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A Hawk and a Hacksaw @ Teatro Maria Matos

Voltem sempre.

Em 1964, o russo Sergei Parajadnov escreveu e realizou o filme “Sombras dos Antepassados Esquecidos”. O filme, passado na Ucrânia, nas montanhas dos Cárpatos, conta-nos a tragédia de Ivan e Marichka, um homem e uma mulher do povo gutsul da Ucrânia. Povo esse já desaparecido, mas que Parajadnov faz questão de mostrar em todo o seu esplendor. Seja através das belas paisagens que percorriam, seja através dos seus hábitos, costumes e sociedade.

Em 2011, Jeremy Barnes e Heather Trost, que dão corpo aos A Hawk and a Hacksaw, decidem ressuscitar um filme, para muito poucos esquecido e para a maioria desconhecido, e musicá-lo ao vivo. O casamento é perfeito. Complementam-se. Por vezes parece acrescentam ainda algo mais.

O palco era o do Teatro Maria Matos, no dia 6 de Dezembro. A sala não estava cheia mas estava muito bem composta. A disposição do espaço era simples. Em primeiro lugar, porque estariam apenas dois elementos em palco, Jeremy e Heather. Em segundo, porque grande parte do espaço seria ocupado pela tela onde o filme seria projectado. Assim, do lado esquerdo do palco, com o piano e o violino, entre outros instrumentos, estava Heather Trost e do lado direito com o bombo e o acordeão, entre outros instrumentos, encontrava-se Jeremy Barnes.

É uma experiência diferente ver uma performance como aquela que foi possível presenciar no Maria Matos. A imagem é, cada vez mais, uma componente utilizada nas prestações ao vivo de muitas bandas. Porém, funciona como um complemento. Nestas situações são mais as vezes em que estamos com atenção ao que os elementos da banda fazem em palco, do que às imagens que vão passando. Aqui quase que acontece o oposto. É que por muita atenção que se tente dar à banda, a imagem revela-se mais necessária. Porque no fundo tudo gira em torno do filme. As pessoas que estão na sala olham para o ecrã, vêem a história progredir e em simultâneo escutam a banda sonora que é tocada ali, naquele preciso momento. É certo que sempre que possível se dá uma mirada, ora para a esquerda, ora para a direita, para ver o que se vai passando, e vemos que quer Heather, quer Jeremy também vêem o filme.

Nem mesmo o acidente que ocorreu com o acordeão de Jeremy e obrigou a uma paragem de quinze minutos para a reparação do mesmo, quando o filme ia a pouco mais de metade, foi suficiente para quebrar ou tirar qualquer mérito à experiência que os A Hawk and a Hacksaw nos proporcionaram.

O trabalho levado a cabo por Jeremy Barnes e Heather Trost está simplesmente fantástico. Não existe um som fora do lugar, fora de tempo. Tem-se o choro do violino nos momentos de maior pesar, ou a combinação do violino com o acordeão quando Ivan e Marichka estão nos braços um do outro, ou o bombo e o acordeão quando estamos perante uma situação de perigo ou desespero. É uma sequência de sentimentos que, através da música ali tocada, se torna quase palpável e isso não tem preço.

Fotografia por Luís Martins.



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