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Noite em…Paris

On fait quoi, ce soir?

O destino decidiu oferecer-me uma mãe jovem, liberal e amante da boa vida. Foi com ela que, aos 14 anos,  comecei a sair à noite. Alguns meses depois conheci a Kariza, que também teve a mesma sorte do que eu: uma mãe jovem, liberal e amante da boa vida, com quem começou a sair à noite por volta da mesma altura.

Sem restrições e horas de entrada, percorremos o Algarve de uma ponta à outra, tornando-nos habitués de alguns dos melhores sítios e frequentando até as discotecas ditas perigosas,  ao som de um techno pesado (que saudades!) e tão bom. A partir desse momento percebi que a noite me tinha invadido, com todos os seus lados bons e maus. Mudei-me entretanto para Lisboa, onde descobri um mundo novo. Foi com algum trabalho e bastante força de vontade que rapidamente me transformei num dos muitos príncipes da noite lisboeta. Confesso que limitei um pouco o meu reino à cena electrónica, mas a noite é tão mais sensual desta forma que seria impossível não fazê-lo.

Em Abril de 2007 soube que vinha fazer Erasmus em Paris e a primeira questão que me pus foi se a noite Parisiense seria tão boa como a Lisboeta. Comecei a fazer projectos, a imaginar-me a passar à frente de uma fila enorme para entrar NA discoteca do momento, a pensar como seriam a fauna nocturna. Seria verdadeira a imagem de uma Paris boémia e glamorosa?

Chegado o dia da partida, com uma escala de 12 horas em Madrid, com óbvia expedição nocturna da Chueca e consequente (e enorme!) gueule de bois –  focinho de madeira – ressaca, na chegada a Paris.

O processo de entrada no meio parisiense foi o mesmo que tantos outros que tomamos ao longo da vida: procura, observação, exploração, adaptação e finalmente o tão esperado deleite.

No início, enrolado no furor Erasmus, passeei de bar em bar, de apartamento em discoteca, onde se falava tudo menos francês e onde os programadores musicais pareciam ter ficado parados nos hits dos anos 90, com algumas referências mais modernas, recaindo por exemplo, sobre a tão famosa Britney Spears ou ainda as Las Ketchup, com o Asereje. Destas andanças retive 2 nomes: o Hide Out Bar, onde meio litro de cerveja custa 2.50 euros e o ambiente pode ser aceitável, e a discoteca Le Mix, onde nem as raparigas podem descer para a pista de dança com as suas pochettes…Sim, é verdade, somos obrigados a deixar casacos, malas, malinhas e apetrechos afins no bengaleiro. Insuportavelmente cheio, mau gosto musical, staff mal-educado e muita carne fresca, mas pouco apetecível.

Para alguém que esteja habituado a uma noite de qualidade, estes são alguns dos sítios a evitar. Como o filho do peixe sabe nadar, se estás em Paris, terás de ser parisiense. Foi com este pensamento que decidi abandonar o círculo Erasmus e lançar-me aos lobos, ou aos franceses, como preferirem.

Francês que se preze começa a sua soirée com um Apéro. Seja num parque, a bordo do Sena ou num apartamento, por volta das sete ou oito da noite o grupo de amigos reúne-se: uns trazem tomates cereja, outros queijo, outros uma baguete…enfim, pequenos aperitivos para petiscar enquanto se conversa e bebe, poupando assim para uma noite que vai ser bastante cara.

Como seria de esperar, Paris é uma panóplia imensa de bares e discotecas e, apesar de sair frequentemente, ainda me falta muito para tudo conhecer. Salientarei, portanto, apenas os sítios a que me realmente me rendi, quer pela programação, ambiente ou clientela.

La Caravane é um bar/restaurante com uma déco-récup, récup de récupération – recuperação, onde encontraremos cadeiras que não vão com as mesas; sofás gastos; papel autocolante às flores, do tempo da avozinha e por aí em diante. Paleta de cores baseada nos laranjas e nos amarelos, com as paredes das casas de banho escritas de alto a baixo. Um grande balcão que percorre o bar quase de uma ponta à outra e uma salinha anexa, com mais cadeiras desemparelhadas, mesinhas e nenhuma janela. Ambiente é bastante simpático e descontraído, os preços acessíveis, DJ sets do electrónico ao pop aos fins-de-semana.

Se estiver numa noite mais virada para o rock escollho, como os The Libertines ou os Artic Monkeys fizeram para os seus aftershows, o Truskel. Como fecha às cinco, podemos lá chegar por volta da uma e meia da manhã. E é esta a hora ideal. Antes disso ainda não chegaram as pessoas interessantes. Estará cheio de inglesas gordas, gajos de camisas de flanela e grupos de amigos que nunca saem, porque não acham piada à noite, mas lá fizeram a vontade ao rebelde do grupo, que quer festejar o seu aniversário num bar.

Confesso que depois de alguma frequência começa-se a perceber que apesar de passarem boa música, passam sempre a mesma. Mas o ambiente é tão giro, os vodkas tatins tão bons, que se acaba por esquecer a falta de originalidade musical. A não ser que haja concertos programados, o que acontece muito, mas neste bar o que procuro são as noitadas e não os concertos, portanto…

Gosto muito do Panic Room e da sua decoração. O staff é bem simpático e há raparigas lindíssimas. Concertos que vão do pop ao rock, noites que misturam o electrónico com tudo o resto. Vale a pena visitar e beber um copo, numa de socializar um bocadinho antes de passar a outro sítio. Ao La Perle, por exemplo. Situado no quarteirão gay da cidade, este bar faz-me imenso pensar no Bairro Alto. Aqui encontraremos os intelectuais e os pseudo-intelectuais (que também são muito importantes!), os actores, os gays super fashion, a nata estrangeira, os militantes de esquerda e de direita, as maravilhosas amigas dos gays, os quebra-corações, os alternativos, e por aí em diante. Um pouco como no Bairro Alto, onde as faunas sociais se misturam até ao infinito. É um bar pequeno, convidando os “Morcegos Libertinos e Borboletas Nocturnas” a conviver na rua – tudo como fazemos em Lisboa, em frente do Clube da Esquina ou do Arroz Doce. Música? Há, mais não vos sei dizer qual. Não é o mais importante neste sítio.

O L’International tem uma óptima programação musical. Ao ambiente descontraído de bar misturam-se as qualidades de uma boa sala de espectáculos. De artistas confirmados, a grupos emergentes, oferece-nos sempre uma noite muito agradável, com entrada gratuita! As pessoas são comunicativas e respeitadoras e as bebidas não são caras.

O Point Ephémère é um bar, mas também uma discoteca. E uma galeria. E uma sala de espectáculos. E quatro ateliês de artistas. E um estúdio de dança. E cinco estúdios de música! Este centro de actividades artísticas é incontornável. Ir ao Point FMR é, para aqueles que nunca têm tempo para nada, a oportunidade de matar dois coelhos de uma cajadada só : um momento de descontracção a beber vodka redbull com os amigos e, ao mesmo tempo, a oportunidade de ver uma exposição, por exemplo. E tudo isto a cinco metros do canal Saint Martin!

Pela Noite dentro proponho-vos três escolhas. Comecemos pela mais original. Em França, apenas três navios farol da época da escravatura sobreviveram ao tempo. Dois estão expostos em museus e o terceiro, vindo da Irlanda, está atracado no Cais François Mauriac, em plena Paris. Do jazz ao hip hop, do rock ao folk, da world à electrónica, o Batofar prima pelo ecletismo. Quatro bares, com ambientes completamente diferentes. Escadinhas, recantos, pista de dança. Para todos os gostos. É de prever algumas notas a mais ou um plafond do cartão de crédito mais alto porque será, naturalmente, caro. Óptimos, óptimos afters.

O Rex será, mais ou menos, o Kremlin cá da zona…mas sem mitras. Também há les mauvais garçons, mas os porteiros são um bocadinho mais chatos. Já me perguntaram, em frente a todo um mundo de gente, se a polícia me tinha apreendido os atacadores, porque não os levava postos! Entra-se e desce-se para as bilheteiras. Depois desce-se para a grande sala principal. Desce-se ainda mais um bocadinho para o bengaleiro. E se tivermos de ir lavar as mãos ou fazer outras coisas que tantas, desce-se ainda mais. Bom sistema de som. Boa música electrónica. Muitas pessoas em altas. Bebidas caríssimas. Ambiente escuro. Decoração moderna, mas nada do outro mundo. É uma pena que feche relativamente cedo, por isso disse que seria mais ou menos o Kremlin cá de Paris.

O Social Club é a discoteca hype por excelência. Podemos dizer que seja uma prima quase direita do Lux. Imaginemos que o Lux seja proveniente de uma família lisboeta e que o Social Club tenha nascido e vivido em Cascais. É essa a pequena diferença. Decoração elegante. Diria quase, quase primorosa. Boa selecção musical. Noites de clubbing e noites de concertos. É bem saber-se frequentador do Social Club. Ambiente fashion-alternativo-bourgeois, bastante simpático. Pode acontecer que por vezes tenhamos a sensação de estarmos rodeados de jovens bem mais novos do que nós (e por nós refiro-me a pessoas que andem por volta dos 25 anos). Mas isso depende da programação dessa noite. Miúdas super bem vestidas e rapazes que não lhes ficam atrás. Nem vale a pena falar nos preços.

Há ainda a recentemente extinta La Flèche D’Or, o Glaz’Art, o ShowCase e a Cité de La Musique, que começa a organizar festas bem interessantes… mas fico-me pelos que frequento assiduamente.

Os franceses são bons convivas, gostam de beber (e de se drogar); gostam de se divertir. Tudo como os portugueses. Têm no entanto, uma forma especial de o demonstrar. Ainda me lembro de que quando chegava por exemplo, ao Rex, nos meus inícios e tinha a sensação de que ninguém se divertia. As pessoas (e mesmo aquelas que estavam notoriamente drogadas) mexiam um bocadinho os braços, abanavam lá muito de vez em quando a cabeça e não descolavam os pés do chão. Fiquei claramente decepcionado ao encontrar um party people tão calmo, mas com o hábito lá percebi que tinha de olhar de uma perspectiva diferente e que, afinal, eles não são assim tão diferentes.

Sim, Paris é boémia e glamorosa. Sim, gosto da façon française. Sim, a noite é bastante interessante. Mas sim, a noite lisboeta é bem melhor !



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