Bon Iver @ Coliseu dos Recreios | 24 de julho de 2012

Bon Iver @ Coliseu dos Recreios | 24 de julho de 2012

Para nós

Foi preciso esperar mais de quatro anos para assistir à estreia de Justin Vernon em Portugal. Foi uma espera longa mas que valeu a pena porque noite como a que se viveu no dia 24 de Julho de 2012 no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, dificilmente se repetirá, pese embora os Bon Iver já tenham regresso marcado para o Campo Pequeno no dia 26 de Outubro.

A sala nobre da Rua das Portas de Santo Antão estava ainda a meio gás quando Sam Amidon subiu ao palco para a primeira parte. E começaram logo aqui as surpresas. É que uma primeira parte acaba muitas vezes por ser apenas uma formalidade. Uma coisa para “encher chouriços”. Mas este não foi caso. Amidon preferiu sair dessa área de conforto, aventurar-se e oferecer um concerto completo ao público, mesmo que curtinho, ou pelo menos àquele que optou por escutá-lo ao invés de se limitar a conversar e ignorar o que se passava no palco. A música do norte-americano é folk. Não há que enganar. Mas é um folk multifacetado que tanto apresenta características mais clássicas – aqui, até o registo vocal de Amidon se altera para se adaptar a isso mesmo – bem como uma vertente mais moderna, alternando entre o banjo e a viola, e com ajuda preciosa de dois elementos no trompete e no violino. A fechar um concerto que cumpriu plenamente os objectivos a que se propôs, esteve um cover de «Relief», de R Kelly, que terminou com uma grande parte do Coliseu a cantar em coro.

Por esta altura a sala já estava cheia, talvez demasiado cheia – quem esteve em Feist, também com lotação esgotada, ficou com essa sensação – e com a temperatura a subir (em todos os sentidos); de tal forma que nas primeiras filas os seguranças e os elementos da Cruz Vermelha revezavam-se na distribuição de copos de água.

22h15. As luzes apagam-se. Alguma histeria (exagerada) toma conta do Coliseu, o que nos leva a pensar se toda a gente que ali se encontra está ali para ver o Justin correcto…

A Justin Vernon não escapa nada. O sentido estético é irrepreensível, com tanto de bom gosto como de discreto. Sobre o palco estão pendurados alguns panos rendilhados, que vão mostrando diferentes efeitos, em função da luz que é projectada, e que ao longe faz o palco parecer um gruta. Em cima do palco existem vários pilares, com uma lâmpada no topo, que vão-se ligando e desligando. Fazem lembrar pirilampos. A atmosfera é relaxante mas ao mesmo tempo exige alguma reverência.

A entrada é feita a solo. Ao som de «Woods» do EP “Blood Bank”, agarrado ao microfone, de joelhos no chão, e já com o Coliseu na mão. Segue-se «Perth», canção de abertura do último álbum. Aí, quando se escutam os primeiros versos “Iʼm tearing up, across your face / Move dust through the light / To find your name / It’s something faint / This is not a place / Not yet awake, I’m raised of wake”, é como se levássemos um murro no estômago. Sentimo-nos pequeninos, desarmados. Resta fechar os olhos e deixarmo-nos levar. O mote para a hora e meia seguinte estava dado.

«Minnesota, WI» começa a deixar perceber o calibre dos músicos que acompanham Vernon em palco. Dizer que em palco os Bon Iver são uma máquina bem oleada é pouco, e ficar-se-ia aquém da verdade. É que é mais do que isso. Basta observar a parafernália de instrumentos em palco e forma quase graciosa como cada um desempenha o seu papel, como contribuem de forma determinante em prol de algo maior que é oferecido numa bandeja de ouro a quem se encontra ali para os escutar.

A primeira visita a “For Emma, Forever Ago” acontece à quarta canção, «Flume». À cabeça afluem palavras como “intemporal” e “delicadeza”. Poucas canções conseguem manter este tipo de aura. Já lá vão mais de quatro anos desde que se fez escutar pela primeira vez mas continua a soar tão bem como da primeira vez.

A sequência seguinte leva-nos de volta a “Bon Iver”. «Towers», «Hinnom, TX» e «Wash.» fazem muita gente levar as mãos ao ar e à cabeça, pela forma como os nossos sentidos vão sendo fustigados. É um turbilhão de emoções apontado à plateia.

Justin Vernon revela-se parco em palavras até esta altura. Aqui tudo muda. É que se deste lado a entrega e abertura já eram absolutos, em palco o sentimento estava a tornar-se recíproco. O que inicialmente se revela surpresa, transforma-se em alegria genuína por parte de um grupo de pessoas que adora o que faz. “Suffice is to say we all fell in love with your city”, acrescenta ainda antes de se atirar a «Creature Fear» com uma tenacidade impressionante.

«Holocene» é o tema que se segue a «Team». Arrepia como toda a canção cresce em torno de uns acordes que Vernon regista logo no início da canção, e deixa depois a tocar em loop. Pelo meio há o regresso a “Blood Bank” com a canção homónima e não conseguimos deixar de pensar que versos como “That secret that we know / That we don’t know how to tell” não podiam fazer mais sentido neste preciso momento. Sentimos que faltam palavras para descrever o que se está a passar naquela sala.

A sequência que antecede a recta final, até à saída do palco, e antes do regresso para o encore, é, à falta de melhor palavra, avassaladora. «re: Stacks», com Vernon, só em palco, de guitarra em punho, como que a ler uma carta escrita a sangue, seguida pela «Skinny Love» ou o ruir de uma relação. Sentimos um nó na garganta mas ambas são cantadas a uma só voz e quase que nos fazem levitar. «Calgary», «Lisbon, OH» e «Beth/Rest» são os temas que antecedem o encore e que valem aos Bon Iver uma monumental ovação de um Coliseu completamente rendido.

Já todos terão tido oportunidade de escutar uma versão ao vivo de «The Wolves (Act I and II)» e de sentir arrepios pela forma como o público integra a canção e no ponto máximo, mesmo no clímax, está toda a gente a gritar mesmo cá do fundo aquilo que começou quase como um murmúrio: “What might have been lost”. Pois bem, ao vivo as proporções e os níveis de adrenalina a que estamos sujeitos são ainda maiores. Quase que vêm lágrimas aos olhos. Queremos berrar, mas a garganta parece que tem um nó cá dentro.

Por fim veio «For Emma», que encerrou da melhor forma um concerto perfeito que foi mais e melhor do que qualquer um poderia prever…

Fotografia por Marisa Cardoso. Reportagem fotográfica aqui.



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