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Lullaby – A última Canção

O contrário de viver...

Algum tempo atrás uma socialite ficou famosa por uma frase lapaliciana acerca do grande fenómeno da morte.

Lullaby , reinterpreta de alguma forma essa frase.

O filme inicia com Jonathan Lowenstein (Garrett Hedlund) a fumar na casa de banho de um avião e a ser admoestado por duas hospedeiras. Nos curtos minutos que se seguem, ficamos a saber tudo o que precisamos de saber acerca de Jonathan.

Contudo apesar da óbvia manipulação junto da jovem hospedeira com o intuito de se livrar do castigo pelo seu vicio, Jonathan desculpa-se com uma afirmação sincera: O meu pai está a morrer e eu já estou no inferno.

Algumas horas antes de apanhar este avião, Jonathan havia recebido uma chamada a informa-lo do estado terminal do seu pai. Mas a inevitabilidade da morte prematura de Robert Lowenstein (Richard Jenkins) acompanha-o desde tenra idade, sendo aliás essa a principal razão da sua fuga aos 20 anos para longe da sua família, ainda que justificada com a busca de uma carreira musical.

Agora mais de uma dezena de anos passados, Jonathan descobre que o seu pai  tomou a decisão de ser desligado da máquina que sustenta o seu já muito alquebrado corpo e morrer – espera ele – pacificamente. Coisa que aparentemente apenas a sua mãe  (Anne Archer) e a equipa médica composta pelo médico , Dr. Crier (Terrence Howard) e a omnipresente e sempre irónica enfermeira Carrie ( Jennifer Hudson), parecem aceitar.

O choque da notícia, coloca Jonathan numa situação de grande ansiedade e num dos momentos em que foge para as escadas para fumar, encontra Meredith (Jessica Barden) uma adolescente com uma leucemia em fase terminal.

Meredith será de aqui em diante uma figura que o obriga a pensar e a relativizar a sua vida e as suas aspirações, mas que ao mesmo tempo, o ajuda a libertar um lado mais empático e cuidador.

Com a chegada da sua irmã Karen (Jessica Brown Findlay), um novo desafio é colocado à família já de si dividida, na forma de uma providência cautelar que pretende impedir o suicídio assistido de Robert.

Lullaby – A Última Canção, tinha tudo para ser uma visão provocadora e inspirativa acerca da doença e dos doentes,  das mazelas familiares e da sensação de impotência dos que vivem nas trincheiras do eterno conflito com a dor , uma vez que ninguém adoece sozinho e muito menos desaparece no ar sem deixar marca.

Poderia ser controverso e obrigar-nos a pensar acerca do direito de morrer e do sofrimento dos que ficam, dos deveres maiores dos curadores e do valor da alma.

Mas parece sempre irrealista e desequilibrado.

Em vários períodos do filme, existem inconsistências difíceis  de explicar ( o encontro com a ex-namorada Ellen, interpretada por Amy Adams, é perfeitamente tonto, assim como o são as cerimónias e festas que de um momento para o outro ocorrem dentro do hospital).

Existe contudo um momento em que Lullaby consegue me fazer lembrar um excelente livro de Philip Roth, chamado “Património“, em que cabe ao filho assumir o lugar de cuidador e devolver em cuidado e amor, todas as vezes em que as suas necessidades básicas foram supridas pelas mãos de seus pais.

É emocionalmente forte e mesmo enternecedor.

É pena que o resto dos momentos que compõem o filme não sejam tão genuínos,  com a excepção das cenas em que Richard Jenkins é chamado a intervir e em que o seu trabalho de actor é   absolutamente notável.

Aliás em termos de interpretações , Richard Jenkins está a um nível muito elevado em comparação com os restantes actores.

Andrew Levitas que divide com Fredda Slavin a direcção e o guião, não esconde a influência de alguns dos factos da sua vida na obra ( e faz ele muito bem), mas não consegue oferecer um produto cinematográfico ao nível do que as premissas  levariam a crer.

Sendo o resultado um bastante vulgar melodrama bem ao jeito americano, que não obstante, irá levar a muitas fungadelas nas salas de cinema mundiais, porque é um drama que nos toca a todos de uma forma ou de outra.

Afinal, a única alternativa a sofrermos a perda dos que amamos, é fazer os outros sofrer a nossa ausência. E  talvez seja essa a maior lição que Lullaby tem para nós.

Sai com um Satisfaz.



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