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Late Night London

As regras da dinâmica.

A noite de Londres começa cedo, às onze da noite, às vezes às oito, às vezes depois de almoço – existe uma cultura de ser sociável, oferecer copos aos amigos e falar com o estranho/estranha ao lado no balcão sem ter outra conotação.

É uma cidade guiada pelas artes e pela auto-valorização – tantos estilos literários, musicais e outros começaram aqui, não existe o medo nem o culto do “lá fora”, porque a cidade é habitada por muitos estrangeiros ou emigrantes de segunda geração. Pode-se pressupor que se a pessoa vive em Londres teve de o fazer a algum custo e toda a gente tem experiências a partilhar.

Toda esta atitude reflecte-se na vida nocturna, ao grande número de start-ups de empresas soma-se um número ilimitado de bares e clubes de pequenas dimensões que crescem rapidamente devido à competição; é a lei da sobrevivência e muitas noites não passam de três ou seis meses de vida.

Devido ao tamanho da cidade, existem várias zonas de recreio e as pessoas não têm a tendência de passar a vida no mesmo círculo – criam-se e destroem-se “cenas” todos os meses e o hype de um novo estilo já passou por várias dores de crescimento e sub-géneros que se fundem e multiplicam.

A maioria das pessoas sai de casa dos pais entre os 16 e 18 anos, dividindo casas com amigos, arranjando trabalhos em part-time e dedicando-se a uma causa ou outra. Se alguém decide ser DJ não há aqui limites de custos ou horas de dedicação – se quer passar fome para comprar um gira-discos, então que passe.

As noites são como pequenos empreendimentos – seja no bar da esquina, que no meu caso tem convidados como James Holden e Deep Dish, seja nos grandes Clubs como o Fabric ou o Matter – os donos do bar não são djs, os primos não são djs e ninguém manda bocas sobre o tipo de som, os preços são acertados, as horas, o volume e uma ideia geral do tipo de evento – desde que paguem e tragam pessoas, são livres de fazer o que quiserem. Por isso há noites de qualquer género em qualquer lado; a ideologia e o tipo de pessoas que está num certo clube pode ser completamente diferente de um dia para o outro. É Incrivel pensar que um sítio como o Bugged Out, que pode levar nomes como Tiga, passados dois dias se torne no Durrr e tem um show de Franz Ferdinand… e ainda se dando ao trabalho de mudar o enfeite neon com o nome da noite.

Como escrevo o artigo perto da altura do fim-de-ano, que melhor maneira de explicar o funcionamento da noite que falar um pouco desta específica.

Primeiro que tudo, o Ano Novo não é de 31 para 1 mas sim de 26 a 3 de Janeiro ou por volta disso. Terminado o Natal começam as festas de “pre new years eve“, “not new years eve” e afins, onde grande parte das pessoas ainda de férias decidem sair e fazer passagens de ano a fingir – que têm tudo igual como se da própria festa de véspera se tratasse.

São criadas festas por todo o lado, normalmente ligadas às noites que decorreram durante o ano, chamam-se todos os residentes, os convidados regulares e toda a gente ajuda; se vamos ver alguém de uma certa editora ou circuito, provavelmente vamos apanhar na plateia o resto dos amigos e quem sabe se não dão uma mãozinha como o Erol Alkan o fez tocando gratuitamente num set de Mystery Jets.

Artistas de topo com cachets elevados não se importam de dar o seu contributo; um DJ que não posso nomear tocou gratuitamente na noite mensal do amigo que lhe tratou da papelada burocrática para legalizar a editora – isto porque estas pessoas não apareceram de um dia para o outro a ganhar 500 libras e a tocar no Matter. São advogados, designers, mecânicos que todos os dias iam gastar o dinheiro em discos ou nas noites dos amigos guiados por uma paixão comum pela música.

A noite de ano novo em si é bastante standard; a competição é séria e também o nível de entusiasmo das pessoas. O álcool e as drogas são mais utilizados que em Lisboa. passando o seu consumo dos limites e muitos locais tornam-se surrealmente parecidos com cenas de filmes com pessoas completamente paralisadas, nuas ou em histeria. Devo só comentar que tanto os organizadores como a polícia parecem fechar um pouco os olhos a isso desde que não ocorram incidentes de maior ordem.

Os artistas tentam também aproveitar esta noite ao máximo, fazendo pedidos exorbitantes (se tiverem currículo para isso). Exemplo dos 2manydjs que alugaram um helicóptero e fizeram 5 datas numa noite pelo UK, e o Erol Alkan com um carro privado com condutor que o guiou entre 2 ou 3 festas de norte a sul do país.

Depois da festa oficial, que no caso da minha zona tinha num raio de dois quilómetros quadrados, existem headliners em locais separados como Tim Sweeney, Trevor Loveys ou 2manydjs noutras 20 festas separadas (mais as privadas). As after parties abrem entre as 4 e 6 da manhã e são normalmente gratuitas ou bastante baratas e em pubs pequenos; aqui pode-se continuar a acelerar ou tentar fazer um suave cooldown até ir para casa.

No dia 1 a festa continua no usual “sunday roast” de Domingo: sair e comer fora enquanto se ouve música é comum. Sair pelo menos para conversar e beber mais uns copos para matar a ressaca… com um bocado de sorte pode-se apanhar alguém conhecido a meter discos enquanto se relaxa como o Andy Blake, Serge Santiago, Johnno Burgess e entre outros.

Mas isto não acaba aqui, há os clubes de segunda-feira, terça, quarta, quinta… é uma cidade com a população equivalente à de Portugal; cada saída em cada local diferente contém atitudes e pessoas diferentes. As “cenas” existem viradas para si ou para fora e em cada semana que passa há muitas pessoas novas para falar e conhecer – estejam de passagem ou tenham vindo de fora de Londres ou de outros países. Se necessitasse de uma palavra para definir tudo seria: Dinâmica!



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