Frank Ocean | “Channel Orange”

Frank Ocean | “Channel Orange”

A luxúria veste-se de laranja

Quando Frank Ocean decidiu colocar o rótulo de “bissexual” em si próprio, houve quem falasse em golpe publicitário. Afinal, faltava muito pouco para “Channel Orange” chegar às lojas, e nada melhor do que um intenso bate-boca para criar um hype que rimasse com vendas. Claro que havia a possibilidade de tudo funcionar ao contrário, já que a causa liberal não anda, normalmente, a par do gráfico de vendas – assim como do próprio R&B.

Seja como for, o disco não parece estar centrado numa paixão não consumada que Frank Ocean terá vivido há uma mão cheia de anos, apesar de o tema ser abordado tanto no iniciático «Thinking Bout You» como no derradeiro «Forrest Gump». É antes uma história de cariz universal, que muito depois do hype assentar irá permanecer como um retrato vivo dos tempos modernos e, porque não dizê-lo, da derrocada do sonho norte-americano. Serve também de lição para as gerações vindouras, já que o precedente foi aberto: o sexo deixou de ser assunto tabu no que diz respeito ao R&B.

Em “Channel Orange” encontramos uma janela aberta para os anos 1970, numa divisão onde os cortinados estão pintados com as modernas cores do R&B. Há órgãos de igreja, guitarras que destilam soul, pianos com sabor eléctrico e melodias que mudam de direcção sem fazerem qualquer pisca. Há muito Stevie Wonder, um toque de Prince, um abanar de anca à Jamiroquai mas, acima de tudo, há muito de Frank Ocean: um rapaz talentoso, não apenas ao nível da composição como também na arte de contar histórias que evitam os juízos de valor e adoram finais em aberto: há miúdos ricos sem valores, viciados em crack, desilusões de amor, cinismo e muito, muito surrealismo. «Pyramids», por exemplo, é um tema assombroso. Dez minutos épicos, vividos a duas velocidades, abrindo o universo do R&B ao delírio e à alucinação, numa viagem que começa no Antigo Egipto e só termina quando metemos os pés dentro de um clube de strip.

Para um melómano que se preze, a sexualidade de Frank Ocean é absolutamente irrelevante. Quanto a “Channel Orange”, disco habitado por uma imensa luxúria, merece toda e qualquer relevância. Candidato a melhor rodela sonora de 2012.



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