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Filipe Faísca

“O homem português é imaturo a vestir-se”.

Filipe Faísca, estilista de profissão, recebeu a Rua de Baixo no seu ateliê pintado de branco, no Chiado, Lisboa. Espaço ideal para uma conversa sem rodeios. O homem, a mulher, a universidade, os anos 80, Paris e Nova Iorque foram alguns dos temas em diálogo.

Na tua concepção de moda, a mulher é o ponto nevrálgico. Onde entra a personagem masculina?

Tenho de olhar para o meu ateliê de forma a poder ter resultados. A vender. Faço coisas diferentes e noto que as minhas clientes, neste caso mulheres, não são estanques. Querem coisas novas, inovar. Há balizas no vestuário do homem nacional que não se coadunam com a minha forma de trabalhar. Quando digo que estou num mundo contrário ao dos homens, tem a ver com o facto de ainda não me ter sintonizado com esse mercado. O homem português tem feito um progresso, que se nota imenso na sua mente aberta para outras coisas fora dos padrões. Há aqui uma questão que nunca se coloca, mas que tem a ver com a forma de evoluir na moda: a cultura. Ir a exposições de arte, pintura, cinema e viajar fazem parte da tal evolução de que falo. De forma geral, o problema masculino é materno. Não se corta o cordão umbilical, e isso prejudica na altura de escolher roupa. O melhor exemplo é o fato para o casamento, que é uma actividade sempre acompanhada da mãe.

Como definirias, então, a forma do homem português se vestir?

Imaturo.

Explica-te.

Não consigo explicar mais. É imaturo. Não corta a ligação com a mãe. O fato para o casamento, como referi anteriormente, é o melhor exemplo. São raros os homens que definem o que querem. Quando não é a mãe, é a irmã.

A mulher já foge dessa problemática…

O mercado, hoje, mexe-se a uma velocidade vertiginosa. E isso também tem influência, nomeadamente no número de publicações femininas que existem, em contraste com as masculinas. A mulher, se tem curvas bem feitas, se trabalha o corpo e não tem medo dele, mais facilmente está aberta a novas experiências. Pelo contrário, se for uma mulher forte, com ancas mais fortes, que esconde o seu peito… essa sim, será conservadora.

Que mulheres frequentam o teu ateliê?

No que toca à faixa etária, dos 35 aos 60 anos. Mas há cada vez mais jovens a virem ao meu ateliê. Há um caso curioso de uma cliente minha que tem 80 anos.

O teu percurso já vai longo, já desenhaste e criaste imenso. Ainda manténs a mesma vontade e energia de quando começaste a carreira nesta área?

Continuo. Para mim desenhar roupa não é apenas desenhar roupa. É uma clínica que trata o visual. Todo o processo de criação, bem como a troca de experiências entre mim e a minha cliente. Silhuetas novas, a transformação da matéria, novos materiais… tudo coisas que me fascinam e continuam a motivar na minha profissão. Agora, nesta fase de crise, todo este mecanismo de que falei deve ser muito mais minucioso. Desenhar em tempos de crise não é fácil.

E de que forma a crise entrou no teu ateliê?

As pessoas, hoje, quando compram um vestido, fazem contas sobre para quantas ocasiões ele vai servir. O vestido vermelho, como é muito marcante, apenas dará para um casamento. Assim, nota-se agora uma predilecção por cores escuras, modelos mais clássicos e, também, versáteis. Versáteis no sentido em que colocam umas calças, uma saia, um outro casaco, e podem continuar a utilizar aquela peça de roupa. Resumindo: a mulher vai a quatro casamentos e já não leva quatro vestidos. Leva dois. E, sinceramente, esta racionalização do produto faz todo o sentido. É mais realista. Estas conjunturas mais difíceis tornam as pessoas mais maduras nas suas escolhas. Mas ainda assim, há pessoas que chegam, vêem e compram. Isso acontece mais com estrangeiros. Não há dúvida que é uma compra mais solta, divertida… aquela ideia de ir fazer shopping. Isso ainda acontece, apesar de tudo.

Recuando uns bons anos, quando é que percebeste que esta seria a tua vida?

Desde os quatro anos. A principal razão foi a minha mãe. Ficava a apreciar a forma dela se vestir, antes de sair para as festas. Em África, na altura, havia uma vida social muito grande. Estamos a falar da década de 60. Havia muita actividade cultural e eu sentia imenso a excitação daqueles momentos anteriores aos eventos. Ficava sempre perto dela e assistia a todo aquele processo de embelezamento.

Passada a infância e adolescência, formaste-te no IADE, porém, o teu curso [Design de Moda], não te deu equivalência a uma licenciatura. Sentiste-te alguma vez prejudicado por essa situação, não obstante a carreira que construíste?

Sim. Em primeiro lugar, por isso mesmo: não tenho uma licenciatura. Depois, tive imensos convites para leccionar em determinadas instituições de ensino e não pude por essa mesma razão. Findo os três anos do curso de Design Moda, ficávamos na mesma com o 12º ano. Ridículo.

Por essa altura estávamos em finais dos anos 80, época do chamado “boom” cultural em Portugal…

Sem dúvida. Entrei para a Escola António Arroio em 1984. Este estabelecimento de ensino era um ponto de criatividade muito grande, tanto da parte dos professores como dos alunos. O visual de ambos era algo que excitava e dava azo a ainda mais arrojo. E outra coisa: eu tinha mestres, não tinha professores. Alguém que nos guiava tanto em matéria de conteúdo programático, como em temas que diziam respeito à nossa vida pessoal. Dei aulas no Chapitô, durante 12 anos, e noto que a curiosidade dos alunos não é a mesma. Cinema mudo, a preto-e-branco, exposições… hoje em dia não querem saber disso para nada. Na altura, a pintura, fotografia, cinema eram fontes de inspiração muito grandes. Depois, era o percurso normal: a criatividade saía das escolas, e ia para as ruas. Notava-se isso durante as noites, nomeadamente no Bairro Alto.

Fase de grande boémia na noite em Lisboa…

Claro, mas também muito criativa. O ponto de encontro era o Frágil, no Bairro Alto, que era um sítio muito pequeno. Nestes sítios estamos sempre com o ombro colado ao do vizinho, situação que criava uma onda de aproximação muito grande. A comunicação tornava-se assim muito mais rápida.

A boémia já não te seduz?

Não, nada. E também já não tenho tempo para ela.

Voltando à Moda. Quais são as tuas referências nesta indústria?

Primeiro que tudo, convém referir que hoje em dia as referências mudam muito. Às vezes fico entusiasmado com algumas propostas criativas de alguns designers, mas isso pode mudar de estação para estação. Na época seguinte, essas mesmas pessoas já não me interessam tanto. Ainda assim, existem algumas marcas que sigo com regularidade o seu trabalho: “Céline”, que agora tem nos seus quadros uma designer muito talentosa, e que aborda uma faceta mais clássica. É imperativo, também, acompanhar as propostas da Prada e Louis Vuitton.

Quando viajas reparas muito no que se veste em outros países?

Não faço outra coisa (risos). Observo imenso as montras, porque também as faço. Mas o que mais gosto de fazer é, sentado numa esplanada, olhar para as incongruências que o quotidiano provoca. Vejo pessoas que têm um sentido de Moda bastante grande, mas que como não têm tempo, colocam um cachecol que nada tem a ver com o vestido ou casaco que levam. Ao mesmo tempo, isto é uma forma livre de se vestir. Olhas para as pessoas e diz: “está tudo impecável, as mãos, as sobrancelhas…mas, de facto, ela não teve tempo de se vestir”. São coisas muito giras de se observar. Nota-se que a vida é mais importante que a roupa.

Dos vários locais que já visitaste, quais aqueles em que disseste: “os habitantes desta cidade têm um sentido de Moda bastante apurado”.

Paris e Nova Iorque. A capital francesa por ser uma cidade muito sofisticada, muito exigente ao nível de imagem. Há momentos em Paris em que paras para ver uma mulher passar. A combinação, que nunca pensaste ser possível, está lá. Em Nova Iorque é ainda mais libertador. Paris nota-se mais a importância do chique e beleza. É tudo mais “ton-sur-ton”. Na metrópole norte-americana não é bem assim. Na mulher nova-iorquina sente influências do rock, do jazz, da cultura negra… há um “mix” maior. A música é das coisas mais influentes naquela cidade.

Para terminar: quando não desenha, o que faz?

Vou à praia.



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