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YRON = FeCL3

Estivemos no espaço de São Bento à conversa com Sílvia Escórcio, uma das pessoas responsáveis pelo projecto e com a dupla Paulo Arraiano/Leonor Morais que juntaram esforços para mostrar que existe muita criatividade em Portugal.

1º acto – A Ferro e Fogo

O espaço YRON parece, à primeira vista, uma galeria de arte. Um espaço amplo, luminoso, de arquitectura recuperada, com as paredes cobertas de aparatos artísticos. YRON não é uma galeria convencional, isso seria aprisionar este inovador projecto num conceito demasiado redutor e conservador. Surge como a resposta ao marasmo criativo instalado, propondo-se dotar a cidade de Lisboa de um pólo de expressão criativa, um espaço renovador da oferta cultural da cidade, aberto a todas as disciplinas artísticas e capaz de atrair, fundir e impulsionar novas linguagens e tendências criativas.

2º acto – Sílvia, diz-se Áiron ou Irom?

“O primeiro desafio foi a construção da identidade” revela Sílvia Escórcio, uma das “cabecilhas” deste projecto: “A lógica é a magnetização e a fusão das várias disciplinas criativas. O que nos levou ao ferro, “iron”. A introdução do “Y” deu-lhe uma vertente mais assexuada e abstracta. A linguagem, a lógica de uma magnetização por um elemento que atrai materiais, era uma base muito sólida para um conceito abstracto: a magnetiza criativa. No fundo, isto é um espaço e nem tanto uma galeria, visto que a nossa lógica é desafiar a fusão. É por essa razão que apenas fazemos exposições colectivas e sempre na perspectiva de várias disciplinas.” Continua, explicando a génese do YRON “A oportunidade para criar o projecto surgiu por ter ganho um concurso do programa LX-Reabilitar o Centro para a reabilitação da rua de São Bento, demasiado conotada com os antiquários.

Ganhámos porque apresentámos uma nova oferta comercial, completamente diferente de um restaurante ou loja de roupa, contrariando o que tem acontecido pela cidade: desaproveitamento de espaços, abandono de espaços comerciais. Este é o nosso principal objectivo. Numa lógica de actualização da cidade, a cena artística internacional. Descomplexar a questão, onde é que a manifestação artística aparece? Se é na rua, num museu, em espaços de exposição intrinsecamente criado para esse propósito. É dar a oportunidade a pessoas novas e de novas disciplinas criativas de se exporem.”

Esta vontade está estreitamente relacionada com a experiência profissional da equipa fundadora, composta por pessoas vindas de áreas como o marketing, arquitectura, comunicação, que não pertencem ao circuito artístico e se legitimam noutros circuitos. Aperceberam-se que havia muito património artístico que não se apresentava. “Os criativos das agências de publicidade trabalham sempre comissionados, com briefings e mandatories, foram desafiados a fazerem coisas sem fronteiras sem limites, sem briefings, a apresentarem a sua linguagem de forma livre.”

Pelo YRON já passaram cerca de uma centena de criativos, reunidos em oito projectos colectivos (nunca individuais, isso seria contra o espírito do projecto) e transdisciplinares de exposição. Entre eles, nomes consagrados e novos talentos, portugueses e estrangeiros, oriundos de diferentes áreas de expressão criativa: fotógrafos, ilustradores, artistas urbanos, designers, artistas plásticos, artesãos, entre muitos outros.

Porque o derradeiro objectivo do YRON é exactamente dar espaço para que a criação aconteça.

3º Acto – Encontros fortuitos em São Bento

2009 marca o regresso do espaço YRON com a exposição ENCOUNTERS – wedding through lines, que resulta do encontro e da intervenção protagonizada por YUP/Paulo Arraiano e Leonor Morais.

O título da exposição Encounters: Wedding through lines prende-se com a noção de encontro de dois artistas, ou seja, a tentativa de partilha através do desenho, sem anular as duas identidades.

O resultado reflecte a união de duas identidades que partilham um mesmo caminho. Uma cumplicidade de dois artistas que passaram por um processo de libertação e experimentação. A necessidade de libertação de rótulos, ser sem ter que significar alguma coisa em concreto.

Paulo reforça. “Eu venho da junção de dois mundos muito diferentes: o gráfico, muito vectorial, digital e type, regrado e representativo, e o desenho, mais orgânico e solto, muito agarrado à lógica character, reflexo da minha infância dos cartoons mas sem me prender muito ao boneco. Estou em processo de evolução, não quero estar agarrado a nada. O meu trabalho é feito de histórias, dentro de histórias. Isto são orgasmos que estão aqui! Este é o at night, é uma festa…”

Para Leonor, a presença da natureza é marcante nas suas peças, materializada ou mesmo representada por campos energéticos. A sua obra explora a passagem entre os diferentes estados e procura constantemente espaços entre espaços, frechas, limites, ligações entre o interior e o exterior da matéria, num constante processo de metamorfose, usando a observação e a repetição à espera que venha a próxima linha e que o desenho se vá construindo. O desenho é fluído e orgânico, sobre tela ou sobre papel. Reconhecem-se aqui e ali influências orientais, que ela confirma terem surgido numa marcante viagem a Macau. A arte do restauro, a que assiste diariamente na família, também lhe aguçou o gosto pelo detalhe.

Salta aos olhos a energia positiva entre estas duas pessoas e a influência de um e de outro, e uma predisposição comum para o inconformismo e a irreverência. O interesse de Leonor pela gravura levou Paulo a experimentar abdicar do perfeccionismo rigoroso, normalmente associado ao design gráfico. E arrisco a dizer que o imaginário fantástico do Paulo, povoado de personagens de histórias dentro de histórias também provocou em Leonor uma vontade de experimentar e arriscar.

Sobre os criativos:

Leonor Morais

É licenciada em Pintura pela FBAUL e concluiu o Projecto Individual em Estúdio de Gravura no Ar.Co. Trabalhou como assistente do artista plástico Rui Moreira, participou em vários projectos na área artística e cultural na Câmara Municipal de Cascais. Realizou em 2002, no Centro Cultural de Cascais, uma exposição individual de pintura e desenho. Participou em várias exposições colectivas, com destaque para Eurocultured em Manchester e Gravura Contemporânea no Museu de História Natural em Lisboa, ambas em 2008, e Musatour, Barcelona, Tokyo e Lisboa, em 2006.

YUP / Paulo Arraiano

Nasceu em 1977 é licenciado em comunicação no ISCEM e estudou ilustração/BD no Ar.Co. Trabalhou em vários estúdios como designer e foi art director da revista Magnólia (trend mag) e da revista Slang (UrbanCulture Mag).  Fundou, juntamente com Leonor Morais, a marca de Street Wear Palm e é professor de Criação de Imagem na Restart (Escola de Arte e Multimédia).

Expõe regularmente em Portugal e no estrangeiro, com destaque para Inked.Souls (Art.Whino/Tagur) Washington D.C e Museé d’Art Moderne, Luxemburgo, em 2008, e Fused Wasted Youth, Birmingham, em 2007. O seu trabalho está editado em publicações como Musabook, Pictoplasma, Victionary e Index books, Neo2, Xfuns, Idea e Digit Magazines, entre outras. Trabalha do digital ao analógico, da rua à galeria, em UrbanWear, toy art, skateboard, música, etc.



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