Mitologías, Manuel Vilariño – Carlos Carvalho Arte Contemporânea

MANUEL VILARIÑO – CARLOS CARVALHO ARTE CONTEMPORÂNEA

A fotografia em exposição

Encontra-se patente até ao próximo dia 3 de Maio na Galeria Carlos Carvalho Arte Contemporânea a obra do fotógrafo Manuel Vilariño (1952). A presente exposição – Mitologías – engloba várias fases do seu trabalho, sendo uma selecção que decorre da retrospectiva da sua obra apresentada no início do corrente ano no Museu de Arte Contemporânea Gas Natural Fenosa. Homem de vasta cultura literária e visual viu reconhecido o seu talento com atribuição do Prémio Nacional de Fotografia de Espanha no ano de 2007. Para além da sua obra fotográfica, Manuel Vilariño encontra na poesia outro meio de expressão. Os dois discursos complementam-se, e no imediato, um conduz ao outro. Na passada quinta-feira o artista deslocou-se a Lisboa para apresentar a sua obra na galeria de arte de Carlos Carvalho. A sala reservada ao evento encontrava-se lotada. Sucintamente o autor foi revelando as linhas maestras do seu longo percurso, assim como apontamentos biográficos que o marcaram, no final da sua apresentação convidou os participantes a acompanharem-no numa visita pela exposição onde se alongou com algumas explicações particulares sobre cada um dos conjuntos.

Manuel Vilariño fotografa utilizando o método analógico, a preto e branco ou a cores, não se rendendo à comodidade dos processos digitais. Iniciou o seu percurso pela fotografia durante a sua permanência na Universidade de Santiago, a partir do momento que entendeu ter reunido cultura visual suficiente para conceber um projecto. Decorridos trinta anos, muitas foram as influências que marcaram a sua obra, como a História da Arte, a Poesia, a mitologia clássica, as memórias de infância (onde sempre regressa), e, as viagens que realizou aos E.U.A, Índia e Etiópia. Os dois últimos destinos mudaram-lhe a sua percepção da existência humana. Estas permanências encontramos por exemplo na série Paraíso Fragmentado (2001-2003) que apresentou na Bienal de Veneza, onde um conjunto de animais sobre matéria orgânica proveniente dos cinco continentes, na sua maioria pássaros que parecem mortos aos olhos do observador, encontram uma nova existência, como de uma passagem para outro plano vivencial se trata-se. Recria ambientes geradores de tensão. No seu universo o animal (insectos, repteis, aves) é interpretado pela sua carga simbólica. Assim como os restantes elementos que surgem nas suas composições: crânios, ossadas humanas e cruzes (influência da religiosidade da família materna). Intitula-os de still-life bramânico. Prefere a adopção do nome em inglês à nomeação do termo espanhol Bodegón. Concebe as suas obras segundo uma visão e materialidade contemporânea embora se inspire na tradição da natureza morta e mística literária barroca espanhola (culto a S. João da Cruz). Na Galeria Carlos Carvalho Arte Contemporânea encontramos algumas imagens representativas desta fase.

Mitologías, Manuel Vilariño - Carlos Carvalho Arte Contemporânea

Define a sua obra como inclassificável, não pretende encaixar-se em qualquer categoria ou rótulo estilístico. Diz-se viver na periferia da periferia do mundo artístico. Prefere a sombra. Talvez por esse motivo mostre preferência (entre as obras expostas em Lisboa) por um animal na sombra fragmentado por vários elementos. Outro conjunto de imagens que pudemos ver em exposição segue a tradição da imagética e bestiários medievais sobre o animal. Na sua grande maioria encontramos representados aves marinhas como que petrificadas sobre um fundo branco. Como o próprio artista enumera lembram o mito das três Górgonas, ou seja como se tivessem sido petrificados pelo olhar de quem as contempla. Não procura captar instantes, o instante decisivo de Cartier Bresson, mas a poética da reflexão, a estética do silêncio, do tempo suspenso, numa busca incessante pela compreensão do sentido do Universo, embora tenha a consciência da incerteza do caminho. Compõe as suas imagens apenas com dois ou três elementos, prefere a simplicidade pela eliminação do supérfluo.

Mitologías, Manuel Vilariño - Carlos Carvalho Arte Contemporânea

A luz definidora de todas as formas surge como uma metáfora da existência, aludindo à iluminação interior. Como forma de recriar o tenebrismo barroco recorre apenas à luz que emana da vela à qual por vezes acrescenta a luz crepuscular. Mas não é apenas a luz antes do cair da treva nocturna que encanta Manuel, como também os escassos segundos ou minutos depois da noite, a luz da aurora. Prende-se no lugar onde acabam as trevas, e inicia-se o sonho, a hora azul como intitulam alguns autores que vai nomeando. Fotografa lugares indistintos, sem qualquer referência geográfica. Importa o sentido do desconhecido, selvagem, intocado pelo Homem. Interessa-lhe o lugar – o bosque, a montanha ou o Oceano – como local de escuta e de silêncio observado segundo a perspectiva de um animal. Abrigasse no “hondón” como uma forma de sobrevivência. Nomeia constante autores, que o conduziram a determinado ponto de evolução estético e estágio de evolução do seu pensamento. Na poética Whitman reencontro a misticidade do discurso de Manuel Vilariño:

Comtemplar o amanhecer!

A luz débil desvanece as sombras imensas e diáfanas,

O ar agrada ao meu paladar.

Os pesados objectos do mundo que se move saltam inocentemente, silenciosos, exalando frescura,

Precipitando-se obliquamente, em cima e em baixo.

Deslumbrante e tremendo quão velozmente me mataria o amanhecer,

Se eu não pudesse, agora e sempre, oferecer ao mundo o amanhecer em mim.



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