Drago Jančar

“O aluno de Joyce”, de Drago Jančar

No precipício da consciência

Tido como uma das vozes mais reconhecidas da literatura eslovena contemporânea, Drago Jančar é ainda um mistério para a maioria dos portugueses, situação que pode agora ser revertida após a publicação de O Aluno de Joyce (Tinta da China, 2025), reunião de contos inédita que afirma o autor como mestre da tensão existencial e da narração minimalista, e que faz parte da coleção “A vida privada dos livros”, dirigida por Alberto Manguel.

As narrativas, no total uma dezena de contos, exploram personagens que, mesmo num suposto patamar de estabilidade, vivem em constante confronto com a sensação de estar no precipício, seja a possível queda ética ou emocional e motivada pela inevitabilidade. O resultado são pequenas histórias densas e cujos protagonistas estão nas mãos de um qualquer destino.   

E nessas pequenas histórias, o leitor pode sentir um misto entre sobriedade e precisão, com Jančar a dar “vida” a objetos como botões de camisa ou tornando olhares como momentos de tensão simbólica. O(s) narrador(es) assume(m) o papel de observador(es) e a narrativa estica-se ao seu limite, levando a palco momentos quotidianos que se tornam extraordinários. A sublinhar essa tendência de escrita está o humor negro e a ironia que aceleram ou travam o sentido da coexistência melodramática.

Em alguns dos contos mais intensos deste livro, como o homónimo e inicial, O salto da Libúrnia, ou, por exemplo, Incidente no relvado, cujo protagonista é assaltado por «bicadas leves nas gengivas com respostas sensíveis ao fluxo de sangue e ao bater do coração», é possível sentir com particular afinco o universo moral de Jančar e, simultaneamente, arrancar o essencial da mensagem em 8, 10, ou 16 páginas, que é a extensão destes contos que refletem sobre a viagem humana e várias doses de absurdo.  

Essa economia discursiva não retira em nada o brilhantismo associado à elegante prosa de Drago Jančar, à sua objetividade de ser, paradoxalmente, subjetivo, ambíguo, incerto e desafiador, atirando-nos para a berma do abismo.

É certo que estes contos podem exigir paciência e dedicação face à sucessão de tragédias (fica ao nosso critério definir se a palavra leva ou não aspas…). Mas esse é também o caminho que nos torna iguais quando pegamos num livro de Jančar e nos mantemos num mesmo ponto de partida, independentemente de conseguir passar a “meta” ou escorregar num poço sem fundo que é a vida de todos os dias. Esse é um desafio comum, partilhado, e que nos leva ao nosso ser mais bruto, primitivo, até porque, como refere Gonçalo M. Tavares no prefácio, «somos todos animais quando caímos».



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