Comunidade Sessions @ ZDB

Os Bairros da Alta sobem ao Bairro Alto.

Cantam rap em crioulo e comunicam entre si no dialecto do país dos progenitores, apesar de pertencerem à segunda geração de imigrantes cabo-verdianos sentem-se como se vivessem no distante arquipélago cabo-verdiano, um pedaço de terra que poderiam cortar e colocar ao lado das restantes ilhas, curiosa metáfora usada por uma personagem captada pela câmara da dupla de realizadores do “Outros Bairros” – Inês Gonçalves e Vasco Pimentel.

Na tentativa de manterem as raízes africanas vivas a música é o veículo escolhido de celebração de um continente e de uma tradição fisicamente distante e tão presente na vida destes jovens.

O Rap e Hip-hop, o estilo de música que transmite não raras vezes uma realidade cinzenta e contrastante com a imagem que os restantes poderão ter da alegria de África e das suas gentes, coabita entre nós absorvendo a dureza do quotidiano da periferia das grandes cidades.

E na expectativa de cruzar diferentes pessoas e vivências, tantas vezes alheias entre si e que existem na mesma cidade albergadora de experiências diversas, a ZDB recebeu uma série de jovens provenientes do Bairro da Alta de Lisboa, numa co-produção com a associação Freestylaz e a Fundação Agha Kan, para o lançamento da maqueta do colectivo NoBairro.

Aos que lá se deslocaram, numa tarde de domingo meia cinzenta e de sol timído, estava reservada uma esplanada improvisada no terraço da ZDB onde foi servida uma cachupa africana, seguindo-se a projecção dos documentários “Outros Bairros” e “Um Pantera Negra” em Portugal, de Rigo 23, momento que encheu a sala de instantes efusivos com a assistência a juntar às imagens comentários jocosos que fizeram explodir gargalhadas dispersas pela espaço, ladeado pelas largas vidraças com vista para o exterior e que devolviam um Bairro Alto ainda deserto e silencioso.

A apresentação da demo dos NoBairro foi outro dos momentos altos, já que esta, além de ser o destaque do evento, espelha o culminar de um trabalho realizado pela associação Freestylaz, fundada por António Guterres e Jorginho – MC dos TWA – segundo estes estruturado numa lógica pragmática e simples. A demo lançada é fruto das investidas ao bairro, nas quais Jorginho e Guterres apenas levavam um computador portátil e uma série de batidas (bases instrumentais) e iam pedindo a colaboração espontânea dos miúdos que quisessem preenchê-las de rimas cruas.

Além destes também subiram ao palco os Bairro Side, o grupo de dança L Niggas Crew – uma dezena de meninos e meninas que se degladiavam, numa batalha coreografada ao som de um Hip-hop dançável, executando um número estilizado à semelhança dos video-clips da MTV e que suscitou fortes aplausos por parte do público, actuando ainda os 100% BCV, Submundo e Amancha, grupo de música africana, de forte cariz tradicional.

Com os concertos por banda sonora, no 2º andar da galeria, João Maria Gusmão e Pedro Paiva guiavam uma visita pelo seu último trabalho, “Eflúvio Magnético (2ª parte)”, composta por projecções, fotografias e instalações várias.

À medida que a tarde caminhava e dava lugar à noite, o palco ia sendo invadido pelo suposto público disposto em círculo com os braços e mãos no ar, ora em forma de pistola ora em forma de punho cerrado, em jeito de festa de bairro e em que parte, só se transformou novamente em assistência quando Chullage subiu ao palco e Jorginho, a solo, encerrou a festa.

A noite culminou com alguma confusão provocada pelo consumo excessivo de alcoól e alguns comportamentos menos apropriados a um dia que se queria de festa.



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