Locke – Steven Knight

“Locke”

Uma representação dicotómica entre o controlo e o caos

O semáforo já está verde, mas o BMW não arranca. Três buzinadelas depois, a dúvida, há segundos tão evidente, desapareceu. Virar à esquerda era a única opção válida para um homem de valores e princípios, e isso bastou para que Ivan Locke a tomasse com uma determinação irredutível.

Este pode ser o primeiro passo de Tom Hardy para se desassociar de uma figura dependente de braços largos e de punhos cerrados. Na pele do vilão Bane (The Dark Knight Rises), e de Bronson, o ator deixou bem claro que as suas personagens podem ter tanta densidade narrativa quanto muscular. E, apesar de Ivan Locke não ser de todo o melhor que já vimos de Hardy, a sua presença num filme catalisado pela consciência do protagonista pode resultar num abrir de novas perspetivas e opções na carreira do ator.

Locke é obcecado pelo controlo. Típico homem de família, com dois filhos, uma relação estável e dono de um cargo relevante numa fábrica de betão. Um meio repleto de organização, ponderação e responsabilidade, mas que, numa noite muito atípica, acaba por ceder a uma garrafa de vinho e aos encantos de uma desconhecida. Uma combinação que resulta num bebé que está prestes a nascer na mesma noite em que a mulher e os filhos o esperam em casa para um jogo de futebol. Mas outro problema, para Locke não menos grave que a questão familiar, é o trabalho. Nessa madrugada o chefe conta com a sua presença para monitorizar um processo de transição de betão onde estão em jogo 11 milhões de libras.

Voltemos ao semáforo: esquerda ou direita? – Ir para casa, ver o jogo, e no dia seguinte voltar ao trabalho, ou avançar, rumo ao hospital onde decorrerá o parto do seu filho bastardo, e colocar todo o resto em causa?

A hesitação inicial perante a luz verde já se percebe, falta apenas desvendar a razão por trás da escolha, o que nos leva a outra vertente da personalidade de Locke que é, aliás, aquilo que lhe permite lidar com esta situação que compromete uma vida inteira medida com régua e esquadro. Independentemente do caos que a sua opção desencadeia, Locke assume as suas responsabilidades e confia na sua organização e método para que nenhum dos três setores da sua vida fique penalizado. É por isso que esta viagem, de aproximadamente 85 minutos, se revela uma epopeia onde o protagonista tenta o impossível – preparar uma família para um acontecimento devastador; assegurar que Bethan (Olivia Colman), uma pessoa que mal conhece e que se revela psicologicamente instável, se acalme para não comprometer o parto; e explicar a Donan, um colega pouco confiável, todo o processo que terá de desempenhar, no seu lugar, na seguinte madrugada – tudo através de sucessivos telefonemas em pleno trânsito.

É interessante a forma como o realizador (Steven Knight) constrói um cenário de despique entre a crise e controlo num espaço tão restrito como o interior de um carro. Tom Hardy parece estar, efetivamente, a remar contra a maré. No entanto, não deixa de ser difícil afastar a ideia de que tudo se passa num curto espaço de tempo, e nem sempre o contacto com as personagens secundárias, principalmente com mulher e com a amante, é credível. Há demasiadas reações de elevada carga emotiva e, ao mesmo tempo, momentos de redundância que, dadas as circunstâncias caóticas, surgem um tanto desadequadas. O pico de tensão que o início do filme remata acaba por estagnar com o decorrer da ação, e certas situações podem tornar-se aborrecidas.

A banda sonora prima pela sua neutralidade, abrindo espaço para que sejam os diálogos a complementar a ambiência, sempre bem controlada em termos técnicos e narrativos. O que é um paradoxo peculiar.

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