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Joris Ivens

Retrospectiva no DocLisboa 2010.

Joris Ivens (1898-1989) começou muito novo a fazer filmes com a ajuda da família. Neto de fotógrafo, estudou o ofício para ficar encarregue da loja de fotografia do pai.

Em 1927, fundou uma sociedade, a “Filmliga”, com o objectivo fundamental de poder ver filmes que não passavam nas salas. Esta não só lhe fomentou grande inspiração como também fez com que grandes realizadores se deslocassem a Amsterdão. A partir daí o percurso de Ivens foi pautado por colaborações e apoios de grandes nomes na produção dos seus filmes. Convém enunciar que Ivens manteve as influências adquiridas aquando da Filmliga, continuou a fazer obras com características experimentais e nunca deixou de explorar os avanços tecnológicos inerentes ao cinema.

Filmou em cinco continentes e viajou pelo século XX, comprometido politicamente “ao serviço da Liberdade” (palavras de Marceline Loridan) e como tal deparou-se com contrariedades, muitas das quais por causa da sua posição anti-capitalista.

O primeiro filme a ser exibido no DocLisboa foi “Une Histoire de Vent” (1988), o qual sinaliza a sua despedida do cinema. Integralmente díspar de toda a sua obra documental, uma vez que se apresenta como auto-referencial e se revela ficcionado. Deveras singular em tal filme é o facto de ser composto por uma significativa parte onírica. A realização de Marceline Loridan pesou mais neste filme do que nos outros que este casal trabalhou em conjunto. Segundo ela, a ideia surgiu-lhe quando observava o marido aflito com asma, doença de que padecia desde novo e que o terá levado a valorizar mais o vento. Quando a saúde de Ivens forçou-o a ausentar-se, Loridan teve de dar continuidade ao filme. Ainda assim, Ivens teve fôlego para o acabar e ainda o viu em sala.

Com o intento de filmar o invisível, Ivens fizera um filme sobre o vento. O documentário “Pour le Mistral” (1965) parte das rajadas do sul de França até à abstracção do vento. O preto e branco dá lugar à cor e passa para o formato CinemaScope (o que obriga ao seu visionamento no cinema). Em paralelo com a maior parte das imagens, o narrador poético (com poesia de Jacques Prévert) e a música tanto pesam sobre o carácter efémero e etéreo como atribuem um lirismo que eleva as imagens. A presença de um narrador é transversal na obra de Ivens e há uma imponência semelhante quando Prévert ou Chris Marker envigoram os filmes de Ivens.

Se a representação do vento é feita onde se gera, onde se manifesta, o que proporciona; enquanto metáfora, o vento em “Une Histoire de Vent” é mais plural do que no filme anterior (uma míriade do caraças): uma entidade transformativa pessoal, temporal, política, até Ivens aceitar, no final da sua vida, a sua mitificação, de acordo com a cultura ancestral chinesa. Mais do que a imagem, a música – de instrumentos de sopro -, situa temporalmente o filme nos anos 80.

Foram mostrados cinco dos doze episódios de “Comment Yukong déplaça les Montagnes” (1976), uma série filmada ao longo dos dezoito meses de viagem da Loridan e Ivens pela China. O casal deparou-se com comunidades e depoimentos que espelham a integração ideológica social das populações locais em pontos afastados da China durante os últimos anos da Revolução Cultural.

Num liceu em Pequim, “Histoire d’un Ballon” trata de um episódio que envolve um miúdo rebelde de uma turma, uma professora e uma bola que é recontado e analisado numa sala de aulas por alunos e professoras. E é o diálogo sobre problemas que se assiste na “Pharmacie nº3 de Xangai”, que tem alguns planos exteriores para melhor enquadramento, passa-se essencialmente dentro desta, embora saibamos o que se passa noutras casas de comércio das redondezas.

De todos, “Le Village de Pêcheurs” é o que mais estimula os cinco sentidos, em especial o tacto: da textura áspera dos cabelos compridos das pescadoras a serem prendidos até às algas gigantes onduladas e escorregadias, os planos demoram-se. Isola um momento exclusivamente dedicado ao dialecto enquanto que nos demais capítulos a voz da tradução se sobrepõe demasiado às vozes das pessoas. A intimidade de Marceline e Joris com a comunidade é posta ao sol. Para além da evolução social de haver um grupo de pescadoras e um diálogo sobre a política do aborto, sente-se menos a imposição ideológica.

Na primeira parte de “Une Femme, une Famille” também se sente descontracção, quando uma família, principalmente as mulheres da casa, falam sobre algumas tradições chinesas enquanto cozinham e comem – a propósito, e dito pela Loridan, há muitas mulheres na obra de Ivens. Momentos depois, passa-se para uma fábrica e há toda uma explicação dos processos de funcionamento do local a vários níveis, desde as escolas para os filhos dos operários até aos inteligentes processos de reciclagem.

Depois terem contribuído com uma das curtas que compõem “Loin du Vietnam” (1967), em “Le 17ème  Parallèle” (1968) a dupla filmou ao longo de dois meses um dos locais mas bombardeados durante a guerra, no distrito Vinh Linh a norte da linha de demarcação entre os dois Vietnames denominada paralelo 17. Aí captaram as diversas formas de resistência que a população local encontrou para se defender dos ataques norte-americanos. Foi apropriado este ter sido o primeiro filme de Ivens com som sincronizado. A voz da Marceline acrescenta um certo ar naïf à película acastanhada, conquanto ela sobreviveu bem a Auschwitz e o que filme que lá fez é outro que estala os preconceitos de tais calamidades e junta-se aos muitos que Ivens e/ou Loridan fizeram para tornar eventos históricos mais tangíveis.

Isabel Salvado e André Santos

“Demain à Nanguilla” (1960) foi o único filme de Ivens em África, feito após a independência do Mali. Através de um jovem, Sidibe, é a estória da reconstrução de um país após anos de colonialismo. O dia-a-dia das populações, felizes nos seus meios simples de organização social onde toda a aldeia participa nas tarefas diárias e onde todos são necessários ao funcionamento da comunidade. O principal evento é a construção de um novo sistema moderno de irrigação no qual toda a aldeia terá que participar.

Ivens filma as populações, o meio rural, a gente remota, os rios, o vento. Em “Song of the Rivers” há imagens impressionantes dos trabalhadores que pela primeira vez, em 1954, se unem para reivindicar os seus direitos numa marcha global, unidos pelos principais rios mundiais que são o ponto de partida desta epopeia. Ivens recebeu o Prémio Internacional da Paz por este filme.

Em “The 400 Million” filma a invasão da província chinesa da Manchúria pelos Japoneses, em 1938, começando por filmar os bombardeamentos e as cidades destruídas, fazendo um balanço do avanço da coluna militar Japonesa sem nunca acusar directamente as elites mundiais de não prestarem atenção a esta guerra. Mas o ponto fulcral deste precioso documentário é a forma como Ivens nos dá a conhecer a cultura Chinesa, um país imenso feito de ligeiros contrastes e de raízes ancestrais.

“Spanish Earth” (1937), uma das esgotadíssimas sessões, relata os acontecimentos da guerra civil Espanhola e o impacto nas cidades e nas populações. Os tanques de guerra, as colunas militares, os refugiados, a defesa da cidade de Madrid, a resistência ao poder Franquista pelas forças Republicanas e o intenso fogo cerrado e os tiros de metralhadora que ensurdecem a preciosa fotografia. É o primeiro filme de guerra de Ivens, e contém imagens verdadeiramente arrebatadoras, narradas por Ernest Hemingway.

Embora ávido defensor do ideal Comunista, não há em toda a obra de Joris Ivens uma preocupação em propagandear a militância política, mas sim uma preocupação com as populações, com o meio rural, com a forma como as pessoas vivem neste mundo supostamente moderno, os contrastes entre os trabalhadores rurais e urbanos. Ivens filma o que está a acontecer e estabelece três pontos em comum, o assunto a ser filmado pelo realizador que é visto pelo espectador, o triângulo. Uma relação honesta e verdadeira.

Esta foi uma oportunidade única de assistir não só a grande parte da obra de um dos maiores vultos do cinema da história do cinema, como de poder conversar com a sua mulher e co-autora de muitos filmes, Marceline Loridan-Ivens, que esteve presente em muitas sessões e nos agraciou com uma masterclass.

João Luis Amorim



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