Marcelo D2

De passagem por Portugal e com disco novo em mãos, o brasileiro aponta armas e não hesita em disparar fogo. Os alvos, esses, são abatidos em discurso directo na RDB.

“Meu Samba é Assim”, acabadinho de chegar às lojas nacionais via SONYBMG, apresenta o outrora vocalista dos louváveis Planet Hemp em grande forma, sempre assente em sonoridades hip-hop mas com um ênfase particular no tão tipicamente brasileiro samba. Depois de um bem sucedido concerto na recente edição do Rock in Rio, Marcelo D2 apresentou à RDB o seu novo disco de originais. Mas não só. Abordou o Brasil actual (o político, o cultural e o real), falou do seu precoce interesse pela música, levantou o véu sobre um filme por si coordenado a gravar em 2008. E confessou-se desejoso de colaborar num futuro próximo com Sam The Kid.

A passagem pelo Rock in Rio 2006 e a importância do Festival…

Foi muito bom, apesar do calor que se fazia sentir àquela hora da tarde. Não havia quase ninguém em frente ao palco no começo do espectáculo mas depois as pessoas foram-se aproximando. Para mim foi particularmente especial tocar no Rock In Rio porque foi a partir das primeiras edições do Festival, no Brasil, que realmente me apercebi do quão fascinante podia ser a música. É algo muito especial e gostaria de regressar em 2008 a Lisboa integrado outra vez no cartaz do Festival.

O Rap na vida de D2, o começo e o interesse pela música…

Há alguns momentos-chave: por exemplo, o momento em que o meu pai comprou o nosso primeiro gira-discos e alguns discos de Afrika Bambaataa. Mais tarde, ouvi o “Licensed to Ill” dos Beastie Boys e o “Raising Hell” dos Run DMC e apercebi-me que era mesmo aquilo que queria fazer. Sempre tive um caderno onde escrevia algumas eventuais canções mas só depois de absorver esses dois discos decidi levar a coisa à séria.

A carreira de D2, dos Planet Hemp a 2006 – uma evolução satisfatória?

Já tenho oito discos no total e acho que todos eles são muito coerentes e cada um é um passo em frente relativamente ao anterior. Estou muito agradecido pelo que a música fez por mim e o mínimo que posso fazer é dar algo em troca, e é isso que tenho tentado alcançar, deixar um legado que seja influência para alguém no futuro. Ainda não fiz tudo o que queria, mas o que fiz até agora foi bom, para mim, para o público. Não me posso queixar de vendas de discos, sempre tenho vendido relativamente bem – tudo tem corrido pelo melhor.

O novo trabalho, “Meu Samba é Assim”

Este disco fecha uma trilogia, uma trilogia mais experimental, de misturar o hip-hop com samba. Depois do acústico para a MTV tive três anos para fazer este disco e, devido ao sucesso do anterior (“A Procura da Batida Perfeita”), tinha de fazer algo em frente, tinha de evoluir realmente.

A música brasileira mais alternativa e a sua pouca exportação

A música pop está comercial demais, um pouco por todo o mundo. É um panorama muito pobre, mesmo. É complicado em todo o mundo romper algumas barreiras e eu consegui singrar no mercado discográfico, primeiro no Brasil, depois em países como Portugal ou França, por exemplo. Contudo, são poucos os músicos que conseguem furar esta indústria de programas estilo “American Idol”.

Citando o músico, “Eu quero a verdade completa, como todos os brasileiros querem a verdade completa”. O governo de Lula e o estado actual do Brasil…

Tens quanto espaço para esta pergunta? (risos). Tudo tem falhado, em áreas diversas. O Brasil é um bom país para se viver mas as grandes cidades têm, sem dúvida, muita violência. Lula escreveu uma carta de intenções ao povo brasileiro, em 2002, onde garantiu que ia investir na educação, saúde e segurança – nada disso foi feito. “Não adianta dar o peixe, há é que aprender a pescar”, creio que este ditado é adequado ao que devia ser feito e não está a ser praticado pelo Governo. E é triste, já que é um Governo de um homem que veio do Povo, um operário que subiu à Presidência, o que aconteceu pela primeira vez em 500 anos da História do Brasil. É muito triste a maneira como Lula tem tratado o povo.

O lugar da cultura no meio disto tudo…

O Brasil é um país muito rico culturalmente, em tudo, nas ruas inclusive. A verdade é que se não há dinheiro para prioridades como a educação é óbvio que não há dinheiro para a cultura. Não acho que o Gilberto Gil [Ministro da Cultura do Governo de Lula] esteja a ser um bom Ministro mas também sinto que seria difícil fazer melhor do que aquilo que ele tem feito.

A música como forma de protesto

A música tem muito mais poder do que qualquer discurso político. Se meteres uma banda num lado e um político no outro, e até podem estar a falar sobre a mesma coisa, vai toda a gente ver o que a banda tem para dizer. Acredito que as coisas podem mudar com o tempo, acredito em tentar educar as pessoas e levar a política às pessoas de outras formas menos convencionais.

E a música feita em Portugal?

Conheço bem o trabalho de dois artistas: os Da Weasel, que conheci pessoalmente agora nesta passagem por Portugal; e o Sam The Kid, de quem muito gosto mas infelizmente ainda não conheço pessoalmente. Gostaria muito de trabalhar com ele e vou tentar encontrar-me com ele para falarmos um pouco.

Um filme em projecto

É um filme que se baseia numa frase do Vinicius de Moraes: “A vida é a arte do encontro apesar de haver tantos desencontros nela” – aquela ideia de que ao descer agora estas escadas a minha vida pode mudar totalmente de um momento para o outro. É sobre a história de um rapper. O argumento já está escrito e quero preparar tudo em 2007 para em 2008 começarmos a filmar. Vai ser muito bom porque em vez de preparar um novo disco vou estar a trabalhar na banda-sonora para um filme sobre uma personagem que não o Marcelo D2, vai ser diferente.



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