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Scissor Sisters @ Teatro da Luz

Grande festa em palco pequeno.

Muitos devem ter estranhado quando foi anunciado que o concerto dos Scissor Sisters por cá, no dia 3 de Outubro, seria no Teatro da Luz, pequeno teatro situado em Carnide. Sim, os Scissor Sisters, aquela banda totalmente pop que encheu o Coliseu da última vez que cá veio, ia tocar numa sala que não aguenta mais que umas poucas centenas de pessoas; em formato acústico, pelo que se dizia. Era impossível prever como as coisas iam correr, e a iniciativa poderia parecer ridícula para muitos.

Mas, ao que parece, o conceito de concerto acústico para os Scissor Sisters envolve guitarras eléctricas, baixos, bateria, e arranjos perfeitamente normais para qualquer banda. Foi acústico no sentido em que não teve nem os sintetizadores esperados (que, aliás, nem são assim tão característicos das suas músicas) nem foi um espectáculo visual com confettis ou muitas luzes, como é costume nas bandas deste género; mas de resto, o concerto dos Scissor Sisters foi, simplesmente, um concerto normal em formato normal; mais pequeno, com apenas onze músicas tocadas, sem espectáculo nenhum a nível visual, mas com arranjos normais (sem ser a inexistência de sintetizador) e uma banda empenhada ao máximo. E foi muito, muito divertido.

Não é que os Scissor Sisters sejam uma excelente banda, porque não são; mas também não têm de ser. Têm a seu favor um estilo catchy e directo que falta a muitas bandas do género e, quer se goste ou não (e eu nem gostava muito), ao vivo é impossível resistir. Tanto pela música em si como pela banda, sempre profissional e empenhada em dar ao público o melhor espectáculo possível; quer seja num Coliseu ou num Teatro da Luz.

É música para dar festa e, ao vivo, é exactamente isso que faz.

Num Teatro da Luz cheio (enche facilmente, diga-se), num evento exclusivo de uma certa rede móvel, onde não faltaram as belas das ofertas habituais nestes eventos (tudo desde revistas com cartões a tesouras de cartão) e um bar aberto, os Scissor Sisters actuaram num espectáculo íntimo, sem grande espectáculo a nível visual mas com a música e a energia do costume. A banda foi irrepreensível do início ao fim, comunicativa e profissional, com dois energéticos vocalistas (Jake Shears e Ana Matronic) a assegurarem as rédeas daquela que foi uma divertidíssima noite que pecou, acima de tudo, por ter sido tão curta.

É verdade que não se esperava propriamente um espectáculo muito longo, ou até mesmo um concerto em registo normal, mas ao ver a banda fazer tão bem o que faz, de uma forma que de acústico pouco ou nada teve, é normal que saiba a pouco quando apenas onze músicas são tocadas (e a última, em encore, nem estava sequer planeada). Entraram exactamente à hora certa, com Shears a dar nas vistas com uma espécie de top de tiras pretas com uma mão bordada nas calças a apontar para a virilha (já vimos bem pior de outros nomes da pop actual, não é Lady Gaga?) e acabaram mal passava uma hora do início. Com um alinhamento que atravessou os três álbuns da banda, tendo-se ouvido tanto êxitos recentes e antigos, como a incontornável «I Don’t Feel Like Dancing», com honras de encerramento (não tivesse o público pedido mais uma…), ou «Comfortably Numb», música onde os sintetizadores fizeram alguma falta, naquela que é ou a melhor ou a pior cover de todos os tempos, foi uma setlist bem pensada do início ao fim.

O concerto foi, em si só, de qualidade constante. As canções novas resultam muito bem ao vivo, tendo todas elas um ritmo contagiante ao qual é impossível resistir; característica já das canções antigas, claro. Esta é, afinal de contas, música pertencente ao tipo de pop-rock (haverá outra banda a pertencer mais a este género?) feito para ser tocado ao vivo, onde as melodias rápidas e os refrões catchy envolvem facilmente qualquer um e criam rapidamente um ambiente de festa. Começaram com «Any Which Way» e, logo a seguir, fizeram uma viagem ao primeiro álbum para resgatar «Laura», momento em que o público provou a sua devoção, reconhecendo imediatamente uma música que, para o fã mais casual, talvez seja mais obscura. Foi um vai-vem constante entre álbuns, algo inesperado num concerto tão curto, onde se esperava talvez que a banda se dedicasse mais ao último álbum e ignorasse temas mais antigos; há que dar valor ao grupo por ter feito um alinhamento tão conciso e completo, contemplando todos os seus três registos. Tanto o fã como o ouvinte casual saiu facilmente satisfeito com as canções ouvidas, e os momentos de maior festa foram, claro, os dos grandes êxitos como a já falada «I Don’t Feel Like Dancing», «Fire With Fire» ou a tão agradável «Take Your Mama» (e, curiosamente, no público havia umas quantas). Uma festa do início ao fim.

O grupo, sempre energético, sempre empenhado, teve o público na mão do início ao fim, no qual, para onde quer que se olhasse, só se viam sorrisos de orelha a orelha. A interacção banda/público foi uma constante, e cantaram-se até os parabéns a Jake Shears, com um bolo gigante em forma de tesoura a entrar pelo palco após ter sido tocada uma das mais aclamadas músicas da noite, a já tão ouvida «Fire With Fire». Ao olhar para o enorme bolo, o vocalista disse que no final iria ter com o público partilhar algumas fatias. Dito e feito: após o concerto, Shears foi ter com o público, distribuindo fatias e autógrafos com uma simpatia notável. Os fãs agradeceram, e mesmo os que não o são fizeram o mesmo; o bolo estava delicioso, afinal de contas.

Foi, portanto, um concerto surpreendentemente festivo e energético. Acústico? Pouco ou nada disso houve, num concerto perfeitamente normal. Faltaram talvez os sintetizadores, e o espectáculo visual que a banda há-de trazer quando cá voltar (regresso esse que ficou prometido no final, como já começa a ser hábito em qualquer concerto), mas foram essas as únicas diferenças em relação a um espectáculo em registo normal. Mesmo em palco pequeno, os Scissor Sisters fazem uma bela festa, e a reacção do público perante cada canção foi sinal disso mesmo. Impossível não sair com um sorriso perante um concerto assim, quer se goste ou não da banda em questão. Pop deste género é feita para ser tocada ao vivo, principalmente com uma banda tão empenhada e profissional.

No final ficou a saber a pouco, perante o curto alinhamento e a curta duração do espectáculo; algo que será certamente corrigido quando a banda cá voltar, provavelmente para tocar num Coliseu. Por agora, fiquemo-nos com esta bela festa em palco pequeno, onde o valor dos Scissor Sisters ficou provado, com o grupo a entregar com empenho uma noite de pura diversão que terá convertido uns, confirmado as expectativas de outros, e colocado um sorriso em todos. Agora é esperar que cá voltem em breve e que, com sorte, da próxima cá fiquem mais tempo.



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