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“Marina Abramovic: The Artist is Present”

O filme mais aguardado do Queer Lisboa 2012

João Ferreira, Director Artístico do Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa, já tinha aconselhado a corrermos pelos bilhetes de “Marina Abramovic: The Artist is Present” (2011). O filme de abertura da secção Queer Art foi uma das sessões mais ansiadas desta 16ª edição do Festival.

“Marina Abramovic: The Artist is Present” é um documentário da retrospectiva que o MoMA dedicou a esta performer, em 2010. Esta retrospectiva ocupou o 6º andar do Museu por um período de três meses e Marina Abramovic esteve sempre presente; sentada sete horas por dia, seis dias por semana, sofreu uma performance dolorosa.

A retrospectiva de outras performances suas foi incumbida a jovens performers que, antes, tiveram de passar alguns dias com Marina num workshop conceptualizado por ela. Mas o documentário de Mathew Akers não se focou muito nestas performances, muitas delas bastante dignas de merecer um olhar mais profundo.

O maior objectivo do realizador foi documentar a performance limite e a sua preparação, enquadrada por testemunhos de amigos e conhecidos dela. A performance consistia em estar sentada numa cadeira, com outra cadeira à frente, e com uma mesa entre ambas. Na cadeira vazia sentavam-se, vez a vez e quanto tempo quisessem, os visitantes da retrospectiva que desejassem olhá-la nos olhos sem expressão. O realizador mostra duas crianças a imitar a performance, lembrando-nos dos jogos que fazíamos no recreio em que o objectivo era aguentar o máximo de tempo sem rir. Mas ali o que acontecia era exactamente uma descarga emocional.

Ela diz estar na performance a 100% e tenta que a emoção chegue a todos. Mas alguns vêem aquele momento como um auto-retrato; sentem que estão a olhar a sua individualidade como se Marina fosse um espelho e, por isso, choram. Hoje em dia não é habitual este abrandamento, o foco no momento presente. E cada vez mais raras são as vezes em que olhamos alguém directamente nos olhos, partilhando intimidade. A câmara de Akers capta estes momentos fora da delimitação da performance, mantendo sempre alguma distância em relação à mesma – o oposto da abordagem emocional que a performer deseja.

Marina, que viveu pobremente durante muitos anos numa carrinha, tem agora um estilo de vida luxuoso. Mathew Akers mostra-nos uma peça onde ela acena “adeus extremos”, que simboliza esta ruptura importante na sua vida. Podemos argumentar que algumas cenas do filme permitem que sintamos uma dualidade, uma desconfiança natural em relação ao que estamos a observar. Estados que ela quer atingir com as suas obras – como a transcendência – opõem-se ao papel “Marina Rock Star” (as pessoas acampam em frente ao MoMA só para ter uns minutos com ela) e ao facto do público disputar imenso a sua vez com Marina, pois no final foi imposto um tempo limite para estar em frente dela. A cena em que Marina não esconde o preço a que vende fotografias suas, reforça a imagem vendável à performance. Também se pode argumentar que a única emoção sentida é uma falsa emoção; despoletada pelo facto de termos uma multidão a observar a nossa reacção e por termos necessidade de sentir alguma coisa de forma a compensar o elevado tempo de espera por aquele momento.

O filme pode dar azo a um olhar duvidoso acerca da performance mas não impossibilita o respeito que temos pela grandeza da performer, na altura do filme com 63 anos mas muito dedicada à sua arte. Ela anseia que deixem que de se referir a ela como uma artista alternativa, busca agora o reconhecimento.



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