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A Kunsthalle de Lisboa

Instituição da Europa germânica ou um embuste?

A Kunsthalle Lissabon assume-se como um embuste. Para quem não sabe, as Kunsthalle são instituições da Europa germânica, de grande escala, com orçamentos pesados, exposições blockbuster e estrelas reconhecidas. O número 7 da Rua Rosa Araújo não tem metros quadrados suficientes para ser oficialmente distinguido como tal, mas é atrevido que chegue para inaugurar uma petição de princípios.

O Embuste

Independentemente do espaço pequeno e dos recursos limitados, os seus criadores, João Mourão e Luís Silva, acreditam que é possível apresentar uma programação “irrepreensível e de qualidade”, pautada por desafios constantes. Aqui, toca exactamente nos pontos-chave de uma Kunsthalle, e alcança justamente o troféu da sua denominação. Ganha por lançar o mote para uma filosofia de valorização da qualidade versus quantidade, que deve servir de inspiração para qualquer pessoa colectiva ou particular nos dias que correm. Mas existe ainda um lado politizado implícito: “neste momento, todas as cidades europeias têm um Museu de arte contemporânea ou uma Kunsthalle, e em Lisboa isso não acontece”, assumem os dois curadores independentes, “analisamos como a iniciativa privada pode responder a isso e criar espaços de diálogo e reflexão”.

Context Response

João Mourão e Luís Silva pretendem, antes de mais, pensar o que é fazer exposições hoje em dia. “A prática curatorial é feita de uma forma quase ingénua ou inconsequente. Penduram-se coisas na parede mas não se pensa nas consequências desse acto. Não se reflecte sobre as implicações políticas, teóricas, estéticas, deontológicas ou como o público vai reagir”, afirmam os curadores. “Nós queremos que a Kunsthalle seja um espaço de prática reflexiva, que pegue nas conclusões, as apresente e transforme em exposições”.

E começaram, com a exposição “X-Office”, de Nuno Sousa Vieira, que responde a uma necessidade muito específica e contextual no próprio espaço da Kunsthalle Lissabon. Outrora gabinete de escritório anos 80, composto maioritariamente por uma estrutura que juntava alumínios, contraplacados e persianas empoeiradas, caracterizava uma ambiência que garantia que o seu destino nunca iria passar por open space expositivo. O desafio estava lançado. Os dois curadores pediram a Nuno Sousa Vieira que trabalhasse a estrutura, que a recontextualizasse na sua prática, e, nesse processo, o espaço também acabaria por ser recontextualizado. O resultado foi a abertura do espaço e a criação da peça proponderante da exposição, num projecto que se distingue pelas suas características context responsive. Parte das premissas do local e trabalha sobre elas. Uma resposta específica a uma situação específica. A visitar.

Pensar a prática de dentro da prática

“Words don’t come easy”  (é o nome de baptismo da iniciativa reflexiva), mesmo assim, a Kunsthalle Lissabon não se absteve e decidiu criar espaços de tertúlia com os artistas convidados, onde se fala sobre as exposições e as peças criadas. Parte-se dos projectos, alargando-se até aos caprichos criativos mais íntimos dos artistas. O objectivo é desenvolver um arquivo bibliográfico dos autores, feito na primeira pessoa, que estará disponível na Kunsthalle Lissabon e na web. “Criar um discurso curatorial, que não é tão óbvio em terras lusas, e esticar a corda são os objectivos”, afirmam os curadores.

Como tal, Mauro Cerqueira é  o artista que se segue. Em Setembro. Criar-se-ão performances que irão provocam resquícios. Estes darão o mote para a exposição. Pretende-se testar os limites. Analisar até que ponto uma exposição é  ainda uma exposição. Quem quer descobrir?



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