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Paul McCartney – “Kisses On The Bottom”

A boa vida da infância

Há alturas na vida em que, por uma estranha e delirante conjugação de estrelas, planetas e meteoritos, damos por nós a viver no limite, armados em funâmbulos, indiferentes ao comprimento do fio ou à altura gigantesca a que este se encontra de um chão ameaçador e ligeiramente desfocado.

Aos 69 anos de idade, Sir Paul McCartney decidiu aventurar-se num projecto que tinha francas probabilidades de dar para o torto. “Kisses On The Bottom”, o 35º disco pós-Beatles, reúne doze clássicos vintage – como «It’s Only a Paper Moon» ou «The Glory of Love» – e dois originais McCartianos, um deles retirado de uma gaveta secreta – «My Valentine» –, e pode ser visto como um mergulho nostálgico até aos tempos em que McCartney, gozando a boa vida da infância, escutava o pai a deslizar os dedos pelo preto-e-branco de um piano familiar.

Fechem os olhos e visualizem uma paisagem campestre britânica num (raro) dia de sol, a mesa posta com uma toalha bordada à mão, o chá fumegante e pratos de bolinhos acabados de fazer e terão uma ideia do estado de espírito que atravessa este disco. As fontes de deleite são várias: o piano jazzístico de Diana Krall – e os seus músicos de primeira apanha –, o forte sentimento acústico, a vulnerabilidade e a subtileza da voz de McCartney – por vezes quase irreconhecível –, que deriva entre o espírito de um crooner e o de um cantor romântico sem qualquer ponta de pimba.

“Kisses On The Bottom” não alcança o estado de obra-prima mas será, provavelmente, a melhor rodela sonora que McCartney nos ofereceu desde há uns bons anos. Um animado salão-de-chá, não apenas para avozinhas, onde o easy listening é rei e senhor das matinés, numa saudação à infância que emociona sem precisar de entrar em lamechices.



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