Joana Espadinha O Material Tem Sempre Razão

Joana Espadinha | “O Material Tem Sempre Razão”

Nos tempos que correm, a música portuguesa atravessa um período de ouro, com cantores, compositores e autores mais criativos e expansivos que nunca.

Nos tempos que correm, a música portuguesa atravessa um período de ouro, com cantores, compositores e autores mais criativos e expansivos que nunca. Esta fase não surgiu do nada agora e faz parte de uma onda de renovação sonora que coincide também com uma perspectiva mais optimista e leve dos caminhos que se querem ver trilhados, menos fatalistas, mais voltados para fora, músicas feitas para serem ouvidas, colaborações ricas entres os vários artistas, liberdade de criação e a sensação de que preconceitos e ideias feitas já podem ser deitados para o caixote do lixo tóxico e ficar definitivamente por lá.

É nesse contexto que surge agora o segundo álbum de originais de Joana Espadinha, cantora que muitos terão ouvido pela primeira vez na edição deste ano do Festival da Canção, numa colaboração felicíssima entre a artista tradicionalmente de jazz e o cantor e produtor Benjamim. A parceria entre o engenheiro de som Luís Nunes que já foi Walter Benjamim, aquando da sua passagem por Londres, onde estudou, deu origem à sonoridade que Joana Espadinha procurava para fazer a sua transição do jazz para a pop. Assim nasceu “O Material Tem Sempre Razão”, editado a 28 de Setembro sob a chancela da Valentim de Carvalho, resultado de 2 anos de trabalho, mais coisa menos coisa, em que Joana Espadinha escreveu todas as letras contidas neste álbum e resolveu depois contactar Benjamim para a produção.

O resultado é um inspirado álbum de canções altamente dançáveis e cantáveis, muito ao jeito das melhores sonoridades dos anos 80, submergido na pop leve desses tempos mas não esvaziado de sentido ou vazio de intenções. Não podemos esquecer que Joana Espadinha já escreve letras para si e outros cantores há muito tempo e isso é notório na maturidade do material incluído neste trabalho que representa a apresentação oficial da cantautora ao mundo, em jeito de imponente aventura indie pop em português. Se o objectivo era alcançar as tais canções que ficam no ouvido, como foi assumido por Joana, essa meta foi atingida em quase todas as faixas do álbum mas se tivermos de eleger as mais emblemáticas, «Leva-me a Dançar», «Pensa Bem» e «O Material Tem Sempre Razão» são as mais representativas desse espírito.

O “Material Tem Sempre Razão” é um portento de produção repleto da imagem de marca que Benjamim imprime na sua música mas também um manifesto light sobre a vida e o optimismo, como atesta o tema «Vai Ser Melhor», em que Joana Espadinha canta sem mágoas, recomendando “não chores mais/vai ser melhor/quando quiseres acordar/vai ser melhor”. Podemos interpretar este trabalho como apenas mais um álbum pop mas é preciso estar atento às mensagens, é preciso ouvir para lá da primeira camada, e, acima de tudo, dar-lhe o crédito merecido. É preciso encarar o sucessor de “Avesso” como um caso sério mas que não lhe confiramos tanta seriedade que lhe retiremos a joie de vivre, é que este álbum respira e vive, apesar de ter muita coisa para dizer.

Se a passagem da parceria de Joana Espadinha e Benjamim pelo Festival da Canção não está relacionada com o trabalho que já se encontravam a desenvolver para o LP a lançar, acaba por ser um bom cartão de visita, já que o espírito e a sonoridade são muito próximos da criatividade deste conjunto de 11 temas. Por um lado, é o resultado da boa relação de trabalho e amizade entre os dois artistas e que aproveita a renovação incrível por que o Festival passou, resultando numa montra nacional com exposição internacional daquilo de que melhor se faz na nova e excelente música portuguesa; por outro lado, é também um teste de aceitação e divulgação que marca a passagem da cantora para lá da fronteira do jazz, que assumidamente queria ultrapassar.

As comparações com outras sonoridades surgem quase à primeira audição, sobretudo com Lena D’Água, mas Joana Espadinha é artista em nome próprio que inevitavelmente tem  influências musicais que acaba por verter para o seu trabalho. Se essas comparações podem ser rechaçadas, podem igualmente ser extremamente bem-vindas, afinal não é todos os dias que se tem o privilégio de fazer lembrar uma das mais influentes cantoras e autoras da nossa música. Além disso, Joana Espadinha não esconde as suas influências, fala abertamente sobre elas e é esse espírito de abertura que norteia esta viragem na carreira da autora, intencional, desejada, pensada e trabalhada. Basta passar os olhos pela estética que rodeia a sonoridade do novo álbum, trata-se de um contexto cheio de intenção em que se chama, por exemplo, a fotógrafa e realizadora esteta Joana Linda para trabalhar o video clip de «Pensa Bem» ou em que o visual adoptado é intencionalmente retro, as cores são garridas, os cenários são os da feira popular, há lantejoulas, há fatos com chumaços.

“O Material Tem Sempre Razão” é o resultado inteligente do casamento entre a criatividade e o planeamento e em que nada soa a falso porque é precisamente o ponto onde se tinha pensado chegar. É também o casamento perfeito entre dois nomes da música portuguesa que são tanto certezas como promessas, gente que não quer parar de experimentar e fazer coisas novas porque, como declara Joana Espadinha na última faixa do álbum, «Por um Fio», “não se morre aqui/só um fio te resta/do novelo que envolve o teu peito”. Ao segundo trabalho de originais, Joana Espadinha fez exactamente aquilo que tinha em mente mas também o que trazia no instinto, aliando de modo perfeito intenção e coração. Se a seguir tiver vontade de fazer um disco diametralmente oposto a este ou noutra direcção completamente diferente desta, estamos certos de que isso irá acontecer e será no tempo certo. Passeando em aparência de modo leve pelo som e estética da pop dos anos 80, trouxe-nos um álbum coeso e sincero, directo ao ouvido, cheio de boas referências musicais, vivo, flexível e que nos fala sem barreiras das coisas do coração e da vida com os olhos postos nas pistas de dança e num futuro que é feito de vários agoras eivados de optimismo contagiante. Escusado será dizer que está colado aos ouvidos desde o seu lançamento!



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