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Not Quite Hollywood: The Wild, Untold Story Of OZploitation!

Desde Setembro de 2007 que temos terror no São Jorge. Pelo menos no início do mês, altura em que se realiza o Motelx, Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa. Neste ano, na sua terceira edição, a principal surpresa surge na secção “Quarto Perdido”, que de 2009 adiante, vai-se focar na história do cinema de terror português. Não serão muitos os filmes a mostrar, mas será uma oportunidade única para os ficar a conhecer. “A Dança dos Paroxismos” (1929) de Jorge Brum do Canto e “A Maldição de Marialva” (1990) de António de Macedo fazem as honras nesta edição.

De resto, mantém-se quase tudo igual. Stuart Gordon substitui José Mojica Marins na secção de “Culto dos Mestres Vivos”, “Serviço de Quarto” continua a ser a maior secção do festival (e a mais tentadora), o “Lobo Mau” está lá para educar e satisfazer os mais novos e o “Doc Terror” traz-nos “Viva La Muerte! – Autopsie Du Nouveau Cinéma Fantastique Espagnol” (o nome diz tudo) e “Not Quite Hollywood: The Wild, Untold Story Of OZploitation!”. Sem menosprezo pelos restantes filmes, vale a pena centrarmo-nos neste último. Pela soberba apresentação que nos é feita do cinema de género australiano.

Realizado por Mark Hartley, é uma análise detalhada de uma revolução que se dá na Austrália no início dos anos setenta, com a mudança para um sistema de classificação etária menos repressivo e que abre portas à imaginação de todos aqueles que faziam ou queriam fazer cinema. A Austrália que, até então, tinha uma produção cinematográfica mínima, passa a filmar em quantidade e com objectivos concretos secundários: dar a conhecer a sua obra, mas também o país, exagerando nos estereótipos criados pelo exterior em volta da sua população. Alguns faziam as delícias das sessões grindhouse nos Estados Unidos e encantaram Quentin Tarantino, um dos convidados de honra deste documentário.

São dezenas de filmes citados num documentário muito condensado, onde se quis que parte integral da história do cinema australiano coubesse, saltando dum filme para o outro num ritmo vertiginoso. Nem se nota a transição entre capítulos, apesar de os temas surpreenderem. A maior parte dos filmes são desconhecidos para o espectador comum, realizados desde o início da década de setenta até finais dos anos oitenta, compreendendo exploitation, terror, road movies, suspense, comédias, kung fu e muito mais.

Série B no seu melhor, não há nada que passe no ecrã que não deixe uma vontade tremenda de ver na sua totalidade, tal a qualidade das imagens escolhidas para o ilustrarem. Porque, segundo uma ideia de Tarantino expressa em “Not Quite Hollywood”, muitas vezes gostamos de certos filmes só por determinadas cenas que ficam para sempre na memória e, neste documentário, a sua escolha parece ter sido certeira, porque mais do que os nomes, lembramo-nos das cenas e imagens inacreditáveis que nos passam pela frente. Abrem o apetite, mesmo sabendo que grande parte daqueles filmes vão ser maus, verdadeiramente maus.

Cenas, momentos e pormenores que ficam na retina e que mais tarde foram apropriados por gente como Tarantino (ele, outra vez), como o coma de olhos abertos em “Patrick” (1978) de Richard Franklin em “Kill Bill”. E ainda ideias tão fora, que outros realizadores anos depois resolveram apropriar em sequelas não oficiais, algo muito comum no cinema italiano. Talvez por isso, saber a sua origem, ver essas cenas em “Not Quite Hollywood” nos bata ainda mais e nos deixe mais sedentos por filmes como o referido “Patrick”, “Roadgames” (1981), também de Richard Franklin, “Chain Reaction” (1980) de Ian Barry, “Turkey Shot” (1982) de Brian Trenchard-Smith ou “Next Of Kin” (1982) de Tony Williams.

Somos educados a compreender as origens de alguns dos filmes mais populares saídos da Austrália e que hoje fazem parte da cultura popular ocidental sem grandes dificuldades. Como “Mad Max” (1979) de George Miller ou os mais recentes “Saw” (2004) de James Wan – e todos os outros que se seguiram – ou “Wolf Creek” (2005) de Greg Mclean (do qual se vai poder ver “Rogue” durante o Motelx). Estes dois últimos são convidados do documentário e especificam a génese para algumas ideias e a influência que certos filmes tiveram na educação cinematográfica.

“Long Weekend” (1978) de Colin Eggleston é uma pérola e há gente que não se esforça a esconder o entusiasmo por este filme. Um casal tenta salvar o seu casamento num fim-de-semana com a natureza, mas ela torna-se num estranho inimigo e tudo descamba numa carnificina inexplicável, sem se perceber bem o porquê da sua origem. Fica na retina depois do documentário e, à falta do original, vale sempre a pena ver o remake de Jamie Blanks (também australiano) que o Motelx vai passar.

“Not Quite Hollywood: The Wild, Untold Story Of OZploitation!” tem o seu quê de educacional e é um óptimo documento para entrar dentro do cinema de género australiano. Carregado de sentimento, melhor, entusiasmo, da época que trata, que é impossível não se sentir algum contágio pelo tema que aborda. Vão ver, nem que seja por ser divertido ou para verem Quentin Tarantino a estrebuchar-se de contentamento.

Ilustração do artigo de Isabel Salvado



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