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Gareth Dickson + Homem em Catarse @ Sabotage (05.04.2019)

Dois homens e suas respectivas guitarras, cada um à sua vez e ao seu estilo, estiveram sob os holofotes na noite da passada sexta-feira no rock n’ roll club ao Cais do Sodré.

O cariz intimista estava bem reflectido nas mesas que ocupavam desta feita a habitual pista de dança do Sabotage, preparadas para oferecer ainda mais conforto à plateia.

Homem em Catarse fez-se ao palco, convidando-nos de imediato para uma maravilhosa viagem ao interior do país e, por conseguinte, ao nosso interior. Foi esse o disco que foi mais revisitado, apesar de já estarem disponíveis algumas cópias do registo que gravou ao vivo sob a égide da Porta 253 recentemente, donde extraiu o inédito «(Não és) Açor». E um concerto do Homem em Catarse equipara-se a autêntica viagem de comboio, feita sem pressas e sem surpresas, por vezes por carris tornados ainda mais encantadores devido ao progressivo abandono, permitindo-nos contemplar todas as imagens que o seu som e a sua poesia projectam. Torna-se um desafio dado que nos apetece fechar os olhos para potenciar essa dita viagem, mas simultaneamente queremos mantê-los abertos para não perder pitada da forma como o músico vai controlando os diferentes mecanismos que o rodeiam no palco, e que ajudam a erigir as camadas sónicas com que enriquece os seus temas.

De Glasgow vinha a atracção principal da noite. Conhecemos Gareth Dickson há uns anos, quando acompanhou a diva Vashti Bunyan, no Teatro Maria Matos, e teve a oportunidade de interpretar um par de composições suas. Ficámos fascinados e seguimo-lo daí em diante. A aliança de Gareth com Vashti Bunyan, que acompanha há mais de uma década, faz todo o sentido musicalmente. Se na primeira parte da noite as paisagens sónicas eram rurais, foi precisamente pelo campo que continuámos. O timbre aveludado de Gareth Dickson, quase como uma homenagem ao génio de Nick Drake, vai-se imiscuindo com o virtuosismo folk da sua guitarra, inspirada por diferentes assuntos, desde os seus sobrinhos gémeos até a um concerto de uma orquestra clássica. A postura calma do músico escocês faz com que nos sintamos acolhidos e acompanhados, como se desfrutássemos de um piquenique num verdejante relvado, partilhando memórias e sabores com os restantes membros da audiência. Um piquenique que nem um céu ameaçador, quase sempre sombriamente tingido, não impediu, dado o conforto proporcionado pela sonoridade de Gareth Dickson. O cúmulo desse lado sombrio regista-se na excelente versão que assinou para «Atmosphere», o clássico dos Joy Division, com o qual encerra o seu último álbum “Orwell Court”. Sendo este disco de 2016, Gareth promete novidades discográficas para o corrente ano. Resta-nos esperar que volte para o apresentar aos seguidores portugueses.



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