rdb_artigo_karllagerfeld1

Karl Lagerfeld

Vida e história de um dos maiores ícones vivos do mundo da moda internacional. “Normal people think I’m insane.”

Karl Otto Lagerfeldt, conhecido por todos como Karl Lagerfeld, nome escolhido pelo próprio por ser mais comercial, é um dos ícones dos nossos tempos e um dos homens mais influentes no mundo da moda. Nasceu em 1939 (ou 1933 – o seu ano de nascimento real é um dos muitos mistérios da sua vida) em Hamburgo, na Alemanha.

No inicio dos anos 50 regressou à sua cidade de origem na qual assistiu aos primeiros desfiles de moda da sua vida, de Christian Dior e Jacques Fath. Adorou as roupas, as luzes, o ambiente, o glamour, e principalmente o estilo de vida reflectido, percebendo que existia hipótese de fazer desaparecer da sua mente a ideia que o atormentava: a ideia de ter nascido demasiado tarde para ter uma vida fabulosa como alguns tinham antes da guerra, como por exemplo, desfrutar dos requintes do Expresso do Oriente. Para recriar a vida que acabava de descobrir contribuiu o facto da sua família ter decidido mudar para Paris no pós-guerra com a consciência de que a Alemanha era um pais morto de oportunidades.

Dois anos depois de viver em Paris, Lagerfeld ganhou uma competição organizada pela International Woll Secretariat na categoria de casaco com um longo casaco de colarinho alto e com um decote em “V” nas costas. No mesmo concurso Yves Saint Laurent, na altura com 17 anos, ganhou na categoria de vestido de cocktail e aqui iniciaram uma grande amizade.

Imediatamente Lagerfeld foi contratado como assistente júnior de Pierre Balmain começando a sua carreira a desenhar esboços de bordados, flores, silhuetas, para fabricantes e compradores pois naquela época não existiam fotocopiadoras. Seis meses mais tarde era aprendiz de Balmain, aprendendo os métodos de fazer vestidos dos anos 20 e 30, até que decidiu sair após três anos com a consciência que não tinha nascido para ser assistente.

Foi então para a casa Patou como director de arte, mas três anos mais tarde, Lagerfeld achava a alta costura demasiado burguesa e convencional e com pouca abertura para a criatividade decidindo abandonar, não só a casa Patou, como também, a alta costura, algo impensável para um designer de moda da época pois o pronto-a-vestir, ao qual se dedicou nos anos seguintes, era desdenhado pela indústria. Lagerfeld pelo contrário achava que ali estavam na altura as inovações e auto empregou-se como designer freelancer em pronto-a-vestir. Rapidamente Lagerfeld estava a produzir colecções simultaneamente para empresas Francesas, Italianas, Inglesas, Alemãs, incluindo Chloé, Krizia, Ballantyne, Cadette, Charles Jourdan, e Mario Valentino até que adicionou à sua lista de clientes a italiana Fendi em 1967.

Lagerfeld tornou-se para os designers o rigor do “fazer”, assombrando mercados e percorrendo lojas em busca de vestidos vintage que desmantelava para aprender todos os segredos da sua construção e design. Estudou livros de Madeleine Vioneet e outros pioneiros da moda do final do século XIX e início do século XX e ia transferindo todo o conhecimento apreendido para o seu trabalho, conseguindo assim conjugar referências históricas com tendências contemporâneas de uma forma única e extraordinária.

Durante os anos 70 produziu também os guarda-roupa de produções teatrais chegando a desenhar para teatros como La Scala em Milão, o Burgtheater em Vienna, e para o Salzburg Festival.

No início dos anos 80 era um dos mais respeitados designers de sucesso, apesar de fora da indústria da moda o seu nome não ser muito conhecido, porque ao contrário da maior parte dos seus contemporâneos como Pierre Cardin ou Yves Saint Laurent, Lagerfeld não tinha a sua própria marca. Ele não queria construir o seu império e assim ia resistindo à ideia de construir a sua própria marca de moda, afirmando que queria liberdade, não queria ser um homem de negócios, não queria fazer reuniões, nem marketing queria apenas criar: “I just work like this. I have the feeling ­ it may be fake ­ of total freedom. This is my highest luxury.”

Em 1983 (há referências que remontam a 1982), Alain Wertheimer, o presidente da Chanel contactou Lagerfeld para reinventar a marca que estava muribunda desde a morte de Coco Chanel, não passando de uma marca de perfumes com algumas lojas de roupa. Lagerfeld aceitou o desafio. Era um desafio para qualquer designer e para si em particular porque tinha oportunidade de voltar a trabalhar a alta costura que se tinha modificado passados 20 anos afastado, e já não era o lugar seguro onde se ditavam as regras de forma pretensiosa e elitista, agora tinha de ser inspirada na rua, nos outros designers, no pronto-a-vestir, logo a alta moda tinha de ser a moda do momento, muito mais desafiante e adequada a Lagerfeld.

Revitalizou a Chanel reconhecendo a história da marca mas tratando-a com irreverência, “Respeito não é criatividade” afirmou para Wertheimer e referido num artigo da Vogue. A Chanel tornou-se numa das mais rentáveis marcas de luxo do mundo, com lucros estimados nos 4 biliões de dólares ao ano. O desafio Chanel trouxe Lagerfeld para a ribalta sem ponto de regresso e nem ele nem a marca tiveram mais perto de passar indiferentes. Inspirou semelhantes makeovers noutras marcas que perceberam poder usar o nome de uma pessoa morta, com jovens talentos e revitalizar o prestígio adquirido pela marca no passado, tais como Gucci (que contratou Tom Ford), Dior (John Galliano), Louis Vuitton (Marc Jacobs), Lanvin (Albert Elbaz), Balenciaga (Nicolas Ghesquiére), e Burberry (Christopher Bailey). Recentemente Lagerfeld voltou a abrir as portas de um novo caminho quando aceitou fazer uma colaboração com a marca H&M em 2004, permitindo assim que Stella Marctney e outros designers fossem tocar a seguir no mercado mais baixo de forma já confortável e segura.

Hoje em dia Lagerfeld continua a desenhar para a Chanel e para a Fendi além de ter também a sua própria marca, para as quais cria cerca de 12, ou mais, colecções por ano incluindo alta costura, pronto-a-vestir e acessórios que vão desde perfumes, óculos de sol, a capacetes, como uma das suas últimas criações que tem o pormenor particular de ter um pequeno bolso para um i-pod, revelando o seu gosto pessoal pelo objecto que faz parte constante da sua vida tendo mais de uma centena espalhados pelas várias divisões das suas casas e carros.

Há quem diga que a eterna insatisfação e a ansiedade de viver no presente de Karl Lagerfeld é que o tornam tão especial e as suas criações tão únicas e inovadoras. Não deprezando a história que o fez aprender o que hoje sabe e muitas vezes o inspira, afirma não viver agarrado ao passado. Na sua opinião um designer é suposto fazer, criar e não relembrar o que fez e diz que o caixote de lixo é a peça mais valiosa na sua casa porque deita tudo fora, não mantém arquivos, não guarda esboços, fotografias ou roupa.

A sua devoção em manter-se no presente, em estar o mais possível actualizado sobre tendências aumenta a sua confiança e estimulam a sua capacidade criativa. Ele interessa-se por tudo, não só informação relacionada com moda, mas com música, literatura, política, cinema, arte, arquitectura, publicidade, mitologia. A sua rotina passa por ir frequentemente à Colette e comprar tudo o que é novidade, revistas, livros, CD’s… Apreciando tanto cultura alternativa como a cultura já estabelecida. Parece ter uma vontade imparável de descobrir tudo o que há para saber, numa curiosidade insaciável que o mantém permanentemente atento, criativo e sobretudo vivo.

Algumas particularidades revelam que, apesar de tudo, Lagerfeld tem uma parte conservadora como o facto de não conduzir, não usar telemóvel, comunicar com o mundo exterior através de fax, não fumar, nem tomar drogas, tem devoção pelos séculos XVII, XVIII e XIX e é um grande coleccionador de Arte Deco.

Karl Lagerfeld é uma das pessoas vivas mais realizadas profissionalmente do mundo. Trabalha para três prestigiantes marcas de moda, incluindo a sua própria, tem uma extensa carreira de fotógrafo (faz os press kits e catálogos das colecções da Chanel, e expõe ocasionalmente em galerias), tem uma editora e uma livraria em Paris ambas com o nome 7L, um museu particular de colecções de mobiliário, faz a gestão de 6 casas e mantem-se magro (ele emagreceu em tempos 43 kilos em apenas 13 meses afirmando na altura ter como ambição única na vida vestir o 28 de calças de ganga).

O rei do mundo da moda, ou o eterno princípe como talvez Lagerfeld preferisse ser tratado para que parecesse mais jovem, tem-se dedicado ao trabalho toda a sua vida fazendo da sua longa carreira a sua própria vida, da moda a sua vida. Está presente há demasiado tempo no mundo da moda, já evoluiu esta arte demasiado para que algum dia seja esquecido. Faz o seu trabalho como respira por isso só quando deixar de respirar vai certamente parar de o fazer. Até lá vamos assistindo e aplaudindo as criações e a vida de Karl Lagerfeld sentindo-nos previligiados por partilhar uma parte do tempo da sua existência.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This