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Queres fiado?

António Gomes de Almeida, um ilustre desconhecido do panorama humorístico português.

Desde os anos 50 até aos finais dos 70, António foi director, colaborador e editor de periódicos humorístico, como o “Mundo Ri”, “O Picapau”, “A Parada da Paródia” a “Bomba H”.

Mas o seu trabalho no humor nacional passou também passou pela rádio, nos vários programas dos Parodiantes de Lisboa, e pela televisão, em programas como “Gente Fina é outra Coisa” e o “Jornalouco”, um antecessor do Contra-Informação.

Em conversa com a RDB, António Gomes de Almeida explica o quão dificil é fazer humor em Portugal, conta como se enjoou de tantas piadas e confessa crimes passados, já prescritos.

Na sua opinião, o que levou ao quase desaparecimento da imprensa humorística em Portugal?

Quanto a mim, é o problema do nosso tamanho. Portugal é pequenininho, é um Portugalito, somos apenas umas tantas meias-dúzias-de-gatos, todos nos conhecemos, e é muito difícil praticar o Humor, porque a Crítica, que nele é elemento fundamental, esbarra com o inconveniente de fazermos piadas que podem atingir o vizinho, o amigo, o conhecido, o patrão, o senhor-importante-que-pode-meter-a-boa-cunha, o senhor-que-nos-pode-barrar-a progressão-na-carreira, o senhor ministro e, até, o senhor primeiro-ministro… Não se pode dar uma piada ao intocável Benfica sem ficar com o labéu de um ominoso e abominável sportinguismo… Isto tudo porque somos poucochinhos e, se nos dedicamos à Indústria da Piada, ficamos logo marcados… Nos países onde há muita gente, os Humoristas diluem-se na multidão – e, mais importante do que isso, têm possibilidade de obter uma boa camada de público que concorda com eles. Aqui, a gente faz uma piadinha inocente sobre o Sócrates, e vem logo o conselho prudente do amigo: – É pá, cuidado, olha que ele é muito capaz de te pôr em tribunal!

O nosso Portugalito tem um problema fatal, que é o problema das tiragens. Pequenas tiragens nos jornais, pequenas plateias nos teatros e cinemas, pequeníssimas frequências nas bibliotecas – porque não há gente para grandes multidões, salvo para os castings das televisões. Esse é o nosso drama.

Curiosamente, o humor radiofónico ainda vai sobrevivendo, com artistas conceituados da actualidade como Bruno Nogueira e Maria Rueff. Que pensa destes programas e artistas? Poderá o seu trabalho ser comparado ao dos Parodiantes de Lisboa?

Hoje, os “Parodiantes de Lisboa” não teriam metade do êxito retumbante que tiveram na sua época. Isto por várias razões: nesse tempo não tinham a concorrência da televisão; a Rádio tinha ainda uma força espantosa (que, curiosamente, tem vindo a recuperar recentemente); e tinham uma organização impecável. Trabalhava-se muito (eu que o diga: cheguei a escrever 12 e 14 sketches por dia – nos meus 9 anos mais produtivos, escrevi dezasseis mil), e o estilo era popular, com Crítica q.b. e vozes muito boas. O Humor radiofónico que se faz hoje está bem adaptado ao tempo que corre, mas anda longe da estrondosa popularidade que os Parodiantes tiveram.
Comparando com o Cinema: os filmes do Vasco Santana e do António Silva eram muito engraçados e muito populares, mas hoje seriam fiascos enormes, a menos que actualizassem o estilo.

Ao ler algumas revistas de humor portuguesas, reparo que muito material era retirado de revistas internacionais, como por exemplo, a Mad. Nas revistas em que trabalhou respeitava-se os direitos de autor, ou também havia algumas cópias pirata?

Mea maxima culpa… Agora, que os “crimes” já prescreveram, posso revelar, batendo com a mão no peito, que palmei alguns cartoons e muitas fotos, sem dar cavaco a ninguém… Era o que toda a gente fazia, aliás sem grande consciência de estar a cometer um ilícito. Porém, a partir de certa altura, começámos a aperceber-nos da injustiça cometida, e todos nós, os que trabalhávamos nisto, começámos a requisitar os originais às Agências (“Dias da Silva”, etc.) e a pagar os respectivos direitos. Quando fiz a “Bomba H”, que durou 176 números mensais e acabou em 1978, o material para os primeiros números era parcialmente “recuperado” mas, depois, passou a ser pago. No entanto, há um pormenor curioso: a partir de certa altura, verificámos que as próprias Agências me mandavam cartoons recortados de revistas americanas, inglesas, espanholas, etc., sem qualquer tipo de identificação de autor. Ou seja: também elas faziam o seu palmanço parcial… E tenho muitas dúvidas de que os 20 ou 30 escudos que paguei por algumas anedotas russas, polacas, etc., tivessem ido parar às mãos dos seus autores…

Algum autor se queixou desta prática?
Uma única vez, um desenhador alemão escreveu a refilar, porque eu tinha publicado (também na “Bomba H”), nem sequer um cartoon, mas uma pequeníssima vinheta, com um rosto a rir… O homem ameaçava com indemnizações, e a coisa resolveu-se da melhor maneira: não ligámos nenhuma e ele desistiu.

Como funcionavam essas agências?

As agências enviavam para a Redacção lotes de anedotas, umas em fotocópia, outrras em recorte, coladas numas folhas identificando o Autor, o preço e a Agência. Nós escolhíamos as que queríamos publicar, devolvíamos as sobras com uma lista das retidas, pagando de acordo com as tabelas, que eram, mais ou menos (nos anos 60/70) uns 25 a 30 escudos por peça. No meu caso, para fazer a “Bomba H”, recebia em média 3000 a 5000 peças por mês, para escolher umas 80 a 100. E era bem chato e bem difícil porque, às tantas, a mesma anedota aparecia-me em 4 ou 5 versões, uma inglesa, outra americana, outra italiana e outra mexicana… Não era raro ter de pedir segunda dose, para conseguir completar o lote. Foi por isso que apanhei um tal enjoo, um tal fartote de anedotas, que hoje não suporto ouvi-las, porque já as conheço TODAS!… Penso que o sistema actual é, mais ou menos, idêntico, apenas adaptado às modernidades.

Como é que o iconoclasta José Vilhena conseguiu ser director do “Mundo Ri”, que era editado por um membro da Legião Portuguesa?

Sim, o Prazeres era da Legião, dizia-se, e também funcionário dos Armadores do Bacalhau. Para ele, o “Mundo Ri” era um negócio e mais nada. Nunca interferiu nos conteúdos. Nós, os fabricantes da revistinha, é que já sabíamos o que a Censura deixava e não deixava passar – e, por outro lado, as características da publicação não davam ocasião para grandes arrojos. Quando eu saí, ao verificar que, na minha condição de Director, ganhava menos que, antes, na de Colaborador, entrou o Vilhena, que estava nos seus começos e a quem o Prazeres deu carta branca (como antes tinha dado a mim e ao Matos Maia) para fazer a revista. Tanto quanto sei, não houve nenhum choque, e o “Mundo Ri” morreu de morte natural, quando o Vilhena se lançou noutras aventuras e não ficou ninguém para fazer o trabalho.

Em resumo: tanto no meu tempo como depois, o Prazeres fazia as contas e nós fazíamos o resto. E nunca nos demos mal.

Com que artistas e em que revistas mais gostou de trabalhar?

Colaboraram comigo tantos cartoonistas, principalmente na “Parada”, que é difícil destacar só um. Mas, vá lá: dos que mais trabalharam (e ainda trabalham) comigo, o Zé Manel é um ilustrador fora de série. E há um outro, com o qual se passa, por coincidência, um caso muito concreto: ando há anos a tentar descobrir o paradeiro do Adolfo Feldlaufer, que saiu do país há 40 e tal anos, e se tinha esfumado… Pois bem, descobri-ohá dias e tenho notícias muito interessantes a respeito. Mas isso tem que ficar para mais tarde, porque não tenho autorização para divulgar algo que, acho eu,  vai marcar a Arte do Design, muito em breve. Darei notícias, quando for oportuno.

Quanto ao Autores de humor: na Rádio, o mais eficaz era o Ruy Andrade, que nem escrevia muito bem, mas tinha o sentido do que é o Humor  Radiofónico. Era espontâneo e, embora cometesse alguns erros de Português… como eu digo, na Rádio não se vêem as vírgulas… Outro, muito bom, esse na Imprensa, foi o Álvaro Magalháes dos Santos (“Vicente Gil”) que manteve páginas de humor, por exemplo, no Correio da Manhã, e com quem escrevi, de parceria, alguns programas para a TV (“Gente Fina é Outra Coisa”). A dupla Ferro Rodrigues / Santos Fernando era bastante boa. Outra dupla, do Porto, Antero Nunes /  Bê Veludo, que também colaborava na Voz dos Ridículos, tinha muita piada. E, no Humor Desportivo, o Carlos Pinhão era insuperável. Mas houve outros bons, como o Rolo Duarte (pai) e o caso especialíssimo do Mário-Henrique Leiria, que estava destinado a colaborar comigo no “Macaco” (que não chegou a sair) e que era quase genial.

Entre todas as publicações, aquela que me deu maior prazer fazer foi o “Picapau” (lançada em conjunto com Stuart Carvalhais), apesar de só ter publicado 7 números (acabou por razões rocambolescas, longas de contar). Foi uma revista revolucionária em estilo e em conteúdo… Mas também foi entusiasmante dirigir, durante 2 anos, a “Parada da Paródia”… Massacrante foi fazer, durante 17 anos, a “Bomba H”,..  Frustrante a tentativa do “Cágado”, ingloriamente terminada por falta de estrutura da editora…  E decepcionante foi ter de suportar a tarefa de dirigir, durante uns meses, muito contrariado, a Redacção da “Chucha”…

Que seria necessário para lançar agora uma revista de humor em Portugal?

Uma de duas coisas: 1.– Ser tão rico como o Belmiro de Azevedo (que tem sustentado os prejuízos do “Público” e, por tabela, os do “Inimigo Público” – e este nunca sobreviveria como jornal independente);  2.– Ser maluco.



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