomodou…



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