Dirty Pretty Things

De passagem por Portugal, a banda esteve à conversa com a RDB.

Carl Barat, Didz Hammond, Gary Powell e Anthony Rossomando. Os três ingleses e o primo americano são nomes de referência não só no plano inglês mas também além-fronteiras.

Didz Hammond, ex-Cooper Temple Clause, juntou-se a uns Libertines prontos para se entregarem de corpo e alma a um novo projecto que marca um catártico renascer. Os Dirty Pretty Things, DPT, assentam em sólidos alicerces musicais e o álbum “Waterloo to Anywhere”, gravado em menos de um ano, vale não pelos fantasmas que assombraram os The Libertines mas enquanto excelente registo de estreia. Antes do lançamento oficial do álbum e com o primeiro single já escolhido («Bang Bang You´re Dead»), os DPT passaram pelo Santiago Alquimista no passado dia 14 de Abril.

”Bang Bang You´re Dead” – quem é que estão a tentar matar?

Didz – O tema aborda um processo de recuperação. Temos sempre duas escolhas, nesta música a boa escolha mata a má escolha, basicamente. Trata-se de nos conseguirmos levantar de novo e recomeçarmos.

Quando ouvi esse tema pela primeira vez pensei na indústria musical. Quando nos apercebemos que há mais interesses em jogo…

Didz – Sei o que estás a dizer. Essa é uma lição que temos estado a aprender de há 5 anos para cá: aprendemos a ter cuidado. Não se trata de um mundo que me desiludiu. As coisas são assim mesmo. Trata-se de uma realidade da qual nos apercebemos aos poucos, o que não nos permite ficar desiludidos de um momento para o outro.

Gary – Ao longo da nossa vida todos nós conhecemos um “blood thirsty bastard”, quer ele seja alguém do meio musical…

Didz – Hey! (risos)

Gary – Sim, quer seja alguém do meio musical, ou alguém que em algum momento na nossa vida nos tenha parecido ser um amigo próximo mas que depois nos apercebemos que essa mesma amizade servia apenas de veículo para conseguirem atingir outros objectivos. Toda a gente já conheceu pelo menos uma pessoa assim. Este tema estende-se a todos e a qualquer um que tenha passado por uma experiência deste género. Talvez alguém que queira dormir com a tua namorada (risos), talvez alguém que tenha conseguido dormir com a tua namorada…

Experiência própria, Gary?

Gary – Aconteceu-me!

Didz – A «Blood Thirsty Bastards» foi uma ideia do Anthony.

Os vossos temas carregam muita reflexão pessoal. Acreditam que, ao escrever e ao transformar esses sentimentos em letras, conseguem de certa forma expulsar alguns demónios ou alguns sentimentos mais negativos?

Gary – Em todo o álbum tens isso presente…

Didz – Às vezes. Acho que é bastante fácil ver em que temas é que o fazemos. Ao mesmo tempo temos temas que tratam de histórias mais fantásticas, e que dão uma grande sensação de optimismo, assim como outros onde abordamos uma reflexão de carácter social. Neste álbum não expulsamos somente os nossos demónios, também exploramos um lado muito optimista.

Concentram em vocês muita atenção por parte da imprensa inglesa. Como conseguem lidar com isso e ao mesmo tempo manter um carácter de honestidade nas vossas letras?

Gary – A mais-valia é que estamos a ser honestos e temos a verdade do nosso lado. Não podemos não ser verdadeiros, assim ficamos todos a ganhar. A imprensa tem as respostas que quer acerca do conteúdo dos temas e nós somos honestos.

Didz – A imprensa está sempre à espera de alguma informação nova. Principalmente a imprensa britânica…

Gary – A nossa atitude para com a imprensa é não nos importarmos com o que possam dizer. Nós e o Carl estamos sempre a ouvir milhares de perguntas, todas iguais, acerca dos The Libertines. A imprensa já sabe a resposta a estas perguntas, já leram e sabem o que ele sente neste momento.

Didz – Acho que estão à espera que tenhamos um dia mau ou estejamos cansados e nos saia alguma coisa horrível para eles poderem usar como título.

O Carl disse que vocês são “quatro contra o mundo”. Waterloo foi a última batalha de Napoleão. O que é que «Waterloo to Anywhere» significa para vocês?

Didz – Não foi daí que tirámos o título, apesar do nome poder vir daí, não é essa a sua razão. Existe uma estação em Londres, que foi baptizada em homenagem a essa batalha, e nós tínhamos uma pequena sala de ensaios por baixo. Foi aí que tudo começou. A ideia de irmos a uma estação e pedirmos um bilhete sem sabermos onde nos vai levar, uma viagem misteriosa. Esse título carrega uma sensação de aventura e optimismo. Não sabemos para onde vamos mas vamos aproveitar a viagem e viver uma aventura.

Mesmo sem o álbum estar nas lojas, como tem sido a recepção obtida nesta digressão?

Didz – Muita gente canta as músicas todas durante os concertos, o que é bom. Significa que perdem tempo na Internet à procura delas.

E se eu vos disser que saquei o vosso álbum da Internet?

Didz e Gary (risos)

Gary [faz uma cara séria de repente] – Eu importo-me! (risos)

Porque que queriam chamar ao vosso primeiro registo “Britain for Sale”?

Didz – Não sei… quer dizer… sei. (risos) Essa frase foi tirada de um documentário sobre o Sid Barrett que eu, o Carl e o Anthony estávamos um dia a ver no estúdio. De repente vimos um néon gigante onde se lia “Britain for Sale”. Pensamos em usar esta frase para título do álbum mas depois pareceu-nos ser mais um slogan forte. Toda a lógica e significado que queremos relacionar ou levar ao nosso álbum é demasiado abstracta para podermos usar este título, apesar de ele ser um bom slogan. Desta frase poderíamos tirar muitos significados a aplicar ao nosso registo, mas nenhum deles seria o mais adequado.

Gary – “Waterloo to Anywhere” é bastante mais optimista.

O que que mudou desde a última vez que tocaram em Portugal?

Gary – Da última vez que tocamos em Portugal tive de telefonar ao Anthony, antes do concerto, porque ele estava “cansado” (imita sotaque britânico) (risos).

Porque é que eu às vezes pareço uma marioneta a falar? [questiona enquanto move os braços como uma marioneta]

Didz – És mesmo assim…

O que sentes que em ti seja diferente enquanto músico numa banda?

Gary – Estávamos em digressão pela Europa da última vez que aqui tocámos. Éramos uma unidade bastante sólida e mais uma vez sinto que somos muito unido,s e não apenas em palco, mas num sentido de união ainda mais profundo.

Que mais mudou?

Didz – Bem… temos um baixista que não pára de falar enquanto que antigamente havia um que não começava a falar…

Gary – Ai está… é essa a diferença. Hey… o Anthony está a pular…

[Anthony surge a saltar, uma a uma, por cima de uma série de cadeiras alinhadas]

Gary – Uma das grandes diferenças é que o Anthony está acordado em Portugal desta vez. “Anthony acorda!”, “Não quero fazer o soundcheck!”, “Não é o soundcheck…é o CONCERTO!” (imita a situação à frente de Anthony)

Anthony – Odeio-te a ti e aos soundchecks!!! (grita Anthony enquanto se afasta novamente) (risos)

Gary – Ele está a falar a sério!

Ainda no ano passado, o Carl dizia que se sentia um pouco menos triste mas que não sabia quão perto isso estaria de se sentir feliz. Como é que vocês se sentem agora?

Gary – Eu não acho que tenha estado triste, eu sempre fui muito realista acerca da situação e bastante optimista em relação ao futuro que iríamos ter juntos, não estava tão triste como o Carl.

Às vezes estava triste mas isso era porque sentia que o Carl estava mal, ele para mim é como um irmão. Quando ele se sente mal ou quando qualquer outra pessoa na banda se sente mal eu não posso ficar indiferente e espero que o contrário também seja verdade. Este álbum foi uma catarse, muitos demónios foram expulsos e muitas novas oportunidades nos surgem pela frente. Eu sou muito optimista mas também sou realista… tudo pode acontecer. Para mim, a vantagem de pertencer a uma banda e estar na posição em que estou é ver estes rapazes evoluir e sentir que libertam a sua energia e o seu bom humor durante os concertos. Ao vê-los aos três à frente da minha bateria no palco, sinto que eles estão felizes em actuar juntos e espero que assim continue.



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