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Radio Muezzin – alkantara festival

As futuras vozes silenciadas.

Ao entrar no espectáculo mergulhamos em sonoridades islâmicas dispersas por toda a sala: eles chamam-nos para junto deles, e nós, sentamo-nos a observá-los, à espera de tentarmos perceber as suas orações, sem barreiras culturais ou “pré-conceitos”.

Conta-se que o Cairo, a maior e mais próspera capital do Médio Oriente, com cerca de 17 milhões de habitantes na sua área metropolitana, terá cerca de 30.000 mesquitas. Em cada mesquita, a chamada “Cidade Vitoriosa” ou “‘Cidade dos Mil Minaretes'” tem um muezim, entidade encarregue de anunciar aos fiéis, cinco vezes por dia, que é a hora da oração.

“Radio Muezzin”, propõe-se a reproduzir, naquilo que se poderá chamar de um documentário em palco, a preocupação dos fiéis do Cairo, na sequência de uma proposta do Ministério dos Assuntos Religiosos do Egipto, de substituir todos os muezins por um único, que ficará encarregue do chamamento para a oração ao vivo e de forma exclusiva através de uma rádio, a ser colocado em todas as mesquitas.

Em palco, quatro muezins desabafam e contam a história da sua vida relacionada com a religião: um professor do Alcorão cego, um ex-combatente, um electricista e um culturista que será “a voz” da futura rádio – por razões de desentendimento entre os restantes, (“a vida exemplar de um muezim deve ser aproximada à do profeta”), este último não tem presença física. Entre uma linguagem e uma gestualidade muito expressivas e naturais, num cenário que nos convida a entrar numa mesquita, somos esclarecidos acerca dos rituais e simbolismos da oração e os motivos que levam aqueles indivíduos à sua opção de devoção religiosa diária. Com um complemento audiovisual de projecção de vídeos e fotografias e a explicação de um técnico de rádio, é colocada em causa a evolução tecnológica que, se por um lado, beneficiou o muezim com os megafones e microfones modificando a tradição árdua de ter de subir e descer as escadas do minarete; por outro leva-os à extinção.

O encenador Stefan Kaegi, desde 2000, desenvolve o seu método de escolher pessoas reais para “representarem-se” e partilhar connosco as suas preocupações acerca de uma problemática em concreto. Numa tentiva de despertar o público para realidades contemporâneas existentes e controversas faz uma pesquisa prévia e intensiva acerca do tema abordado. Em 2003, juntamente com Rimini Protokoll, tornam-se artistas residentes no HAU Theatre Berlin.
Fotografia Rui de Freitas



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