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RIP. Epitáfio para os finais felizes?

Será que o espectáculo que Francisco Camacho e Bruno Almeida trouxeram ao Festival Temps d’ Images, nos permite equacionar a hipótese de algumas das tendências mais experimentais da dança e das artes performativas se estarem a reconciliar com a comunicação?

Como dizia Vera Mantero à Rua de Baixo quando em Julho conversámos a propósito “Vamos sentir falta de tudo aquilo que não precisamos”: “- São muitos anos de incompreensão. Custa muito estar sempre a ouvirmos ah, não se percebe bem. Acho que as pessoas estão muito condicionadas pela ideia de verem um trabalho artístico e terem de perceber.”

Uma das questões que é sempre muito dramatizada nestes campos muito indefinidos das artes performativas é a questão da comunicação com o público. Hermetismo, elitismo, incomunicação, são geralmente adjectivos que nos habituámos a ver associados à recepção dos objectos artísticos mais experimentais.

Em “RIP”, qualquer espectador, independentemente do grau de familiaridade com as artes performativas, quando chega o quadro final percebe logo que o espectáculo vai terminar e também qual foi o tema principal do espectáculo. E percebe-o apenas pela mudança de cor dos figurinos e pela repetição da coreografia e da música inicial.

“RIP” começa com dois pares, dois homens e uma mulher e um homem, vestidos de um cor-de rosa berrante, e termina com os mesmos dois pares vestidos de cinzento, meio anestesiados e adormecidos. Talvez mortos-vivos.

É sobre o ponto de vista dramatúrgico um espectáculo muito apurado, muito trabalhado. A eficácia narrativa a que nos referimos no princípio e no fim, não quer dizer que ele aposte sempre na linearidade narrativa.

Pelo contrário. O próprio nome do espectáculo é polissémico e essa profusão de sentidos ressoa nas explorações que são feitas. A relação com o homem-marioneta,  a sua programação, a repressão a que é sujeito. As brincadeiras dos dois rapazes no campo, na terra. A cena de paródia do circo. A dança, o acasalamento, a cópula. O homem que lê um livro, o jogo que há com a reprodução da gravação dessa leitura. Com as imagens projectadas, que constroem um outro lugar, paralelo.

Há uma ambiguidade narrativa: jogos reflexivos, na perspectiva do corpo, da linguagem corporal, sobre a violência, sobre a repressão, sobre a inocência, sobre a destruição, sobre a aniquilação. O homem da motosserra é mais uma metáfora. De quê? Pode ser de tanta coisa. O espectáculo resiste bem ao fechamento. O único momento em que ele parece ceder é no final. E mesmo aí percebemos que é apenas um truque para desferir um soco no estômago naqueles que ainda acreditam em histórias cor-de-rosa. Não há dúvida nenhuma: o nosso futuro é cinzento. Mas também, quem é que nos manda a nós esperar ainda por finais felizes?

RIP

Apresentado a 3 e 4 de Novembro às 21h00 no Festival Temps d’ Images | CCB Pequeno Auditório, Lisboa Direcção artística: Francisco Camacho | Filme: Bruno de Almeida |Apoio Dramatúrgico João Manuel de Oliveira |Criação e interpretação: Mariana Tengner Barros, Rafael Alvarez, Tiago Cadete e Francisco Camacho | Figurinos: Carlota Lagido |Luzes: Frank Laubenheimer |Técnico de som e video : Carlos Ramos | Assistência de ensaios: Elizabete Francisca, David Marques |Produção: EIRA Co-produção: Dupla Cena/Festival Temps d’Images e Citemor



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