SBSR XL ACT1

O triunfo das guitarras.

Dia 25 de Maio

Palco Principal

A abertura do SBSR XL deu-se com os Ramp, um dos mais destacados conjuntos nacionais em matéria de sonoridades mais pesadas. Num dia dominado pela monotonia e por concertos nivelados por baixo, a banda de Rui Duarte conseguiu, ainda assim, dar um espectáculo poderoso e abrasivo, ainda para mais tendo em conta a elevada temperatura que se fazia sentir em Lisboa por esta altura. As novidades não foram muitas, mas a força dos Ramp foi a de sempre – provavelmente nunca passarão do patamar em que se encontram, mas o poder do seu heavy-metal continua a merecer nota digna de registo.

Os Moonspell apresentaram-se no Parque Tejo dispostos a apresentar a novidade “Memorial”, disco estranhamente (ou nem tanto) bem recebido por terras nacionais, com direito, inclusive, a um número 1 da tabela de vendas. O novo disco mostra um regresso a algumas origens mais pesadas, e o concerto no SBSR confirmou os Moonspell, se mais provas faltassem, como uma das mais válidas bandas da cena pesada a nível europeu. «Finisterra» é já um tema essencial na carreira da banda, capaz de ombrear ao lado de clássicos como «Opium» ou a sempre bem recebida «Alma Mater».

Infelizmente, e por condições adversas à banda, sentiu-se a falta da noite para melhor preencher o imaginário conceptual dos temas da banda – porquê os Moonspell a tocar antes dos Soulfly, por exemplo? Acabou por saber a pouco, mas ficou no ar a ideia que mais tarde se viria a concretizar: sem ser um concerto brilhante, melhor música não se ouviu durante a noite de dia 25 no Parque Tejo.

Max Cavalera é uma figura incontornável do heavy-metal mundial. Disso não há dúvidas. Sobre a pertinência actual dos Soulfly, aí sim, residem algumas questões pendentes. A carreira da banda tem vindo a cair numa indesejável indiferença, e o recente “Dark Ages” não veio ajudar a reabilitar o conjunto.

Para o concerto no SBSR, Max Cavalera e companhia apostaram numa demonstração nonstop (não confundir com a desastrosa prestação lusa no tal concurso televisivo) de distorção e energia, retribuída apenas ocasionalmente pelo público. Adivinharam – nos temas do primeiro disco dos Soulfly e nas recuperações de clássicos dos incontornáveis Sepultura. Quanto ao resto, indiferença quase total. Urge a Cavalera repensar a carreira dos Soulfly.

“Isto é Evanescence em mau. E Evanescence já é o que é…”, comentava alguém a meu lado sobre os Within Temptation, a banda que se seguiu. E se calhar até é mais ou menos isso. A fusão de elementos metal mais clássicos (as guitarras, por exemplo) com tiques vocais de ópera, aliada a cenários alusivos ao Paraíso não serviram para entusiasmar o público presente nesta noite de rock. Num concerto demasiadamente longo, nunca os Within Temptation conseguiram seduzir verdadeiramente os espectadores do SBSR, apesar da interessante presença em palco da vocalista Sharon den Adel. Apelidar “obrigado” de palavra espanhola também não foi contributo positivo para a empatia com o público. Um concerto falhado.

Os Korn estão longe de ser novatos em Portugal, mas conseguiram apresentar no palco do SBSR um espectáculo convincente, recuperando grande fatia dos seus clássicos de sempre aliados a alguns temas do recente “See You on The Other Side”. A época já não é a deles (o nu-metal já lá vai…), mas a idade trouxe uma maturidade e competência extra à banda que tornou este concerto no seu espectáculo mais bem conseguido em terras lusas. O final com «Freak on a Leash» e «Blind» foi o culminar perfeito para os milhares de resistentes desta primeira noite de rock.

Mas havia mais, e melhor, na noite seguinte…

Palco Worten/Quinta dos Portugueses

Coube aos Devil in Me estrear o palco Worten/Quinta dos Portugueses nesta edição do SBSR. Prometeram “partir esta merda toda!”, mas ficaram-se apenas pelas intenções, felizmente. O calor em demasia impediu a maioria do público de moshar como a banda desejaria, mas ainda assim algumas dezenas de convictos pareciam agradados com a prestação do conjunto

Passagem, algum tempo depois, para os Twenty Inch Burial, conjunto já com um certo nome na cena metal nacional. Nota-se algum andamento que as digressões lá por fora fizeram à banda – estão coesos, fortes. Musicalmente estão longe de encantar, mas a verdade é que tiveram o público do seu lado. Mérito para isso.

Os Cinemuerte têm na vocalista Sofia (que antes havia ido dar uma perninha no concerto dos Moonspell) a sua figura de proa. Aprestam-se para editar o seu registo de estreia e deram ao público do SBSR um cheirinho da sua sonoridade. Cumpriram, sem deslumbrar. Resta esperar um concerto mais próprio e personalizado para retirar melhores conclusões sobre a banda.

O final da noite reservou o mais interessante concerto da noite no palco Worten/Quinta dos Portugueses, responsabilidade dos Bizarra Locomotiva. Uma entrega apenas estranha a novatos no imaginário da banda, as canções do costume, um visual alienado – tudo motivos mais que suficientes para manter o olho em palco. A sonoridade é a do costume, Young Gods encontram Rammstein num café com vista para a maquinaria dos Kraftwerk, maquinaria essa oleada e preparada para eventuais sons produzidos sob a batuta dos Black Sabbath, isto claro se Ralf Hütter e companheiros decidissem tomar Ozzy como inspiração. Musicalmente os Bizarra estão longe de entreter tanto como visualmente, mas a experiência vale a pena. E tal experiência foi, mediante um panorama apenas mediano, o momento mais destacado da noite por estes lados.

Dia 26 de Maio

Palco Principal

A tarde de dia 26 abriu com os Primitive Reason no palco principal, uma banda que, não obstante o profissionalíssimo concerto, pareceu algo deslocada para inaugurar as hostes deste dia. A fusão de metal com ritmos mais tribais animou as primeiras filas mas pouco mais que isso. Inconsequentes.

Sobre o concerto dos Alice in Chains, uma palavra: irrepreensível. Jerry Cantrell é um dos poucos guerrilheiros da armada grunge ainda no activo e os temas dos Alice in Chains são, regra geral, enormes hinos rock. Contudo, um certo condicionalismo moral impede de desfrutar o concerto na sua plenitude – William Duval, no lugar de Layne Staley, é competente ao máximo, entrega total, boa postura, voz interessante. Mas fará sentido este concerto? A verdade é que temas como «Rooster» ou «Them Bones» fizeram a delícia dos presentes. No final, a banda ergueu uma faixa onde se lia “Alice in Chains: Born Again”. Se isso é bom ou mau, fica ao critério de cada um.

De seguida, o momento mais dispensável da noite. Os Deftones regressaram a Portugal, com uns bons quilinhos a mais, mas com a mesma entrega de sempre. Pena que a música não acompanhe o notório empenho da banda. Perdidas entre gritaria inconsequente de Chino Moreno e abusivas doses de distorção no botão vermelho dos restantes, as canções dos Deftones nunca conseguiram respirar verdadeiramente e soltar-se da má forma como estavam a ser apresentadas ao público. Muitos optaram por ir jantar. Escolha acertada, para apreciar o resto da noite de barriga composta.

Os Placebo, outros habituais em terras lusas, apresentaram no SBSR um espectáculo arriscado, mas a todos os níveis bem sucedido. Arriscado no sentido do repertório apresentado, onde pontuaram temas do novo “Meds” em detrimento de momentos mais antigos, que estavam lá mas em quantidades menores do que muitos desejariam, provavelmente. Brian Molko continua tão apelativo em palco como sempre, e logo no arranque com o novíssimo single «Infra-Red» ficou notório que existe uma nova base de fãs dos Placebo disposta a prolongar o culto da banda por mais alguns longos anos. Os fãs recentes gostaram, os do antigamente vibraram com «Come Home» (o primeiro single de sempre da banda) ou «Every You Every Me», e os ocasionais espectadores puderam apreciar um tremendo concerto de rock. Podem voltar todos os anos que só se importará com isso quem pouco de interessante tiver com que se queixar.

A encerrar este primeiro Act do SBSR os norte-americanos Tool regressaram a Portugal com novo disco nas mãos, o ainda fresquíssimo “10.000 Days”. O som, tecnicamente falando, foi o melhor ouvido no Festival durante os dois dias – impressionante a clareza que saía daquela bateria e daquele baixo. Relativamente ao concerto em si, foi também ele um portento, intensíssimo, recheado de belos momentos. Pontualmente, é certo, torna-se algo monótono e repetitivo, um pouco como em disco nos é apresentado. Mas quando a coisa acerta (fabuloso «The Pot», por exemplo), o resultado é tremendamente positivo.

Palco Worten/Quinta dos Portugueses

Os Dapunksportif inauguraram a tarde no palco Worten/Quinta dos Portugueses com o seu rock musculado que ora cita os Queens of The Stone Age ora vai buscar algum ideário a bandas mais assumidamente punk, como os AFI. Não se pode dizer que tenha sido um concerto desinteressante, há mesmo por aqui algumas boas ideias à espera de total confirmação. No entanto, acabaram por ser das menos interessantes presenças do dia neste palco. Mas a culpa até nem é bem deles…

Caos. Desordem. If Lucy Fell. Grande concerto. Em crescendo, terminou no ponto máximo, com a banda em total comunhão, a bateria de Hélio (que força nos pratos!), as guitarras, Makoto, o vocalista, a dar uma mãozinha no theremin, até. O público, esse, nem todo aderiu, como é natural – não são propriamente donos da sonoridade mais apelativa do mundo, estes If Lucy Fell, praticantes de um punk/hardcore sempre com o botão no vermelho, em constante explosão. Mas quem entrou no espírito, gostou verdadeiramente. Tremendo motim rock’n’roll.

João “Kitten” Vieira e os seus X-Wife continuam a apresentar a novidade “Side Effects”, o regresso à festa em modo de rejeição da ressaca. Energéticos como sempre, foram prejudicados no final, onde foi-lhes impedido tocar o último tema que tinham agendado. O público retribui-lhes a desfeita com uma merecida ovação – afinal, havíamos acabado de presenciar os 20 minutos mais dançáveis do festival até ao momento.

A encerrar as actividades no palco, o novo furor do rock nacional, a energia dos Vicious 5. Longe da casa-mãe ZDB, a banda parece começar a soltar-se verdadeiramente e a evolução ao vivo tem sido notória nos últimos tempos. Há coesão, segurança. O público, a princípio desconfiado, rendeu-se ao segundo tema – estava aí a festa dos “putos”, como afirmou Joaquim Albergaria, o vocalista. O palco Worten/Quinta dos Portugueses dificilmente poderia ter tido melhor desfecho neste primeiro Act.

Dias 7 e 8 há mais. O melómano de sempre e o espectador ocasional agradecem.

 



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