“Felizes para sempre e Outros Equívocos acerca do Casamento” | Tiago Cavaco

“Felizes para sempre e Outros Equívocos acerca do Casamento” | Tiago Cavaco

Dentro de cada libertino há um rato de sacristia

O título remete-nos à canção dos Lacraus, uma das possíveis apresentações à demanda do pastor baptista Tiago Cavaco. Não se pense que o “panque-roque do Senhor” existe sem uma agenda ideológica radical, apelando à salvação de ovelhas tresmalhadas, distantes dos caminhos da santidade e prontas para se perder na droga e debochada. E que melhor forma de dar a conhecer a moral cristã do que a música que, por norma, é associada ao Grande Bode? Se não os consegues vencer, junta-te a eles.

O senhor Flor Caveira opta, em “Felizes para sempre e Outros Equívocos acerca do Casamento (Cego Surdo e Mudo) por um discurso ideológico mais directo, sem a música para ajudar a empurrar o que é proposto. No primeiro contacto, é sugerido que aquilo em que nos vamos meter é a maneira de Tiago Cavaco e esposa convencerem «as pessoas à volta deles que o casamento é uma grande aventura.» Aventura, saliente-se, de contornos bem delimitados. Partindo sempre da ideia errada que o casamento é uma criação divina comprovada pela Bíblia, e não um laço ancestral alicerçado na cooperação e união de esforços entre clãs e tribos, algo anterior à escrita, “Felizes para sempre” reforça – sem a mínima intenção – o perigo do dogma e de uma leitura não-histórica/crítica, não-metafórica e não-alegórica da Bíblia.

Estamos perante uma “lógica” que parece contrariar o princípio, ainda recente, do casamento por amor e companheirismo, remetendo a união de pessoas do mesmo sexo para o mundo à parte do contra-natura. Lê-se, a certo ponto, que «tudo aquilo que se coloca agora no conteúdo do casamento torna-se a garantia de que o conteúdo do casamento daqui para a frente é absolutamente relativo. De outra forma, ao dizermos que todos podem casar, bem podemos dar por nós a dizer que ninguém casa». Uma leitura completa de “Felizes para sempre” confirmará o radicalismo aplicado ao desvio da norma bíblica: o livre-arbítrio existe, o amai-vos uns aos outros também, mas quem fizer como lhe der na real gana sofrerá eternamente no inferno.

A ideia apresentada do papel da mulher numa união matrimonial é outro arcaísmo com que muitos de nós não concordará. O leitor idealizado (um convertido em potência ou heterossexual já salvo que se quer reassegurado) é convidado a perceber o cerne da questão «de uma maneira muito simples: uma mulher cristã é necessariamente chamada a submeter-se ao seu marido do mesmo modo como o marido é necessariamente chamado a sacrificar-se pela mulher. Nesse sentido, não é opcional». E assim contamos com outra tácita implicação de que o não-cristão está em falta pecaminosa. Um princípio moral assente na rejeição de submissão, sacrifício, privação e “liberdade condicional” parece ser um atentado insuportável à virilidade masculina.

Sem qualquer espécie de objecção à pedra basilar bíblica, qualquer tipo de moral autónoma e crítica não cabe neste universo restrito de santos e pecadores. O oásis de sabedoria das Escrituras retém-se, estranhamente, no zelo pela virgindade, com a promessa de que o sexo depois do casamento é o melhor que alguma vez vamos ter na vida. No que diz respeito ao divórcio, este deve ser evitado a todo o custo, por mais que seja um direito fundamental que procura travar o aumento do delírio colectivo, já que ninguém é obrigado a gramar a vida toda com alguém que (já) não ama.

Nunca se fica a duvidar do amor que Tiago Cavaco sente pela mulher e filhos. É algo que a sua manifesta felicidade revela ser bom para ele e a família. É questionável se alguém compreenderá melhor que o pastor todas as abstracções geradas pela fé que escolheu expor em “Felizes para sempre”. Deixando isso claro, continua a pairar o fantasma do fundamentalismo exasperante em tempo de crise como resposta à ruína social. São também coisas em que muito pensava a velha senhora.

A sensação constante é a de que se habita no mundo semi-fictício de Louie, nomeadamente o do célebre episódio “Come On God”. Confrontados com o absurdo da condenação da masturbação e dos valores da virgindade até ao casamento, reflecte-se sobre a máxima quem espera sempre alcança, peça fundamental do credo cristão que consegue ser, ao mesmo tempo, motivante e medonha.



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