LM#2_Linda Martini_Fotografia de Ângelo Lourenço

Linda Martini @ Hard Club Porto (23.02.2018)

“É só uma canção não serve de oração”. A canção da Linda Martini pode não ser oração, mas continuamos a segui-la religiosamente.

Comecemos por voltar no tempo quase um ano atrás, à noite de 3 de Março. As semelhanças com a sexta-feira passada? Ambas as noites com um frio de Inverno bem agreste e um Hard Club esgotado que esperava ansioso que 4 putos de Queluz fizessem a viagem ao norte com um disco novo na bagageira. Em 2017 mostraram-nos como joga à Sirumba. Agora voltaram para apresentar a Linda Martini. A verdadeira Linda Martini. E depois de terem duas datas no Lux esgotadas, foi a vez de os portuenses mostrarem que não é só sul que a banda é bem acarinhada e atenderam em força. É bem provável que grande parte das pessoas dali estivessem estado também no concerto anterior no ano passado, repetindo assim a dose. Não exactamente repetir, porque há 9 músicas acabadas de editar.

Entrada na sala a enorme fila que se formava à porta da sala, onde toda a gente teve direito ao CD onde figurava essa rapariga italiana com quem Pedro Geraldes se cruzou durante Erasmus e que gentilmente cedeu o seu nome à banda, desvanecem as luzes, corta-se a música e logo depois algo que nos é novo: se já antes a entrada da banda se deu com um riff de guitarra ou linha de baixo pré-gravada, um arpejo de sintetizadores é algo que não estamos habituados. Reconhecemos este loop de «Semi Tédio dos Prazeres», canção que abre o concerto e que faz notar de imediato o carinho que o público teve, já que em menos de duas semanas já teve tempo de decorar as palavras de André Henriques. Tanto nesta como nas demais canções se mostrou o cuidado que muitos tiveram em estudar a lição e ajudar nos gritos puxados do fundo da garganta: “Lázaro diz que já foi feliz mas acordou”.

Vemos nos novos temas um grupo que consegue domar o seu som e como seguir novos caminhos sem deixar a soar a si mesmo. No segundo single, «Boca de Sal», com uma duração invulgar de single de 6 minutos, fizeram um refrão que cantado liberta mais raiva do que 1 hora num saco de boxe fazendo com que aquele “Boca de Sal, eu sei que mereço” encha de facto a boca quando se o diz. Que bem que sabe. Refrão esse que acaba por seguir para uma segunda parte feita por alguém que só faz uma mudança daquelas na direcção da música por não ter medo de arriscar. A voz é mais usada e ainda bem porque nota-se em André um crescente conforto nela e em alternar facilmente entre os pregões entoados frequentemente com a ajuda da sala e a voz mais delicada, voz que nos consegue conquistar sempre bem, especialmente porque diz sempre as palavras certas. Canta que “É só uma canção não serve de oração”. A canção da Linda Martini pode não ser oração, mas continuamos a segui-la religiosamente.

Continuam a apresentar esta senhora, sem nunca esquecer o que ela foi no passado, passando por todos os discos sem esquecer nenhum. Até os EP’s, que às vezes podem ficar um pouco esquecidos no fundo do baú, foram ali celebrados com «Lição de Vôo Nº1» e «As Putas Dançam Slows». «Panteão» mostrou-nos a mesma força que já tínhamos visto, de uma multidão a cantar em simultâneo aquelas palavras que estão bem guardadas debaixo da língua.

“A próxima chama-se «Gravidade». Sabem o refrão desta, não sabem? Então ajudem-nos lá” dirige-se Cláudia ao público. Como se quisessem demonstrar gratidão pelo facto da banda estar a dar tudo o que tem, também o público se compromete a tal pelo que entra também em rebuliço. O riff acelerado ajuda aos saltos e o refrão só se repete uma vez, mas é suficiente para arranhar as gargantas. Do deserto da segunda parte da «Gravidade», chegamos a «Se Me Agiganto», tema que fecha o disco. Com um tempo lento e um sentimento nostálgico, tal como nos tem habituado a banda nas músicas de fecho de álbum, a banda deixa a sala com o feedback da guitarra ainda a pairar no ar. Vai haver mais.

E por saber mais que, gradualmente e puxando cada vez mais gente, começa-se a ouvir na sala “Foder é perto de te amar, se eu não ficar perto. (Perto!)” Apesar de ser algo que já vai sendo habitual, a banda não deixa de estar emocionada com aquilo que vê. Pudera.

Hora de cantar os parabéns. Os fãs atentos sabiam que era o dia de anos de Hélio e começam a cantar em coro. A banda lembra que já ali tinham festejado um aniversário deles num Hard Club esgotado, pelo que já só falta metade da banda fazê-lo. Os «Putos Bons» de Queluz não se cansam e muito menos o público. Para o fecho do concerto, habitual como toque de sineta que toca para o fim das aulas, essa canção que já vem de 2010, do Casa Ocupada: «Cem Metros Sereia». Ficamos assim deliciados de conhecer a Linda Martini, com a esperança de que daqui a ano nos voltemos a encontrar num Hard Club esgotado.



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