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O Purista Delinquente

"O Canto dos Pássaros" por Albert Serra.

Albert Serra, o realizador catalão que esteve em Lisboa, no passado dia 7 de Março no cinema King para a antestreia do seu filme “O Canto Dos Pássaros” ( El Cant Dels Ocells) é alto, ruivo, cheio de anéis dourados nos dedos, uma corrente, também dourada mesmo à tangente da maçã de Adão e com um bigode farto que quase esconde os lábios grossos e trocistas. É com eles que dá sinais de um sentido de humor que usa para disfarçar uma qualidade narcisista e altiva que dispara quando alguém ou algo foge do seu comprimento de onda. Há uma poeira de tédio que se solta dos olhos grandes e a segurança dos gestos e a palavra articulada dão a entender uma figura carismática (no mínimo) e habituada a ser o centro das atenções e a nova maravilha do actual cinema de autor.

Sem pudor e utilizando o tempero do humor para disfarçar a sua aguda sinceridade, atira frases como o facto de ser um dos melhores realizadores espanhóis da actualidade, pois tudo o que existe é tão mau que é muito fácil ser o melhor. Considera Buñuel o último dos mestres e tem uma aversão especial à televisão. “é tudo lixo”.

Quando criticado pelas suas qualidades de egocêntrico usa o “não sei ,não sei, não me interessa, faço porque gosto, se calhar tenho mau gosto, não sei, por casualidade, não sei, outra pergunta por favor.”

Revelado no seu primeiro filme, “Honra de Cavalaria”, que filmava à flor da pele, e ao nível íntimo do chão, numa contemplação infinita mas com grande aproximação, clones distantes da figura de D. Quixote e Sancho Pança, Serra continua o seu minimalismo e natureza purista desta vez na universal história dos Três Reis Magos.

Perguntámos o porquê da utilização destas figuras populares como protagonistas, e material de exploração para beneficio destes filmes que ele só faz porque gosta:

-“bem… se toda a gente conhece a história, não é preciso contá-la e podes concentrar-te em todas as outras coisas e eu não quero explicar a história, a mim não me interessa isso, cinema para mim são as imagens.”

“O Canto dos Pássaros” começa árido e etéreo. Os primeiros segundos sugerem a fotografia de Anton Corbjin. Os Reis espalham-se pelos negros e cinzas de um modo vagabundo e regular. Não há estrela que os guie, apenas uma esperança, uma fé ingénua e idiota, pois o burlesco está presente tanto neste percurso como no corpo e expressão de cada um. Serra compara este filme, com a sua paisagem, dimensão e profundidade de campo, a uma viagem de avião em que estamos a descobrir um país visto do ar. É uma viagem seca e com uma narrativa reduzida ao essencial. Onde a terra e a humanidade são abstracções.

“Honra de Cavalaria era muito contemplativo e eu não conseguia nem queria ir além disso. Quis conservar coisas do outro filme, como tudo ser feito em exteriores com actores não profissionais, um pouco o mesmo estilo e queria usar um mito muito simples do qual temos muito pouca informação o que neste caso são os Reis Magos. Toda a informação que temos vem de livros, gravuras e pinturas. O conceito humanista da outra película, aqui, com estas personagens, passa a iconográfico, figuras sem conteúdo psicológico e dramático. Um conteúdo muito simples e plano porque na verdade não há nada que contemplar. Os planos têm uma dimensão mais gráfica mais superficial da imagem, e não vai tanto ao interior do filme, das personagens. Tu estás a sobrevoar a história”.

Na sua deambulação errática e tragicómica e com um cansaço carregado nas vestes e nas sombras, os Reis chegam a Maria, José e o Menino (que quase não aparece e que é simbolicamente(?) representado por um cordeiro. Mas é uma rendição, um alívio mais do que uma salvação e não existe ouro, incenso e mirra, e no regresso a casa, um regresso sereno, ainda um pouco ziguezagueante mas destituído da abstracção da primeira parte,  ficou um outro nível de fé ou talvez a já não presença dela.

“sim… um pouco, a viagem continua, não está acabada, e eu não queria que isto parecesse uma apoteose do religioso… a película podia ser sobre a busca da fé, mas queria deixá-los um pouco… enfim.. não há ninguém que apesar de ser completamente religioso não tenha dúvidas, nem ninguém que seja ateu e não as tenha”.

O filme, nestas distintas partes, foi filmado na Islândia (a arrebatadora extensão de cinzentos e negros), em Fuerteventura (quando os reis encontram Jesus) tendo a paisagem local um casual paralelo com a morfologia da Palestina, e o gracioso e leve fim mais objectivo e menos abstracto numa paisagem mais terrena mais íntima, em França.

Albert Serra não estudou cinema. Licenciou-se sim em Literatura Espanhola na Universidade de Barcelona e andou pela História da Arte. É anti-doutrinário e anti-popular: “Vivo em Barcelona mas nasci mais a norte, quase na fronteira com França. Nunca estudei cinema e isso é que é o mais interessante. Fiz este filme com as pessoas da minha terra, queríamos fazê-lo juntos e não com alguém mais profissional que soubesse mais que nós. A partir da minha paixão pelo cinema e do sonho da Nouvelle Vague, e com os meios que hoje em dia são cada vez mais acessíveis, como o digital, podem-se fazer grandes filmes e este filme é um exemplo daquilo que não se ensina numa escola de cinema. Provavelmente dir-te-iam que tudo estava mal.”

A resposta à pergunta de porquê fazer algo tão popular como cinema se só faz o que lhe interessa e o que gosta, fá-lo irradiar ondas de desdém com o corpo mas volta ao seu lado desataviado e sem malícia e afirma: “O cinema a par com a literatura é arte mais popular mas eu não vou pensar nas pessoas mas sim no que gosto. A literatura tinha um conteúdo mais elitista e o cinema, a partir da Nouvelle Vague, começou a deixar de ser tão popular e eu faço um cinema não popular que tem noção desta ruptura. Nos anos 60, artistas como os Beatles e os Rolling Stones, que eram imensamente populares, tinham uma máxima qualidade artística, mas hoje na música tudo o que é popular é lixo. Com toda a informação do que veio antes e tendo em conta o que se vê hoje quero fazer coisas mais elaboradas, mais sofisticadas e esses mundos vão-se separando cada vez mais, mas isso não é culpa minha. Esta ruptura é muito interessante. Godard por exemplo fazia cinema não popular e tinha um grande êxito junto do público. Eram pessoas que faziam um cinema muito pessoal mas tinham audiência. Hoje isso não acontece. Se o meu filme é difícil e se as pessoas não gostam dele não é culpa minha. A mim só me interessa quem o vê e entende, não os outros.”

Apresentado na 40ª quinzena dos realizadores em Cannes e presente em Festivais como o Los Angeles AFI Fest, o Toronto Film Festival, Mar Del Plata, Rotterdam Film Festival e tendo ganho o Grande Prémio do Festival de Splitz e do Festival Entreves Belfort, “O Canto dos Pássaros” está em exibição no cinema King.



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