What Color is Love

de Terry Callier.

Costuma dizer-se que o tempo é o melhor conselheiro e na música isso é, sem dúvida, verdade. Tantos êxitos que não envelhecem bem e que rapidamente são esquecidos. Tantas obras-primas que não são contemporaneamente apreciadas e mais tarde, com o passar dos anos, é-lhes, finalmente, reconhecida a sua qualidade. É sobre um desses casos que vou escrever: «What Color Is Love?» de Terry Callier.

Terry Callier nasceu em 1945 em Chicago, aprendeu a tocar piano aos três anos, compôs aos onze, cresceu a cantar em grupos doo-wop e foi amigo de infância de Curtis Mayfield, Jerry Butler e Ramsey Lewis. Com todo este ambiente era natural que se viesse a dedicar à música. Lançou o seu primeiro single, «Look At Me Now», em 1963 e no ano seguinte gravou o seu primeiro longa-duração “The New Folk Sound of Terry Callier”. Seguiu-se uma das mais consistentes sucessões de álbuns, onde Terry funde o Jazz, a Folk e a Soul. Dessa sucessão destaca-se “What Color is Love?”, um disco sem classificação possível. Compreende dentro de si uma mistura de estilos feita com cuidado de ourives.

Não há passagens abruptas de estilo para estilo, não… É um disco feito de pormenores: uma linha de guitarra acústica a remeter para a folk, uma vocalização completamente soul… É música espiritual. Momento chave: A faixa de abertura:«Dacing Girl», onde a voz de Terry começa por nos confortar como um abraço de avô. Lá para o segundo minuto ficamos na expectativa, a coisa está calma, até que vem a voz novamente e começa o primeiro pêlo a eriçar, segue-se outro e outro… três minutos e temos todo e qualquer pêlo eriçado.

De seguida Callier brinda-nos com scat dos anjos. Ficamos suspensos até que… volta tudo ao início, com os mesmos versos. Termina. Obrigado por estes nove minutos. O que foi isto? Terry diz a meio: “welcome to Twilight Zone” Ah! Era isso…. Estruturalmente, este disco é como a vida. Começa devagar, numa vontade de agarrar qualquer coisa. A meio atinge o auge e termina numa morte em paz. “What Color Is Love?” é um disco de uma beleza imaculada de virgem santa, música para ouvir no paraíso, que é como quem diz: música para ouvir numa fria noite solitária com a companhia de uma manta de flanela e uma caneca de cacau quente.

Apesar de ter lançado algumas das melhores gravações dos anos setenta, nunca conseguiu ter sucesso para além de uns hits regionais. Em resultado disso, decidiu abandonar a música nos anos oitenta para se dedicar à programação de computadores (!). Quase uma década passada sobre o seu abandono é descoberto pelos insuspeitos Gilles Peterson e Russ Dewbury que o fazem renascer para uma nova geração, pronta a admirar toda a qualidade da sua obra. Depois disso tem editado novos álbuns, mantendo a qualidade habitual e provando que quem sabe nunca esquece.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This