rdb_timaoatenas_header

“Timão de Atenas”, no adeus a Benite

"Timão de Atenas", de Shakespeare, que estreia a 20 de Dezembro, assim como "Tuning" de Rodrigo Francisco, as duas encenações de Joaquim Benite com que a Companhia de Teatro de Almada encerrou a temporada de 2012, são bem um programa da vida teatral deste singular homem de teatro: um enorme fascínio pelo grande teatro do mundo, um grande envolvimento e empenho com a escrita teatral de hoje

A determinação e o calor com que Luís Vicente, que representa “Timão de Atenas”, proferiu no Cemitério do Alto de S. João o adeus a Joaquim Benite, já deixava adivinhar que a Companhia de Teatro de Almada iria fazer da representação da peça um especial momento de homenagem àquele que foi o seu fundador e director. A Rodrigo Francisco, que já há alguns anos vinha coadjuvando Joaquim Benite, tanto na programação da Companhia como do Festival de Almada, coube assegurar a direcção do espectáculo.

“Timão de Atenas”, uma visão dura sobre a ambição e a usura

Timão de Atenas. Trata-se da estreia absoluta desta peça de Shakespeare, numa tradução de Yvette Centeno. Já em 2012 Joaquim Benite tinha criado no nosso País pela primeira vez a peça Troilo e Créssida, também de Shakespeare. Com estreia a 20 de Dezembro, e carreira na Sala Principal do TMA entre 9 de Janeiro e 3 de Fevereiro, “Timão de Atenas”, de Shakespeare, é uma co-produção com o Teatro Nacional D. Maria II (apresentações em Lisboa entre os dias 20 e 30 de Junho de 2013).

Centrando-se na metáfora do ouro para representar a alienação e a falsa bajulação no seio de uma sociedade subjugada à usura e ao materialismo, o texto de Shakespeare, escrito em 1603, continua a encontrar paralelismos evidentes com a nossa actualidade. Nas palavras de Yvette Centeno, “Timão chama a atenção para a realidade crua do servilismo sabujo e hipócrita, da ambição desmedida, da vaidade cega e, por fim, como corolário de todos os defeitos de carácter e de comportamento, da enorme ingratidão humana. Aqui está o Homem, o de ontem como o de hoje, posto a nu com uma crueza impiedosa”.

Actualidade impressionante do texto de Shakespeare

O texto de “Timão de Atenas” parece que foi escrito para a sociedade dos dias de hoje. Um homem, Timão (Luís Vicente), partilha toda a sua fortuna com os seus amigos, oferecendo-lhes presentes caros, jantares e festas. Vai assim à falência e depois vê-se desprezado e abandonado pelos amigos e por toda a sociedade que o elogiava e venerava. Na miséria, na rua, começa uma vida de eremita, fugindo de todo o contacto humano. Mais tarde descobre ouro mas já é muito tarde para poder regressar à sociedade ateniense: Timão ganhou um desprezo enorme por todas as pessoas que o envolveram, excepto para o seu leal Procurador (Paulo Matos) e o ouro não lhe serve de nada.

Ao lado de Luís Vicente encontramos um elenco onde podemos destacar Paulo Matos, André Gomes, Marques D’Arede e Alberto Quaresma, que ao longo dos anos também já protagonizaram espectáculos da Companhia. Os figurinos são de Sónia Benite e o cenário é da autoria de Jean-Guy Lecat (que trabalhou com Jean-Louis Barrault, Roger Blin, colaborador directo de Peter Brook durante mais de vinte anos como director técnico e cenógrafo no Théâtre des Bouffes du Nord) que há algum tempo colabora com Joaquim Benite e a sua Companhia. Lecat criou um espaço predominantemente vazio tendo ao fundo uma escadaria de um anfiteatro grego. Ao acolher as luzes de José Carlos Nascimento este espaço transforma-se, reforça narrativamente a tragédia de Timão na sua relação com a cidade e o seu poder.

“Tuning”: a sala de ensaios do TMA transformada em garagem

A peça de Rodrigo Francisco – que na temporada de 2013 assume a direcção da Companhia de Teatro de Almada – foi nomeada pela Sociedade Portuguesa de Autores para o Prémio de Melhor Texto de Teatro Português no ano da sua estreia, em 2010. A peça aborda o percurso de um jovem oriundo dos subúrbios que, ao ver frustrada uma carreira como futebolista, acaba por empregar-se numa oficina como aprendiz de mecânico. Entre a pulsão para a marginalidade e o desejo de restaurar um velho Mini de uma viúva solitária, o jovem acabará por aprender, tragicamente, que os sonhos acalentados na infância não têm espaço para realizar-se na sociedade em que lhe coube viver.

A apresentação deste texto de um dramaturgo português de hoje reforça um aspecto importante do trabalho da Companhia de Teatro de Almada (para além da sua inscrição, através do Festival de Teatro de Almada, nos grandes circuitos teatrais internacionais): uma aposta reiterada na dramaturgia nacional. É de lembrar que Joaquim Benite, ainda nem se falava entre nós de dramaturgos-residentes, desenvolveu ao longo de duas décadas com Virgílio Martinho.

O depois na Companhia de Teatro de Almada

Num momento particularmente significativo para a vida da Companhia de Teatro de Almada, que garante o mais importante festival de teatro do País e um dos mais importantes da Europa, anotemos alguns momentos-chave do seu longo historial. Surgida em 1978, quando o Grupo de Campolide (fundado em 1971 por Joaquim Benite) se instalou no teatro da Academia Almadense, manteve-se aí até 1987,  inaugurando em 1988 o Teatro Municipal de Almada (no antigo mercado de abastecimento municipal). Em 2006, que é também quando Rodrigo Francisco começa a trabalhar como adjunto de Joaquim Benite, a Companhia muda-se para o Teatro Azul, projecto audaz dos arquitectos Manuel Graça Dias e Egas José Vieira, concebido de raiz para o funcionamento da Companhia no contexto de um programa de desenvolvimento regional integrado (Rede Nacional de Teatros e Cine-Teatros Municipais).

Uma das grandes apostas da Companhia tem sido, ao longo de anos, um fortalecimento de uma corrente de público junto do concelho de Almada, que tem vindo a ter um crescente desenvolvimento cultural e para o qual o Festival de Teatro tem contribuído de uma forma muito intensa, alargando inclusive a sua programação por outros palcos, não só os de Lisboa (primeiro pelo Teatro da Trindade, em 1997, depois pelo CCB, Culturgest, Cornucópia, Teatro São Luiz e Teatro D. Maria II, entre outros), também os do País (para 2013 estão previstas co-produções com o Teatro Nacional S. João, o Theatro Circo de Braga e o Cine-Teatro Constantino Nery de Matosinhos).

É muito importante, num cenário completamente deprimido como é hoje a actividade teatral do País, ver a dinâmica criada em Almada, onde a média de espectadores da CTA por sessão aumentou de 138 espectadores para 197, em 2012 (números da companhia). Essa é sem dúvida a melhor homenagem que pode ser feita ao esforço e trabalho de décadas desenvolvido por Joaquim Benite e a sua equipa.

O adeus a Benite

A estreia ocorreu numa sala completamente cheia. No final uma longa ovação a Joaquim Benite foi, na sua simplicidade, a homenagem do público ao empenho e combatividade do fundador da Companhia de Teatro de Almada. António Matos, vereador da Cultura da Câmara Municipal de Almada, deu a notícia fresca: na véspera o executivo camarário atribuíra, numa decisão por unanimidade e aclamação, o nome de Joaquim Benite ao seu teatro municipal. Depois coube a Teresa Gafeira, companheira e mulher de Benite, as palavras que emocionaram a plateia quando contou pormenorizadamente as fases da sua doença para demonstrar que ele morreu porque lutava de tal forma por aquilo que acreditava que secundarizou a sua doença e os seus efeitos.

FICHA TÉCNICA

“Timão de Atenas“, de William Shakespeare
Encenação de Joaquim Benite

Calendário:

20 a 22 de Dezembro e 9 de Janeiro a 3 de Fevereiro de 2013
Sala de Principal M/12
Quarta a Sábado 21h30 e Domingo 16h00
Duração aprox. 2h00 com intervalo
Preço 5 a 10€
Reservas 212739360

Intérpretes Luís Vicente, Marques D’Arede, Paulo Matos, Ivo Alexandre, André Gomes, Alberto Quaresma, Manuel Mendonça, Miguel Martins, João Farraia, Pedro Walter, Celestino Silva, Aba Cris, Joana Francampos, Jeff de Oliveira
Versão dramatúrgica, segundo uma tradução de Yvette K. Centeno
Cenário Jean-Guy Lecat Figurinos Sónia Benite Desenho de Luz José Carlos Nascimento Voz e elocução Luís Madureira Movimento Jean-Paul Bucchieri Consultoria musical Fernando Fontes

“Tuning”, de Rodrigo Francisco

Estreou a 17 de Novembro, terminou  a 02 de Dezembro
Encenação de Joaquim Benite

Intérpretes João Farraia, Paulo Guerreiro, Pedro Walter, Rui Dionísio e Maria Frade
Cenário Jean-Guy Lecat Desenho de luz José Carlos Nascimento Som e arranjos musicais Guilherme Frazão Caracterização Sano de Perpessac

Aba Cris e Joana Francampos



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This