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A rua é nossa…

... de todos nós, então porque não vivê-la? Conheçam a exposição que está patente no MUDE até ao próximo dia 20 de Fevereiro através de uma conversa com o seu comissário, Pedro Brandão.

O piso 1 do MUDE – Museu do Design e da Moda, recebe até ao próximo dia 20 de Fevereiro uma exposição curiosa. Uma mostra que nos fala sobre a rua, um espaço público de todos e de cada um de nós, que à partida não nos suscita dúvidas por aí além, mas que se fizermos uma pausa na correria do dia-a-dia para reflectirmos sobre ela, somos bem capazes de ser “assaltados” por um conjunto de dúvidas pertinentes e sentimentos desconcertantes. Uma coisa é certa: “A rua é nossa… de todos nós”, por isso, porque não vivê-la?

Para que servem as ruas?

Já diz a organização da exposição, que conta com o comissariado geral de Pedro Brandão – da Associação Europan Portugal, que em todas as cidades do mundo se repetem estas e outras perguntas: “Para que servem as ruas? A quem pertence a rua? Quem decide, controla, toma conta e vela pela rua? Como conciliar velocidades, modos de deslocamentos, necessidades de quem passa e de quem mora com as dos que comerciam e nelas trabalham…? Como tornar as ruas legíveis, fluídas e amistosas para todos? Até onde a publicidade, o comércio, os negócios, a liberdade de expressão e a arte se podem exprimir mas também apropriarem-se da rua?”. Tendo isso em conta, e com o objectivo de pelo menos clarificar algumas destas questões, e aproximar a rua de cada um de nós, a exposição “A rua é nossa…de todos nós” integra vídeos, projecções, painéis fotográficos e objectos urbanos que ilustram aspectos contemporâneos das ruas e mostram projectos bem sucedidos de arquitectura e urbanismo em cidades dos cinco continentes.

As temáticas

“A rua é nossa…de todos nós” é uma exposição que aborda diversas temáticas acerca da rua, tais como a segurança, a mobilidade e os entraves/separadores, a velocidade, as mutações, a rua espaço intermodal, o governo da rua, a vivência da rua, os média, a publicidade e as compras. Partindo da ideia de diversidade e partilha com que a rua está implicada na cidade contemporânea, a organização da mostra explica que em Lisboa o que se fez foi tentar “acentuar como as formas de partilha do espaço público estão ou podem estar em transformação, respondendo a novos desafios da urbanidade, seja na escala de proximidade, seja nas conexões mais abrangentes, com uma missão: da rua que une”.

Manifestação cultural internacional

Patente no MUDE até ao próximo dia 20 de Fevereiro, a exposição “inscreve-se num programa internacional de manifestações culturais e científicas sobre o tema da rua, animado pelo Institut de la ville en mouvement (IVM), e itinera em quatro versões: europeia, chinesa, latino-americana e norte-americana”, esclarece a organização. Depois de já ter estado em Paris, Xangai, Pequim, Buenos Aires e Toronto, em 2008 a exposição foi apresentada em Rosário, na Argentina, e em Montreal no Canadá, e em 2009 seguiram-se as cidades de Cantão, Bogotá, Santiago do Chile, Rio de Janeiro e Barcelona.

A exposição foi concebida por François Ascher – professor do Instituto Francês de Urbanismo, e Mireille Apel-Muller – directora geral do IVM, com a colaboração de especialistas de diferentes disciplinas. Em Portugal, é comissariada por Pedro Brandão da Associação Europan Portugal e organizada em colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa e o MUDE.

De forma a perceber um pouco mais sobre este espaço público, a Rua de Baixo entrevistou Pedro Brandão, comissário da exposição.

No seu entender, para que servem as ruas?

Pedro Brandão: As ruas não são apenas os espaços por onde circulam veículos e pessoas. São as raízes da forma urbana e os espaços públicos por excelência – isto é, de relação entre pessoas, incluindo as múltiplas interacções e usos comuns – estar, lazer, comer, trocas comerciais, simbólicas…

A quem de dirige esta exposição?

Ao público comum. Não é uma exposição para profissionais, mas sim para quem tem um interesse numa cidade viva, com ruas vivas. Por isso damos mais importância ao programa de actividades que construímos à volta da exposição e que acaba na última semana com um simpósio e várias exposições e eventos paralelos. O nosso site, as redes sociais que mobilizamos, são o outro espaço público da rua.

O que podemos retirar da visita a esta mostra?

A noção emocionante de que a rua é nossa, de todos nós, valorizando tudo o que lhe confere carácter interactivo e nos atribui um papel, na decisão sobre o futuro da cidade, como seus donos e utilizadores, profissionais, artistas, peões ou utentes de outras formas de mobilidade. O projecto de uma identidade – a cidade que queremos pode ser representada por uma visão em relação às ruas.

Sendo uma exposição internacional, os conteúdos são sempre os mesmos ou vão mudando de pais para pais, adaptando-se à forma com cada um entende a rua?

Em cada pais é pedida uma adaptação local.

As ruas e a forma como nos apropriamos dela muda de cultura para cultura, de nacionalidade para nacionalidade?

Cada cidade tem uma particularidade que em muito deve à natureza das ruas e à sua vivência. Basta tomar como exemplo o que podemos comer na rua, o que gostamos de fotografar ou que diversidade de personagens e usos elas oferecem – na Índia por exemplo temos aquele enxame de pessoas, veículos e animais, circulando aparentemente sem regra no mesmo espaço – uma cultura de de rua civilizada, mesmo na sua rusticidade de imagem ou até na ruralidade com que se compatibilizam.

Do seu ponto de vista, como é a relação dos portugueses com a rua e com o Espaço Público?

Diria que é tímida e aprisionada, – vivemos cada vez mais em interiores e na rua estamos dentro de veículos – é por vezes triste ver os passeios apertados, sem ninguém e com carros em cima – temos mesmo um sinal de trânsito que diz que é permitido estacionar sobre os passeios. Diz tudo.

Falam nos novos desafios da urbanidade. Quais são eles?

Não nos pode passar ao lado a paisagem que uma rua constrói (naquela semana em Maio em que florescem os jacarandás é tão evidente), e a imensidade de coisas divertidas que se podem passar na rua, a necessidade de refazer ruas-azinhagas, ruas-boulevard, prolongando ruas desde o centro até às periferias metropolitanas, de as tornar mais atractivas, mais cómodas, mais práticas e de com elas construir os locais de mobilidade e do encontro, que definem a liberdade.



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