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Pop Dell’Arte @ Musicbox

Pop livre via 1987.

Em 1987 ainda não tinha caído o muro, nem a União Soviética. Em 87 não tínhamos assistido à Guerra do Golfo e, claro, os 11 de Setembro e de Março não eram mais que os dias em que se celebrava, por exemplo, o Dia Mundial do Rim. Em 87, em Dezembro de 1987 foi editado “Freepop”, álbum de estreia dos Pop Dell’Arte e um dos mais importantes documentos da história da música portuguesa. Naquela altura ninguém soava como os Pop Dell’Arte, tal como hoje ninguém soa da forma como eles soaram na altura. Na ressaca pós-punk que rendeu nomes como os Heróis do Mar, os Mler Ife Dada ou os GNR, os Pop Dell’Arte destacavam-se de outrem – o som não respondia a convencionalismos e João Peste parecia mais um louco do que um cantor. O que separou a crítica na altura em que a banda de Peste explodiu é o que a une hoje, no ano da graça de 2011 – o som único, longe de tudo o que se fazia na altura.

É interessante verificar que alguns dos mais importantes discos dos finais das décadas de 80 e início de 90 vão hoje sendo recriados ao vivo – é assim com “Screamadelica” dos Primal Scream – vamos poder ver tudo em Algés -, é assim com “Doolitle” dos Pixies e é assim, agora, com os Pop Dell’Arte. A diferença estará no facto de os portugueses não darem azo a regressões. Celebrou-se o passado por uma noite.

Nesta oportunidade única que rendeu uma óptima casa ao Musicbox, em Lisboa, a banda sobe a palco com mais de uma hora de atraso. Já com toda a banda em palco, João Peste surge, de camisa e gravata vermelha, desajeitado, mas só até surgirem as primeiras palavras de «Berlioz» – aí, nessa altura, fecha os olhos, abre os braços e balança-se, é assim todo um espectáculo, umas vezes de pé, outras sentado. “Freepop” é tocado na íntegra – e é tudo o que o título nos faz crer que é, é pop livre, poliglota, estragada, longe de tudo o mais. Seria hoje um OVNI, tal como foi em 87.

O público, mais velho que o habitual, aproveita para matar saudades – no meio da plateia, já depois da apresentação integral de “Freepop”, alguém que só podia estar bastante alcoolizado insiste, “toca New Order, a «Bizarre Love Triangle». A verdade é que por mais que o Musicbox se assemelhe por uma só noite ao Hacienda, o clube de Manchester que nos anos 80 reunia a melhor música, as melhores bandas e a melhor droga da cidade, os Pop Dell’Arte não entram em facilitismos.

Já no encore final, em «My Funny Ana Lana», João Peste deixa, sem querer, que o microfone se desligue. Nesta altura, um indivíduo, talvez um amigo, talvez um fã, também com bastante álcool no sangue, sobe ao palco, abraça Peste e mantém-se em palco a dançar aquele que, porventura, foi o maior sucesso dos Pop Dell’Arte até hoje. Peste, tal como a banda, reagem como se nada fosse e saem progressivamente do palco – primeiro o “invasor” com a ajuda de um segurança, depois o líder da banda e por aí fora. Histórico.



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