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Um pouco de ternura, grande merda!

Dave Saint-Pierre: Bailado de sentimentos forte e inesquecível.

“Un peu de tendresse, bordel de merde!” É um espectáculo de força, polémico e crítico sobre a sociedade actual onde as relações interpessoais são retratadas pela ausência de respeito, amor e ternura. Integrado no 27º Festival de Teatro de Almada, o público encheu lentamente o anfiteatro (esgotado) ao ar livre da Escola D. António da Costa em Almada e testemunhou um momento único, onde os extremos se tocaram e as sensações foram fortes e contrastantes.

O primeiro impacto: Um dos intérpretes está nu em palco. Sentado numa cadeira, envergando apenas uma peruca loura, recebe com brincadeiras e zombarias os espectadores que vão chegando apreensivos, num misto de expectativa e ansiedade numa noite que se adivinha inquietante.

Começa o espectáculo e os dezasseis intérpretes em palco iniciam um conjunto de cenas provocadoras e agressivas, sem coesão aparente, que dura aproximadamente vinte minutos e onde o público, forçado a uma interacção propositada com os corpos nus dos bailarinos é confrontado com os seus próprios valores.

Após vinte minutos imersos numa atmosfera de violência e provocação gratuitas, onde o sentimento de desrespeito e invasão é quase insuportável, a sensação de impotência instalada cria a expectativa de que o pior ainda está para vir.

A banalização do corpo pela sua exposição do nu e a própria disponibilidade emocional dos bailarinos que se colocam em situações limite, são a chamada de atenção necessária para a urgente reconstrução do amor-próprio da nossa sociedade.

A sarcástica anfitriã, Sabrina, conduz o desenrolar do espectáculo e introduz pequenas pontuações de humor. Ao longo de 1 hora e 40 minutos, a mensagem global ganhou coerência e no lugar da angústia inicial surge uma complexa abordagem sobre o homem, sobre o amor que se destrói e reconstrói e o papel fundamental da ternura no equilíbrio do ser humano e na sociedade violentadora de hoje.

O contraste de emoções entre início e o final do espectáculo é grande. A decadência da sociedade violenta dos nossos dias é retratada através de episódios variados e bailados envolvidos numa violência corporal inacreditável que o nu acentua, em oposição absoluta ao belo cenário final.

A ternura surge por fim em contraste com a solidão. É indescritível o sentimento de paz e a beleza transmitida pela coreografia, onde corpos deslizam (literalmente) ao longo do palco criando um cenário mágico. O nu, já não tem a conotação agressiva inicial, ao contrário, revela e acentua a beleza trazida pela ternura dos homens e da possível vida em sociedade.

Dave Saint-Pierre, coreógrafo canadiano, é responsável pela direcção e coreografia deste ensaio que aborda a recuperação do amor-próprio, a falta que a ternura faz ao homem e as consequências dessa ausência, a procura de uma outra forma de amar, e a evolução deste amor transformado em ternura.

Foi um espectáculo forte, emocionante e inesquecível.



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