“Those Shocking, Shaking Days…”

“Those Shocking, Shaking Days…”

"…Indonesian Hard, Psychedelic, Progressive Rock and Funk 1970-1978". Como o aluno supera o mestre

Vivemos numa era de excesso, e no que diz respeito à música existe não só um excesso de oferta, mas sobretudo demasiada facilidade no acesso à mesma. Estes factos provocam uma relação cada vez mas distanciada entre o ouvinte e o objecto de audição. Além do mais, a obsessão pelas bandas novas, cada vez mais vincada, leva a que se perca cada vez mais a relação sentimental entre o público e as bandas e, mais grave ainda, conduz à perda de momentos brilhantes e significativos na história da música.

Um desses, injustamente ignorados momentos pela maioria dos meios de comunicação, e por arrasto pelos audiófilos, é sem dúvida a compilação “Those Shocking Shaking Days”, editada pela Stones Throw há precisamente dois anos, no dia 8 de Março de 2011. Como a generalidade das épocas culturais que floresceram em períodos de ditadura feroz, esta compilação espelha não só a rebeldia inspiradora dos músicos retratados, mas acima de tudo uma apropriação criativa e feroz do psicadelismo, rock progressivo e do funk anglo-saxónicos mesclado com a cultura indonésia e o momento vivido. Tal como a generalidade das bandas sul-americanas do mesmo período, os grupos indonésios sobressaem pela forma original e própria como reinventam um rock cuja fórmula, salvo alguns grupos pioneiros, se encontrava cada vez mais esgotada.

Na década de 60, à semelhança de muitos outros ditadores, Haji Muhammad Suharto, o presidente indonésio, exercia uma censura apertada a toda e qualquer influência cultural ocidental no País, facto que obrigou a uma emigração acentuada para a Europa na busca de liberdade artística. Depois da Purga comunista de 1965, Suharto abriu de rompante as portas da nação à influência da cultura ocidental, potenciando a formação de várias bandas novas. Apesar disso, os conteúdos antigovernamentais eram fortemente supervisionados, o que explica porque a maioria dos grupos preferia cantar em Inglês.

Compilada pelo produtor de hip-hop Jason “Moss” Connoy e pelo músico indonésio Benny Soebarjda, “Those Shocking Shaking Days” reflecte a rebeldia política nas letras das bandas compiladas sem nunca perder o carácter experimental e psicadélico da época: fuzz de meter vergonha à maioria das bandas ocidentais, baixa-fidelidade suficiente para fazer corar a banda mais punk, solos com tanta classe que poderiam facilmente encaixar na categoria de virtuosos e tanto groove que podia ressuscitar o James Brown. O que prevalece no fim de cada audição é a vontade de ter os discos de cada uma das bandas retratadas, e a sensação de que o filão de rock psicadélico e progressivo dos anos 60 e 70 é muitas vezes mais interessante nos países influenciados do que nos países de onde os estilos são originários.



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