Laura Veirs|”The Lookout”

Laura Veirs|”The Lookout”

Laura Veirs faz tudo parecer fácil de acontecer, como se de repente a Primavera pudesse ser doce mas no fundo fosse tão realista e dura como as estações do ano mais frias.

Ao seu décimo álbum, “The Lookout”, a cantora é agora uma mulher feita com dois filhos e, por muito que este facto pareça vulgar, transformou bastante a sonoridade, como a própria admite. O mais recente trabalho, produzido pelo seu companheiro e produtor Tucker Martine, à semelhança dos álbuns anteriores, segue a linha folk e country que a cantora sempre acarinhou mas mostra-nos um outro lado, mais maduro, que trouxe para as músicas maior dimensionalidade e riqueza. Mantendo o espírito um pouco ingénuo e marcadamente americano, sobretudo nos temas e referências culturais mas também nos instrumentos utilizados (como a slide guitar), Laura Veirs atingiu a maturidade ou, se quiserem, a maioridade. Sem perder a naturalidade ou a visão aguçada e perspicaz que a caracterizam, Veirs juntou a tudo o que tinha de bom maior complexidade sonora, trouxe mais intrumentos, criou um corpo musical muito mais diversificado e acabou mesmo por se colocar em segundo plano como cantora, dado que muitas vezes a sua voz não é a protagonista das músicas. Se antes esse protagonismo era inevitável, uma vez que a maior parte das composições eram simples canções de guitarra e voz, apesar de alguns elementos mais electrónicos serem aqui e ali introduzidos, agora propositadamente Laura Veirs se coloca noutro plano para construir música que ainda não tinha feito. Nesse sentido, é um álbum refrescante e apesar de nem sempre os temas o serem em termos líricos, é certo que sonoramente estamos perante a mesma Laura sonhadora e real muitas vezes quase ao mesmo tempo e isso poucos cantores conseguem carregar consigo sem que isso passe para quem ouve como sendo um fardo ou uma cruz. E Veirs até se queixa do facto de ter uma vida familiar exigente e de ter de conciliar isso com a carreira musical mas fá-lo daquela maneira tão sua, tão doce, tão simples que apenas se pensa tratar da constatação de um facto alheio – e não o é, já que a própria cantora também já o admitiu.

Por outro lado, sente-se que, apesar de muitos dos elementos que faziam parte dos trabalhos anteriores ainda aqui estarem, Laura Veirs mudou musicalmente e pessoalmente, sente-se uma nova voz, mais madura, mais adulta, quase parece ter desaparecido aquele timbre infantil e inocente e há a assumpção evidente de querer crescer noutras direcções, mesmo sem perder a identidade de raíz. Surge na capa de “The Lookout” com as suas vestes de cantora country, a preto e branco, olhos nos olhos de quem conseguir aguentar o despojamento daquele olhar, directo, sem filtros, sem óculos mas simultaneamente parece querer representar uma América fictícia, tradicional, rígida, fixa, que não se coaduna nem com a honestidade do olhar nem com a honestidade da música que está dentro do álbum. Veirs faz, pois, vigias com Sufjan Stevens, mantendo o fogo aceso caso o lobo apareça novamente, num belíssimo dueto, “Watch Fire”, mas poderá este ser um lobo figurativo e aquela fogueira a dos corações e olhos abertos para outros perigos, não vá o diabo tecê-las. Este receio ou frustração face a uma sociedade subreptícia, perigosa, sem expressão, torna-se mais evidente na faixa que dá título ao álbum e que é uma homenagem ao marido e produtor da cantora, quando Veirs irrompe com as primeiras palavras I can’t read these people/I can’t read their eyes mas encontra depois conforto no homem que faz música com as porcarias velhas que vai encontrando.

O consolo passa igualmente pela natureza, essa paz perpassa por muitas das faixas, ora de um modo comtemplativo e feliz, como na lindíssima balada «The Meadow», ora com a perfeita noção da fugacidade da existência, embora a felicidade em aproveitar o momento presente seja a mesma, como sucede em «The Canyon» quando Veirs canta “I’m here now but my time will come/To be blowing through the canyon”. Sentimentos como estes de brevidade da existência ou da desorientação num mundo que tende a ser agressivo são comuns nas letras de “The Lookout” pese embora tudo isso possa passar despercebido à primeira vista porque a sonoridade do álbum é etérea e delicada, não fazendo alarde de que, na realidade, o seu caminho é tortuoso e em busca de luz e guias, tanto na pessoa do marido da cantora como na procura de guias externos, como na faixa «When it Grows Dark» e Veirs lança esperança na estrela Polar quando a vida parece difundir apenas negritude. Nesta faixa, as belíssimas cordas que acompanham grande parte do álbum, adquirem tonalidades arabescas, desérticas, exóticas, provavelmente o momento mais inesperado no que toca a experimentalismo em “The Lookout”.

Este que em aparência é apenas um discreto trabalho de Laura Veirs, representa, na realidade, uma enorme mudança, quer de sonoridade quer de temas. Percorrendo com a cantora as suas ansiedades e medos mas não perdendo de vista a esperança de que tudo possa ser diferente, termina precisamente com a nota positiva de «Zozobra», parecendo querer dizer que apesar das inquietações em última instância esta é a posição em que é preciso que a humanidade esteja, deixando para trás as suas agruras, limpando o ar e olhando em frente. O décimo álbum de Veirs é, possivelmente, o mais arrojado, mais experimentalista, maduro, questionador, deixando a zona de conforto da cantora e adentrando por um mar de belíssimos arranjos de cordas e em que a sua voz se deixa acariciar pela música, pairar juntamente com a brisa mas dizer aquilo que tem a dizer com a mesma veemência de uma tempestade de electricidade e ira, num contínuo misto entre poder e delicadeza que poucos cantores contêm dentro de si.



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