rdb_boogie_header

Boogie

O Regresso do Modern Funk

“Vou ser honesto” diz Oliver Wang num post recente do Soul Sides, um dos mais conceituados blogs para Soul e R&B na ‘net “estou estonteado por o Boogie (discos de Funk e R&B do início até metade dos anos 80) ter feito um comeback tão fascinante como o estilo mais recente adoptado pelos hipsters. Isso não é um insulto (bem, não o é exactamente), uma vez que acredito que as pessoas que gostam de Boogie gostam mesmo. É só que era exactamente este estilo de canções fonky com sabor a xarope que os heads do Hip-Hop costumavam gozar enquanto sujavam os seus dedos, mas agora este estilo está na berra com alguns dos anciões desse grupo.”

Após tantos anos de arqueologia e assaltos a túmulos musicais, era de esperar que os anos oitenta estivessem finalmente e definitivamente esgotados. Mas não! A coqueluche actual dos diggers encontra-se num estilo de R&B do início dos anos 80, altura de transição entre a morte do Disco e o emergir do New Jack Swing que definiu a música Soul na segunda metade da década. Falamos de ritmos ligeiramente mais lentos, de uma predominância de teclados e sintetizadores que ainda não existia na era de ouro do Disco Sound; falamos também de uma pose auto-conscientemente classy, em oposição directa ao hedonismo mais espampanante dos anos anteriores: fatinho e gravata, canções de amor romântico-aburguesadas, mas mesmo assim um pouco demasiado jovem para se poder colocar na mesma categoria que a Soul declaradamente adulta de Luther Vandross a solo e Lionel Richie. Os artistas chamam-se Change, S.O.S. Band, Raydio, Imagination; as editoras a ter em conta incluem a Prelude, West End, Profile e Emergency. Na altura em que existia, ninguém que o ouvia parecia ter um nome para o estilo que fosse além de “dance music”; hoje, o termo mais usado por DJs, jornalistas, diggers avulsos e artistas que, como o fenómeno de sucesso Dâm Funk, pretendem revisitar a corrente musical é uma categorização feita retroactivamente pela cena rare groove do Reino Unido: Boogie.

Parte da longa narrativa britânica de fanatismo para com estilos americanos de outrora, o movimento Rare Groove cresceu na segunda metade dos anos 80, focando-se principalmente no coleccionar obsessivo de música Funk dos anos 70. Por um lado, era apenas mais um passo natural na evolução musical de uma nação que, nos anos setenta, já tinha criado um culto para o Soul americano dos sixties através do movimento Northern Soul; mais uma vez, havia os diggers obsessivos e as estações de rádio pirata. Mas ao mesmo tempo, o Rare Groove foi profundamente influencial: foi neste ambiente que se popularizou pela primeira vez a noção de raves em armazéns abandonados, e aqui que se iniciou a ligação moderna entre clubbing e moda, com revistas como a “i-D” a darem foco constante na street fashion dos seus jovens aderentes; até mesmo o termo “drum & bass”, segundo alguns, originou nesta cena.

Seja como for, a fim da década tinham-se definitivamente esgotado as raridades de Funk setentista, e a cena estava numa atmosfera palpável de estagnação. Em breve, iria ser engolida pelas mudanças radicais que iriam tomar posse da cena musical britânica – por um lado, o Acid House a catapultar definitivamente a cena para um modelo electrónico, e pelo outro, a aparição dos Soul II Soul, levando assim ao mainstream uma tradição de música negra britânica vertente “produto nacional”, e destruindo (pelo menos até certo nível) a cadeia de movimentos baseados em torno de modelos americanos. Mas antes disso, houve ainda um pequeno salto dentro do rare Groove, feito com toda a naturalidade de quem segue uma linha recta – já não há nada a explorar nos anos setenta? Toca para os oitenta, então! Sendo que Hip-Hop e House se integravam em sonoridades demasiado distantes para fazer a delícia dos DJs groovers, favoreceu-se em vez disso o Boogie, povoado em parte por bandas já conhecidas dos anos setenta e detentor de um estilo requintado que agradava às fashion victims da cena. Por algum tempo entre 1988 e 1990, o que interessava eram as festas no Africa Centre, DJs como Norman Jay, os longos programas da sempre fiável Kiss FM. Os putos de 1989 estavam a meio de um revival de um estilo de música existente mais ou menos entre 1980 e 1986, um facto bem surpreendente para quem julga que a febre do revivalismo é um fenómeno específico da nossa era. O que estava a dar era Boogie.

Mas voltemos ao som em si, e ao que o distingue do Funk e Disco que o precedeu. As críticas de Wang não são de todo infundadas – comparado com a desbunda freaky do Funk, e mesmo com o calor cintilante do Disco-Sound, a maioria dos discos Boogie soa talvez excessivamente melosa e bem comportada. Um dos factores mais identificativos é a omnipresença de teclados e sintetizadores – um sinal do futuro, mas utilizado exclusivamente ao serviço de estruturas musicais tradicionais. A estrutura de banda ainda está lá, mas é o synth que lidera a faixa; secções de sopro e cordas, como ainda existiam aos montes no final dos anos setenta, são quase inexistentes.

Este movimento para o electrónico deve-se, nas palavras de Greg Wilson num artigo sobre Electro-Funk “não só aos feiticeiros technopop alemães Kraftwerk, antepassados credenciados do Electro puro, e futuristas britânicos como os Human League e Gary Numan, mas também a uma quantidade de músicos negros pioneiros. Artistas maiores como Miles Davis, Sly Stone, Herbie Hancock, Stevie Wonder, o lendário produtor Norman Whitfield e, claro, Geoge Clinton e a sua brigada P-Funk, iriam todos desempenhar o seu papel na criação de um novo som através do seu uso inovador de instrumentos electrónicos durante os anos 70 (e, no caso de Miles Davis, mesmo a final dos anos 60)”. Se artistas como Afrika Bambaata e Mantronix iriam utilizar essas influencias para criar novos e aterradores sons que colocavam em questão a própria noção do que é uma canção, as bandas Boogie limitavam-se a inserir as novas tecnologias num pensamento clássico de songwriting.

Para entender a natureza bem comportada de letras e sons a emanar do Boogie, quando tanto os seus precedentes como os seus contemporâneos investiam tanto em radicalismos, é preciso (como sempre) olhar para o contexto social. A classe média negra tinha crescido de forma notável em anos recentes: a longa luta dos direitos civis tinha finalmente dado os seus frutos, e a presença negra aumentava na academia, nas profissões liberais, nos subúrbios. As duas décadas passadas tinham sido no mínimo tumultuosas: Martin Luther King, Malcolm X, afro-centrismo, black panthers, os distúrbios de Watts. E os anos setenta, em específico, tinham sido uma década de ruptura e subversão – o freak out hippie de Sly & The Family Stone, o sentimento de comuna-orgia extraterrestre dos Funkadelic, o humor cru e radical de Richard Pryor, os afros, brincos e pimp suits da era blaxploitation.

Agora, pela primeira vez, uma geração de jovens negros da classe média estava a crescer num ambiente em que o racismo, não deixando de ser um problema, já não era um espectro omnipresente na vida diária. Surgia um claro movimento (já antecipado nas letras dos Chic, curiosamente uma das bandas Disco que mais se aproxima do Boogie) daquilo a que os anglófonos chamam upward mobility, uma vontade de adoptar os padrões e os comportamentos das classes afluentes. Os jovens negros que ouviam e tocavam os discos posteriormente categorizados como Boogie liam a “Esquire”, jogavam xadrez e modelavam o seu estilo de vida ideal nos telediscos dos Duran Duran. Outra forma de dizê-lo seria que Boogie é o tipo de música que os filmes dos Huxtables deviam ouvir no “The Cosby Show”.

É só depois de se ter compreendido este relacionamento que se pode entender porquê discos como “What I Got Is What You Need” de Unique ou “I Wanna Get To Know You Better” de Attitude, canções que não podiam ser mais distantes dos grooves duros de “Fight The Power” dos Isley Brothers ou “Soul Power” de James Brown, eram na sua altura definidos como Funk. Trata-se  de uma evolução contínua, o que acontece quando se mistura os sintetizadores expressivos do P-Funk, a elegância do Disco-Sound e o modernismo do New Wave. Existem até bandas que acompanharam essa evolução: se Kool & The Gang começaram como um dos maiores nomes do Funk marca anos setenta, adeptos em instrumentais minimalistas, achegas ao Jazz (“I Remember John W. Coltrane”) e breaks brutais, ao início da década de oitenta já tinham trocado as suas peles e barbas por fatinhos à “Miami Vice”, e começavam a gravar canções como “Ladies Night”, “Jones Vs Jones” e “Get Down On It” – faixas que se encaixam sem dificuldade em qualquer playlist de Boogie.

Existe ainda mais um factor que, segundo algumas fontes, pode ter tido uma influência considerável sobre o estilo. No final dos anos setenta e início dos anos oitenta, houve uma grande vaga para a patinagem – os famosos roller rinks, uma modinha forte o suficiente para persuadir Hollywood a tentar encontrar o próximo “Saturday Night Fever” num filme de 1979 denominado “Roller Boogie”. De facto, entre os coleccionadores britânicos, ninguém sabe bem explicar como um termo tão careta, utilizado anteriormente para definir certo Jazz de piano dos anos 40 e, mais recentemente, as guitarradas prolongadas de grupos Rock como Foghat e ZZ Top, veio a ser usado como título para um movimento tão moderno; estará aí a resposta? Ao mesmo tempo, o ritmo mid-tempo que distingue o Boogie dos seus predecessores no Disco-Sound é, segundo alguns, exactamente a velocidade correcta para servir de banda-sonora para a patinagem. A mudança de direcção musical poderá, portanto, ter tido razões bastante utilitárias.

A maioria dos fãs de Boogie utilizam o ano de 1986 para demarcar o fim do estilo. São várias as mudanças na Pop negra dessa altura, a começar pela chegada do New Jack Swing, um estilo de R&B mais declaradamente rebelde e adolescente que os que o precederam. Assistimos, também, à consagração da dupla de produção Jimmy Jam e Terry Lewis, os Neptunes da sua altura, que em 1986 aparecem como produtores do mega-êxito “Control”, de Janet Jackson. Finalmente, havia o Hip-Hop, na sua lenta ascensão para o estatuto de língua franca da música negra americana – e, mais tarde, da Pop por completo.

Passados muitos anos sobre a era dourada do Boogie, e muitos também sobre o seu revivalismo instantâneo nas mãos dos rare groovers britânicos, o estilo aparenta voltar às luzes de ribalta. O mercado de coleccionadores já anda bem activo há alguns anos, principalmente em países como a França (onde abundam compilações) e a Holanda. Existente pelo menos desde 2001 (e com um design que, tem que ser dito, deixa isso transparecer) o site danceclassics.net tem se dedicado ferozmente à divulgação do Boogie; a secção de entrevistas é especialmente fascinante, parecendo quase uma sucessão de chamadas telefónicas a ex-artistas surpreendidos que haja alguém interessado nos seus discos, interrompidas de vez em quando por uma entrevista com algum artista maior surpreendido por quererem falar não dos seus êxitos mais emblemáticos mas sim de alguma obscuridade que lançou em 1982.

Em 2004, Kenny Dope dos Masters At Work lançou “Roller Boogie 80’s, uma selecção de êxitos maiores da era que reforçou a ideia da ligação com a patinagem. Em 2007, Snoop Dogg lançou “Sensual Seduction”, um single cuja sonoridade (bem como os visuais do teledisco) mistura Boogie, Prince e Rick James para a era Hip-Hop; a influencia na cena limitou-se a uma paixão súbita pelos vocoders. Mais recentemente, Dâm Funk, artista de destaque da Stones Throw e ex-teclista dos Westside Connection (claramente, o G-Funk tem uma afeição pelo Boogie – tendência que se pode traçar até às colaborações de Tupac Shakur com Roger Troutman, o vocoderista dos Zapp, banda que fez bem explícita a ligação entre o P-Funk e o Boogie) tem tido bastante sucesso na crítica inspirando-se no estilo. E diariamente crescem os sets no SoundCloud com tag “Boogie”. Que tremam as feiras da ladra pelo mundo afora – há uma nova febre.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This