“A Misericórdia dos Mercados” | Luís Filipe Castro Mendes

“A Misericórdia dos Mercados” | Luís Filipe Castro Mendes

Racionalidade poética

Dividido entre duas paixões, a diplomacia e a poesia, Luís Filipe Castro Mendes é um dos mais elogiados representantes de um certo pós-modernismo poético que miscigena o romântico e o clássico, o onírico e o racional.

Desse intrincado jogo literário resulta agora “A Misericórdia dos Mercados” (Assírio e Alvim, 2014), uma obra transversal que, assente num determinado conceito “niilista/realista”, pensa o Homem em função da sua posição na sociedade de consumo, ou na qualidade de fiel depositário do legado literário cultural do(s) último(s) século(s).

Entre a melancolia e a ironia, entre a descrença e uma (falsa) noção de esperança, Luís Filipe Castro Mendes faz, entre outras breves análises, um elogio crítico do capital e da posição do cidadão nesse cenário. No auge desse triste constatar, escreve-se no poema que dá nome a este livro: «… os mercados são simultaneamente o criador e a própria criação. Nós é que não fazemos falta».

Ao longo das páginas desse livro não são esquecidos os herdeiros de abril e gente de outras artes e culturas, como Van Gogh, Marcel Proust, Rilke, Tabucchi, Jorge de Sena ou Miguel Gomes. Em “A Misericórdia dos Mercados” e por entre linhas de alguma resignação, há também espaço para a magia da poesia como em “A Anunciação”, onde se acredita que um poema se assemelha a «um riso atrás da cortina da vida».

Com uma obra que teve o seu início na década de 1980 com “Recados”, o seu livro de estreia, Luís Filipe Castro Mendes – que já viu a sua obra ser agraciada com o prémio da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto – confirma, com este “A Misericórdia dos Mercados”, que à poesia é possível uma abordagem conjuntural de uma sociedade atormentada pela devassidão económica e financeira. Ainda que os céus se afigurem cinzentos, a criação poética possibilita sonhar com um arco-íris depois da chuva, pois «o nosso amor é uma vigília sem quebras e nunca nenhum povo se deixou hibernar».



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