James Blake | “Overgrown”

James Blake | “Overgrown”

Desencantada ascensão à idade adulta

Apenas dois anos após o lançamento do primeiro LP, James Blake continua difícil de categorizar. Soul? Electrónica? Dubstep? Esta última parece difícil de assimilar mas basta ouvir algo como “CMYK”, célebre lançamento do seu terceiro EP, para entender a denominação. E a realidade é que, depois do (inesperado) sucesso e do (esperado) criticismo, o músico britânico não parece estar disposto a resolver essa dúvida de rotulação que já lhe valeu algumas desavenças na indústria. Esse mero facto torna-o ainda mais autêntico e relevante e “Overgrown”, segundo álbum de originais lançado esta semana, é mais uma apaixonante fracção da sua alma inquieta e indefinível.

O título do disco apontava desde cedo para um amadurecimento do rapaz prodígio de Londres. E se essa evolução foi premeditada ou natural é totalmente indiferente: James Blake compõe aqui uma desencantada e sóbria ascensão à idade adulta, agora ciente de limitações e da débil capacidade de interagir com o meio por onde se move. Talvez por isso a linguagem tenha mudado, tornando-se aqui mais ambivalente e transversal do que na sua emotiva estreia. As emoções também estão aqui bem presentes, contudo tornaram-se totalmente conscientes da sua vontade de transfiguração. Surgem mais subtis e resguardadas mas não menos verdadeiras e lancinantes.

A entrega é também ela a mesma e a voz espectral e penetrante de James Blake continua a deslumbrar enquanto se desdobra em sussurros e exasperos. «Retrograde», o single de estreia, é talvez o seu mais ambicioso e desnorteante trabalho de ressonância emocional enquanto intérprete, e também compositor, simultaneamente desesperado e confiante. Sempre em modo confessional, Blake continua a reportar ao amor enquanto entidade frágil que necessita de sustentação. Tal é verdade quando acorda na soturna faixa-título e percebe que o mundo que julgava conhecer mudou completamente e também quando se apercebe que as certezas lhe estão a escapar pelos dedos em «Take a Fall For Me». Nesta última surge um convidado surpreendente, RZA dos Wu-Tang Clan, e este casamento inusual é particularmente bem sucedido a misturar duas sensibilidades paradoxais, tal como já tinha feito Kanye West com Bon Iver.

Assim se percebe que aqui moram muitas máscaras de uma mesma identidade e a serenidade da isolação que dominava o álbum homónimo é muitas vezes irrompida pela urgente vontade de comunicar. Assim, surgem ao lado da delicadeza da quietude de «DLM» e da soturna exploração de «I Am Sold» objectos tão exaltados e disruptores como o opus electrónico «Digital Lion», colaboração com Brian Eno, e a intoxicante «Voyeur», talvez a mais dançável e universal de todas as suas canções.

E se “Overgrown” é, na sua plenitude, uma reacção à desilusão da maturidade e à dor que resulta da lúcida percepção de que nada é espontâneo, ele não se deixa ameaçar por esse desengano. Ao terminar com «Our Love Comes Back», numa ode a um amor que o consome de livre vontade, James Blake parece ainda acreditar na doce intangibilidade dos mesmos pérfidos sentimentos que o atraiçoaram e na vida que ressuscita do âmago da desolação. Porque nem o mais magoado cepticismo conseguirá alguma vez vencer um sonho novo.



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