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Nneka

Centro Cultural Vila Flor – Guimarães. 28 de Março, 22horas.

O Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor esgotou praticamente no passado sábado para assistir à apresentação em Guimarães do mais recente álbum da nigeriana Nneka, na penúltima apresentação da mini-tour de “No Longer At Ease” (2008) em terras lusas.

Apesar das características algo monumentais da sala (com capacidade para receber 800 pessoas) e da disposição da lugares obrigar o público a permanecer sentado, o ambiente revelou-se bastante intimista e caloroso. Alguns factores ajudam a explicar o sucedido, desde logo de ordem técnica: o som estava excelente e o jogo de luzes favoreceu um concerto “quente” e intimista. Mas a “chave” do sucesso foi certamente a artista nigeriana que, com um pequeno combo de quatro músicos (baixo, guitarra, bateria e teclados/samplers que conseguiram dar uma roupagem mais orgânica às produções originais de Dj Farhot), conseguiu cativar um público bastante diversificado, dando um concerto pleno de “soul” e ritmo.

Foi com «Africans», um dos poucos temas retirados do primeiro álbum de Nneka, que o concerto “arrancou”, dando o mote para uma excelente receita de reggae, afro-beat, hip hop e soul a que esta Nigeriana, radicada em Hamburgo (Alemanha), já nos habituou. Um início em crescendo, com o guitarrista Jonas da Silva Pinheiros a avançar sozinho para a frente do palco, ao qual se foram juntando os restantes elementos da equipa. Seguiu-se quase de imediato «Walking» (já do novo álbum), mescla de hip hop, reggae, soul, afro beat, que culminou com «Kangpe» (um dos singles de “No Longer At Ease”).

Antes, já Nneka tinha apresentado a banda e introduzido um primeiro tópico: a importância que hoje assume a força interior (moral e espiritual), designadamente na capacidade de assumirmos posições coerentes e correctas na vida. As referências à Nigéria natal são uma constante no discurso de Nneka, em que as questões morais, espirituais e políticas se misturam num discurso crítico e directo, simultaneamente doce e cru.

Seguiu-se «The Unconfortable Truth», um grande tema retirado do primeiro álbum de Nneka “Victim of truth” (2006), que poderia ter sido um grande hit (mas que verdadeiramente nunca “explodiu”). Destaque-se a incrível interpretação ao vivo, que terminou com um solo de baixo e voz, cortesia do baixista Emanuel Ngollepokossi.

A partir deste momento, o ritmo do concerto abrandou um pouco, havendo tempo para sonoridades mais acústicas, dando-se maior protagonismo à guitarra clássica e ao “cájon” (caixa de madeira usada como percussão nas sevilhanas), numa mistura de reggae, hip hop e flamenco que, por vezes, quase faz lembrar os Ojos de Brujo de Barcelona.

Nneka apresentou ainda um tema novo, dedicado aos “VIPs” Nigerianos que, entenda-se, são os Vagabounds In Power, como explicou a cantora em mais um discurso duro, inspirado na complexa situação política e sócio-económica da sua Nigéria natal, um tema recorrente ao longo de todo o concerto. Musicalmente, este novo tema revelou-se especialmente interessante e original, numa mistura de ritmos flamengos com o reggae, culminando num refrão tipicamente afro-beat, conseguindo Nneka que grande parte do público do CCVF entoa-se em coro “vagabounds in power – ayo!”. Este foi certamente um dos momentos altos do concerto.

Após um um breve regresso ao primeiro álbum, com os temas «Burning Bush (Everybody)» e «Beautiful», Nneka voltou novamente às questões relacionadas com as complexas relações entre o governo nigeriano e as grandes multinacionais petrolíferas, com o tema «Niger Delta» (confiram os links para mais informações sobre a situação passada e presente e de como pode contribuir para a luta) que, nesta versão ao vivo, conseguiu atingir uma maior intensidade musical e emocional do que no álbum, possibilitada pelo empenho especial do guitarrista Jonas da Silva Pinheiros.

O concerto “regulamentar” terminou com «God Of Mercy», num tema mais espiritual, em que o registo de Nneka se aproxima bastante de Lauryn Hill. Também este tema se distanciou bastante, nesta roupagem live da versão em disco, assumindo contornos mais progressivos, e um final soul, que levou o público do CCVF ao rubro. O regresso foi então, como seria de esperar, sonoramente exigido por um público ávido por mais!

Para o encore Nneka e sus muchahos reservaram uma breve, mas intensa, incursão por terrenos mais próximos do rock. Primeiro, «Heartbeat» (o grande single do novo álbum desta nigeriana) que, após uma longa introdução apenas com voz e piano, culminou numa versão mais rock. Por fim, com «Focus» provaram quão curtas são as distâncias entre o rock, o hip hop, o reggae e o afro-beat, terminando o concerto com um descomunal solo de bateria Michael Grimm, aplaudido em pé!

No final de pouco mais de hora e meia de (inspirado) concerto, saímos com a sensação de que tinha sabido a pouco, mas teremos de aguardar o regresso de Nneka a Portugal… Até breve!



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