Low | “The Invisible Way”

Low | “The Invisible Way”

Canções malditas rumo ao futuro

Ao longo de duas décadas os Low construíram uma personalidade ímpar ajudando a afirmar um género musical onde a melancolia, a tristeza, o silêncio e a cadência minimal sussurrada traçaram o perfil do movimento slowcore, – termo não muito do agrado dos membros da banda quando a sua música é referida – que tinha nos Codeine, Red House Painters e, mais tarde, Spain alguns dos mais fiéis seguidores.

A cada novo álbum o trio de Duluth, Minnesota, Estados Unidos, composto por Alan Sparhawk (voz e guitarras), Mimi Parker (voz e bateria) e Steve Garrington (baixo) aumentava o pecúlio de fãs e seguidores oferecendo ao mundo uma música litúrgica, mística, e por vezes quase religiosa. A solenidade e a frieza acompanhavam esta homilia sonora e canções como «Lullaby», «Down» ou a versão de «Transmission» dos Joy Division eram verdadeiros tour de force auditivos.

Um dos grandes trunfos dos Low é a complementaridade e harmonia entre as vozes do casal Alan e Mimi que resultam de uma profanação folk que deu origem a um reino sacrossanto fundado na ausência de muitos floridos musicais que tende para o espartano. As maiores agitações a este enclave de quietude surgiram em algumas edições levadas a cabo no século XXI que abraçaram um ambiente mais rock. Alguns desses desvios sonoros são, por exemplo, “The Great Destroyer” (2005) e “C’Mon” (2010).

Hoje, passados quase vinte anos depois da edição de “I Could Live in Hope”, um dos discos mais importantes do panorama indie da década de 1990, os Low lançam “The Invisible Way”, o quarto registo com o selo da Sub Pop, e verificamos que a criatividade e o talento continuam a ser premissas deste grupo que faz da música o seu modo de vida.

O som continua, traços gerais, a seguir os passos traçados pelos Low desde a sua génese e as quotas de emoção e dramatismo traçam tangentes entre si. As feridas abertas pela sonoridade dos criadores de “Things We Lost in Fire” cauterizam por si e as novas canções do trio têm uma aparência etérea e alma visceral.

Ainda assim, “The Invisible Way” traz algumas novidades. O maior protagonismo de Mimi Parker regista-se com clareza e cinco das onze canções do disco são da sua inteira responsabilidade. Também o espírito gospel se faz sentir, influência directa das últimas aventuras sonoras de Alan fora da banda. A produção é da responsabilidade de Jeff (Wilco) Tweedy, que consegue transmitir ao décimo álbum dos Low um carácter sublime e delicado, ainda que mais encorpado, no qual ficam cristalizados elementos de excelência auditiva que resultam, em grande parte, da tensão entre melodia e conteúdo.

O disco começa com “Plastic Cup”, uma canção que assenta na continuação melódica traçada no álbum antecessor mas com alguns elementos mais clássicos nas entrelinhas como o são os sons de piano e violinos. As vozes de Alan e Mimi continuam a apoiar-se mutuamente e é difícil perceber quem “lidera”. Sobre o acto da elaboração de canções, Sparhawk disse em tempos que: “fazer música é uma das artes mais espirituais que existem. É uma linguagem divina”. E é esse poder que sentimos ao ouvir um disco dos Low.

Ao longo de “The Invisible Way” sentimos alguns tiques do trabalho de Tweedy e em alguns casos o produto final soa “sujo”, como se estivéssemos a ouvir uma demo, e resulta na plenitude. Na segunda faixa do disco, «Amethyst», ao longo de mais de cinco minutos as pinceladas do colorido instrumental salvam o carácter mais despido da canção. As guitarras, acústicas e eléctricas, e o piano omnipresente casam na perfeição com o despojamento da canção que subsiste por si, sem rede. Um dos momentos mais bonitos do disco.

Já «So Blue» percorre o caminho inverso. O piano preenche quase por completo o ambiente da canção e apenas permite à bateria, baixo e guitarra tímida pequenos apontamentos. Também aqui se entende que este é um disco em que sente a voz etérea de Mimi de forma absolutamente inequívoca. A força da emotividade que resulta do canto de Parker purifica alma e ouvidos de quem sente uma das canções mais “tristes” de “The Invisible Way”. «Holy Ghost» segue os mesmos instintos mas a linha sonora é agora mais calma e country. Ouvir Mimi cantar: “…some holy ghost keeps me hang in on / I feel the hands but I don’t see anyone” é sentir a doçura de uma voz que abraça a transcendência e faz desejar que estes três minutos não acabem nunca.

Tal como em outros trabalhos da banda, as vozes do casal Low alteram a preponderância e em «Waiting» e «Clarence White» é Alan que assume o controlo da responsabilidade vocal. Se no primeiro caso é a falta de esperança que assola todo o espírito de uma canção que volta a assentar na força do piano, agora na companhia de uns acordes eléctricos bem definidos, em «Clarence White» a bateria é acompanhada por umas palmas que remetem para ambientes mais gospel.

«Four Score» começa com uma cadência que remete para ecos de um Nick Cave perto de calmos e oníricos espasmos sorumbáticos até que a voz de Mimi nos traz de volta à dolente realidade. A bateria aproveita o silêncio vocal e marca um tempo perdido enquanto o baixo indica o caminho por entre uma sinfonia de sussurros.

«Just Make It Stop» começa com a memória espacial dos saudosos Galaxie 500 bem presente e assume-se como um dos momentos mais “acelerados” de “The Invisible Way”. A beleza registada nestes quatro minutos sugere que, mesmo que tudo falhe, podemos sempre contar com a redenção encontrada na beleza singular e intravenosa de uma voz que desafia a mortalidade. Também num registo pacificador, «Mother» dá o ónus da responsabilidade poética à voz magnética de Sparhawk que transmite uma comoção planante. O dramatismo crescente continua a fazer parte do ADN dos Low.

Perto do final do disco, e a meio da sincopada «On My Own», é trazida para cena uma guitarra alimentada pela distorção de um pedal que confere outro grau de intensidade à música do trio. Apesar de habitarmos um espaço onde é o silêncio e a moderação sonora que mais ordenam, a electricidade que agora nos assola não é vista como uma intrusão mas sim como parte de um todo eclético que leva ao clímax. O edifício musical dos Low é construído por fortes alicerces cujas fundações são uma metáfora para a longevidade. E em forma de reconhecimento ao próprio trajecto dos Low enquanto banda que comemora duas décadas, canta-se “happy birthday”. As velas apagam-se, mordem-se, e corta-se o bolo em onze fatias. Qual delas a mais doce?

A honra de finalizar o disco cabe à voz de Mimi Parker que se entrega de forma exemplar a «To Our Knees», mais uma maravilhosa canção feita de simplicidade, competência e, acima de tudo, paixão. A melancolia sente-se à medida que os acordes avançam para o silêncio do fim de “The Invisible Way”. Independentemente da hora do dia em que se ouçam as canções dos Low, é da noite que nos lembramos, é aquele momento de vigília que sentimos quando os acordes perdem a força e chegam ao fim, quando o sono chega e a tranquilidade finalmente se aproxima. Bons sonhos e até amanhã.



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