Mude em Movimento – Pedro Sena Nunes

Em Movimento com Pedro Sena Nunes

Um dos Directores Artísticos do Festival MUDE EM MOVIMENTO - FESTIVAL DE DESIGN E PERFORMANCE

Dia 26 de Setembro, 18h30. O tempo não ajudava. A chuva que se manteve tímida durante todo o dia fez-se ouvir ao final do dia. Mas nem isso me roubou a mim, ou a qualquer um dos restantes membros do público, a vontade de assistir ao arranque do Festival que nasceu com o objectivo de redesenhar as nossas relações com a cidade.

Falo do MUDE EM MOVIMENTO – Festival de Design e Performance, uma iniciativa conjunta do MUDE, Colecção Francisco Capelo e da Associação Cultural Vo’Arte. Surge no âmbito Mude em Movimento, cujo objectivo é a ocupação temporária de espaços públicos de Lisboa. São três dias de interpretação, análise e reflexão sobre a paisagem urbana, e que convidam à participação de todos.

Chegada à Rua Augusta sou de imediato interpelada por seis corpos que criam uma coreografia onde o inesperado e a sensação de risco vivem lado a lado com movimentos lentos e entrecortados. Com uma linguagem inusual, os diálogos com a paisagem envolvente são totalmente novos, e sentimo-nos presos nos movimentos dos artistas que recriam a relação com a cidade numa dança contagiantemente lenta. No público pulsa aquele sentimento de estar a assistir a algo inédito e nasce uma súbita vontade de deixarmos de pisar as calçadas destas ruas da mesma forma de sempre, para antes seguir os passos deles.

A instalação coreográfica para espaços públicos e paisagens urbanas Olhar Urbano, da Companhia Artesãos do Corpo, é uma travessia lenta, na qual estes seis corpos propõem uma nova poética para o espaço/tempo cosmopolita e convidam o público a reflectir sobre a actual desvalorização dos pequenos detalhes da interacção com o que nos rodeia.

Às 19h00 tem início a performance Les Hommes Scotchés, de Cie Mi- Octobre/ Serge Ricci. É transformação, é fluxo, é tentação. A proposta aborda o movimento de dois corpos que se encaixam em sucessivos deslocamentos e justaposições. Os dois artistas, que inicialmente se apresentam como bonecos forrados a jornais, terminam quase nus, usando este despojamento como objecto performativo para a nossa reflexão sobre as carapaças que usamos e que teimamos em não largar.

Uma performance sustentada pela cumplicidade e o diálogo corporal que ambos vão dedilhando entre eles, numa realidade que é construída e desconstruída a partir de objectos como jornais ou fita-cola que são usadas como ferramentas de experiências que se vão deitando fora. Um jogo físico, rítmico, cheio de tensões em cada cena, em cada movimento inesperado, em cada objecto deixado para trás.

A direcção artística do Festival é de Ana Rita Barata e Pedro Sena Nunes, da associação cultural Vo’Arte, e no final das performances do primeiro dia não resisti, e quis saber um bocadinho mais sobre todo este conceito e a sua génese.

 

PEDRO SENA NUNES

Trabalha como realizador, produtor, fotógrafo, programador e professor, e o seu trabalho destaca-se pelo cuidado com o lugar do outro. Cria para filmar, filma para partilhar. Entre inúmeras cidades europeias, viajou e participou em cursos e workshops de cinema, fotografia, vídeo, teatro e escrita criativa como bolseiro de várias instituições nacionais e internacionais.

O orgulho de pertencer a esta iniciativa estava espelhado no olhar de Pedro, quando cheguei perto dele, assim como a satisfação de um primeiro dia que terminava já sem chuva, e que tanto trouxe à cidade. “Há já algum tempo que queríamos fazer um projecto destes, uma parceria entre o design, a moda e as artes performativas, tendo o design e a moda relação através da presença dos objectos cénicos e dos figurinos integrados das performances”. Contou-nos que o que mais lhe dava satisfação era o constatar que, de alguma forma, a partir desta iniciativa conseguia interpelar as pessoas que por ali passavam e, talvez, alterar alguma coisa no decorrer desse dia.” Foi com um sorriso na cara que disse “O objectivo é dotar a arte de uma dimensão social. A arte de fazer um mundo melhor.”.

Na verdade, era muito o público que propositadamente foi até à Rua Augusta para assistir às primeiras performances deste Festival. Mas também foram muitas as que foram sendo surpreendidas pelo fazer artístico que por ali se desenhou ao final do dia. E, como este final de dia, certamente, não existirão muitos.

Interroguei-o sobre a escolha da altura do ano, já que, para um Festival que se constrói nas calçadas da cidade, esta é uma das alturas menos previsíveis. “Quisémos apostar neste momento do ano porque significa um leque imenso de reinícios, novos ciclos, recomeços. A escola, o trabalho, os hobbies, o regresso das férias. Quisemos invadir a cidade de Lisboa com este ciclo, agora.”. Se existia um plano B para o caso de chover – mesmo muito? “Não. Isto é, existe plano B, mas a relação com a cidade é feita de acordo com as condições que esta tiver para nos receber.”.

“Estavas cá hoje no início? Estava a chover muitíssimo e mesmo assim ninguém se foi embora, o público é dedicado, fica, tal como o artista que sabe que está no espaço púbico, sabe que pode contar com as mais diversas situações, é uma situação de risco!”. Em mim fica uma certeza: A satisfação dos que ficaram. E o que os fez ficar. No final de contas, é de interpelações artísticas que falamos. Se o público fica, é porque de alguma forma foram interrompidos da sua realidade. Se conseguiram interromper, conseguiram criar significado. Em mim, criaram certamente.

O Pedro continuou: “Procuramos tornar as artes performativas acessíveis a todos, construir uma nova ideia da cidade – jovem, aberta, divertida e diferente. Internacionalizar Lisboa através da cultura. O espectáculo de amanhã, Árvores, nem é a chuva o problema maior. Basta que esteja muito vento para causar problemas ao exercício dos artistas. Serão corpos a fazer o pino, num desejo de permanência, a resistir a qualquer adversidade. Tanto durante o dia de ontem como hoje está a decorrer o workshop Árvores, com a artista Clarice Lima, e foi apenas durante esse tempo que os artistas tiveram algumas oportunidades para treinar no palco da cidade. De resto, os ensaios acontecem sempre dentro de quatro paredes.

Sábado apresenta-se a companhia portuguesa CiM – Companhia Integrada Multidisciplinar com o espectáculo Sobre Rodas, essencial!”

Pedro contou ainda que os dois objectivos maiores deste Festival são a internacionalização, colocando Lisboa sempre no roteiro, e futuramente espera conseguir movimentar o conceito do Festival também para dentro do MUDE. “Queremos algo semelhante ao que já realizámos no Museu de Arte Antiga, também em parceria com o MUDE, e onde a Vo’Arte realizou uma interpretação performativa das peças de arte do Museu. Estas performances aconteceram tanto dentro do Museu, como nos espaços exteriores. A ideia é realizarmos, numa visão partilhada com a directora do MUDE, Bárbara Coutinho, combinações transdisciplinares com este espaço cultural que oferece imensas possibilidades de interacção. Propomos construir algo de novo no panorama cultural português.”.

Sobre esta parceria com o MUDE, perguntei-lhe se era para durar. A resposta? “Queremos que seja eterna.”

Eu também quero, e muito! O final do dia de ontem teve tanto de inesperado como de surpreendente. Tanto de belo como de reflexivo.

O meu conselho? Não percam a programação dos dias de hoje e de amanhã, que podem consultar aqui. 

O que posso garantir? Que este Festival tem tanto de querer ficar, e tão nada de querer partir.

É sem dúvida o Festival que MUDEou Lisboa por três dias. Ainda tens dois para aproveitar.

 

Fotografias de Catarina Sanches



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This